domingo, 9 de fevereiro de 2020

Sobre a Humildade



A humildade pode ser entendida como uma característica individual e que implica a existência de algum grau de maturidade psicológica, sendo passível de ser desenvolvida e moldada por experiências e pela influência do meio externo.
O conceito da humildade tem sido, ao longo do tempo pouco compreendido e muitas vezes associado a esse tal significado de fraqueza, subserviência, baixa-auto-estima, pobreza ou a uma aparência descuidada e despojada.
No entanto, se formos à origem etimológica da palavra humildade, vamos descobrir que ela é derivada no latim, de “humus” que designa terra. A palavra homem, derivada do latim “homo”, curiosamente também tem a sua origem no termo “humus”.
Assim sendo, a humildade pode ser entendida como um  processo psicológico a partir do qual o indivíduo se relaciona consigo e com os outros de forma realista, mantendo “os pés assentes na terra” e reconhecendo não só as suas qualidades mas também as suas  limitações, na medida em que fazem parte da sua verdade e da sua natureza.
Este posicionamento perante o próprio e os outros é sem dúvida vantajoso do ponto de vista psicológico, na medida em que a consciência das nossas limitações nos torna mais disponíveis para investir no nosso próprio desenvolvimento pessoal  e para aceder a níveis mais sofisticados de conhecimento.
Para além desta recetividade para a aprendizagem, a capacidade de aceitação e de tolerância dos aspectos mais vulneráveis e dolorosos da  personalidade também vai permitir estabelecer relações interpessoais sustentadas sobretudo na compreensão em vez de ser no julgamento e na crítica, o que incrementa  a qualidade dos relacionamentos.
Por outro lado, o  indivíduo com humildade consegue aceitar que, em certos momentos da sua vida, necessita de ser cuidado e é capaz de solicitar e de receber esse cuidado por parte do outro sem se sentir humilhado e afectado na sua auto-estima, o que proporciona trocas relacionais de colaboração, solidariedade e afetos ,viabilizando igualmente o acesso à experiência da gratidão.
A pessoa humilde tende a revelar um auto-conhecimento mais desenvolvido e uma auto-imagem mais íntegra e coesa na qual estão integrados os aspectos mais fortes da personalidade mas também os mais vulneráveis. Para além de aceitar as diferenças com mais tranquilidade e sem julgamento, a pessoa humilde demonstra mais empatia, interesse e respeito pela perspetiva do outro, comunicando sem adotar uma postura auto-centrada e egocêntrica, o que a torna  mais competente do ponto de vista emocional, pessoal e social.
A pessoa humilde tem a consciência da finitude e de como tudo é efémero e transitório, pelo que as conquistas e os sucessos não passam de situações momentâneas que coexistem com as falhas e as fragilidades, não adotando por isso atitudes exibicionistas ou de auto-engrandecimento nem esperando qualquer forma de tratamento especial.  


É possível trabalharmos o desenvolvimento da humildade. Para tal é importante:

O auto-conhecimento: o conhecimento mais profundo das nossas limitações e a aceitação das mesmas, permite-nos ter consciência da nossa necessidade de crescimento pessoal e de estarmos disponíveis para novas aprendizagens e experiências.

A aceitação da falha e o admitir dos erros: As pessoas que exibem capacidade para tolerar e admitir os seus erros, podem mais facilmente aprender com eles e evoluir, transmitindo igualmente aos outros uma honestidade emocional e uma dimensão humana despojada de ideais de perfecionismo que é apreciada e respeitada.

A aceitação da necessidade do outro: a capacidade para pedir ajuda e receber esse cuidado por parte do outro sem se sentir diminuído na sua auto-estima, é uma expressão de humildade que proporciona trocas relacionais de colaboração, solidariedade e afetos, bem como a experiência da gratidão.

O interesse genuíno pelo outro: a consciência de que todas as pessoas, independentemente do seu grau de instrução, idade, profissão e estrato social, têm experiências de vida diferentes da nossa e algo a partilhar, permite-nos estar mais disponíveis para escutá-las verdadeiramente. Facilitar a expressão do outro e conseguir apreciar e elogiar as suas qualidades e talentos, é uma via importante para desenvolver a humildade.

A empatia: o desenvolvimento da capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de procurarmos ir ao encontro das suas necessidades, numa relação de ajuda, por exemplo,  facilita a descentração e promove a procura por contribuir para o bem estar do outro, sendo essa uma experiência de crescimento pessoal,

A consciência da finitude: a consciência de como tudo é efémero e transitório, e que os sucessos coexistem com as fragilidades, dispensa a necessidade de atitudes exibicionistas ou de auto-engrandecimento.

Publicado no Artigo "A Humildade é uma vantagem evolutiva", na revista online DN Life, 02/12/2019

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Tenho tudo o necessário para ser feliz... mas não me sinto!


Quase de certeza que já nos aconteceu em algum momento da vida pensarmos, ou já ouvimos alguém próximo a dizer: “-Não entendo... tenho tudo o que preciso para ser feliz, mas não me sinto feliz”.
O que dizemos quando ouvimos isso? O que fazer quando ouvimos isso? Felizmente muitas pessoas procuram apoio psicológico nestas situações, porque todos temos o direito de nos sentirmos bem, com a nossa vida.

