domingo, 2 de outubro de 2016

Quando só reconhecemos o valor de uma pessoa quando a perdemos...



As relações humanas são, inegavelmente, o bem mais precioso que temos na nossa vida, já que nos construímos, do início ao fim, na e pela relação.
No entanto, pelas mais diversas circunstâncias, podemos estar menos disponíveis ou mais distraídos no que respeita ao investimento que depositamos nos nossos relacionamentos mais significativos.
A maneira como nos posicionamos na vida, é de facto uma factor condicionante. Se nos encontramos enquadrados numa lógica de vitimização, na qual impera o queixume e o pessimismo, torna-se mais difícil reconhecer, valorizar e ser grato por todas as pessoas presentes e disponíveis à nossa volta, familiares e amigos, bem como pelas oportunidades que a vida nos oferece. A “problematização e a centração em dramas pessoais” bloqueiam a capacidade para receber e desfrutar do que de melhor a vida tem para nos oferecer, bem como diminuem a disponibilidade para prestar atenção aos outros e alimentar as trocas relacionais com eles.  
Por outro lado, a crença que certas pessoas são garantidas e estarão sempre presentes para nos receber e amparar quando for preciso, também poderá promover, uma certa “distração” no cuidado e na atenção para com elas. Neste caso, não se trata propriamente de desvalorização, até porque são pessoas afetivamente significativas, mas isso nem sempre se traduz na priorização que damos quando toca a dedicar-lhes mais do nosso tempo, atenção e afeto. Quando as circunstâncias da vida determinam a perda destas pessoas ou uma diminuição da sua presença ou disponibilidade, é provável haver uma tomada de consciência maior e a emergência de algum pesar e arrependimento por não ter havido um maior investimento para com elas.
Contudo, há situações, e aqui podemos falar mais especificamente em relações amorosas,  em que, efetivamente, existe uma clara desvalorização do outro traduzida em críticas frequentes. Esta atitude poderá visar a fragilização da  auto-estima do parceiro e o aumento da sua insegurança de modo a mante-lo na relação debaixo daquele ascendente e impedir a perda. No entanto, quando a separação realmente acontece, porque o outro chega ao seu limite e decide seguir outro caminho, a dor do abandono e do vazio acaba inevitavelmente por chegar e se instalar. E é aqui, com a partida do parceiro e com a vivência da perda e do vazio, que aquele passa a ser valorizado, podendo haver uma mobilização para reverter a situação e fazê-lo regressar.
Se a perda do parceiro estiver ligada à existência de uma terceira pessoa, também poderá haver um aumento do interesse e do entusiasmo que já antes teria esmorecido. Esta aparente valorização do parceiro que partiu para os braços de outra pessoa, poderá estar relacionada sobretudo com um sentimento de despeito. É como se a perda daquela pessoa representasse o deixar de possui-la, emergindo novamente o desejo de posse e do alívio da dor da rejeição e da preterição.
Se nos construímos na e pela relação, tentemos não nos distrair em demasia do que mais precioso possuímos: as pessoas que habitam na nossa vida. Preservar e alimentar os nossos relacionamentos com as pessoas que nos são significativas, é de suma importância, bem como saber valorizá-las e acarinhá-las. Nada nem ninguém pode ser dado como garantido e todo o vínculo necessita de ser alimentado para se conservar.

Como nas palavras de Antoine De Saint- Exupéry, em o Principezinho: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...Tu és responsável pela tua flor....”

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