Essa sensação de insatisfação pode derivar de inúmeras questões, nomeadamente o nosso nível de exigência, aborrecimento com a rotina ou ter um sonho mas não o fazer por receio.


Relativamente ao nosso nível de exigência, podemos colocar o seguinte exemplo de um pensamento recorrente: “a minha vida apenas será perfeita se casar e tiver 2 filhos, se tiver uma estabilidade profissional, se a minha família estiver bem e se sentir que tenho muitos amigos à minha volta”. E caso falte uma pequena parte desta ideia, a satisfação não será sentida, um pouco a ideia do 8 ou 80, subjacente à crença de “ou estarei feliz com o que desejo, ou estarei infeliz porque ainda não tenho tudo o que realmente preciso”. Por vezes o nosso grande desejo de atingirmos a dita felicidade, faz-nos quase aguardar por ela como se depois, no momento em que ela chegasse, tudo ficasse para sempre bem. Mas se por um lado, a espera desse futuro poderá não nos permitir viver o presente da melhor forma, por outro, é quase como se acreditássemos que essa felicidade ao chegar fosse para ficar. E ficará?

Quanto ao aborrecimento com a rotina, criar e manter uma rotina é importante, mas quebrá-la de vez em quando também é essencial. A zona de conforto é um conjunto de actividades e de comportamentos que fazem parte de uma rotina, um padrão que minimiza o stress e os riscos possíveis. A explicação mais científica para essa expressão é que a zona de conforto é qualquer tipo de comportamento que consegue manter um nível baixo de ansiedade. Assim, a zona de conforto dá-nos uma sensação de segurança. Todos nós, ao estarmos na zona de conforto beneficiamos de um bem-estar regular, baixa ansiedade e redução do stress. Estar na zona de conforto não é algo bom ou mau, é um estado natural onde a maioria das pessoas vivem. Ou seja, a zona de conforto é importante, mas se nos limitarmos a estar aí, pode-nos criar num determinado momento das nossas vidas uma sensação de vazio e insatisfação, seja na vida profissional, como na vida pessoal.

E quando temos um sonho, um objectivo, um projecto, mas por várias razões (receio de falhar, medo das críticas dos outros) não avançamos, podemos estar perante um dilema. Com certeza que ao longo da nossa vida já nos deparámos com dilemas de várias naturezas, uns mais complicados e que criam um maior mal-estar e outros menos intensos. Contudo, os dilemas criam por norma algum desconforto por termos que decidir pelo menos por duas opções contraditórias, mas que por diversos motivos, não nos é fácil avançar nessa escolha. Por vezes podemos ficar num mal-estar por um período longo. Cada pessoa necessitará do seu tempo para elaborar o dilema e colocar a hipótese de contrariar o que pensava que queria, os seus objectivos iniciais, os seus gostos antigos, e colocar verdadeiramente a hipótese de avançar para algo novo e desconhecido. Naturalmente, o desconhecido pode tornar-se assustador para algumas pessoas, no entanto se a decisão tomada for nesse sentido, será com certeza uma oportunidade de se avançar e evoluir, com novas aprendizagens. Por vezes perceber-se o que nos impede de nos sentirmos bem e felizes até pode demorar algum tempo... mas acabará por ser essencial para dar início a essa procura.


Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.




Artigo publicado na edição Abr/Maio/Jun, Nº 45 da Revista Psicologia Na Actualidade

sábado, 5 de outubro de 2019

Quando a exigência se torna nossa inimiga



Com alguma facilidade e de uma maneira geral, todos podemos entender o que significa ser exigente, na medida em que, em maior ou menor grau, todos possuímos padrões de exigência e de expectativa no que respeita ao comportamento e desempenho. Estes padrões poderão implicar algum nível de stress, mas desde que não sejam em excesso nem comprometam a adaptação e a funcionalidade, são de grande utilidade na orientação para a ação e para o crescimento pessoal.
No entanto, quando o nível de exigência e de cobrança é demasiado grande, o confronto com as obrigações poderá tornar-se angustiante e traduzir-se em cansaço persistente, perda de energia, tristeza, ansiedade, irritabilidade e até no desejo de procastinar.
Neste caso, é frequente as tarefas serem percecionadas como demasiado exigentes, dando lugar à instalação da dúvida quanto à capacidade para cumpri-las, à desvalorização do trabalho já realizado e à antecipação de resultados insuficientes. Esta urgência em responder às expectativas pessoais e sociais, poderá levar a um desempenho extenuante, sobressaindo a dificuldade na gestão do tempo, bem como em distinguir o essencial do acessório com prejuízo para a produtividade, qualidade do trabalho e cumprimento de prazos.
 Se por um lado, estas pessoas até reconhecem que têm competências, por outro, a possibilidade de errar e de não atingir o tal ideal de perfeição acaba por se sobrepor e gerar ansiedade e insatisfação. Se o resultado não corresponder ao que consideram aceitável ou for inferior mediante a comparação com os outros, é frequente emergirem acentuados sentimentos de insuficiência, desvalor e inferioridade,  prejudicando a auto-estima.
 É neste ponto que se pode dizer que o grau de exigência se tornou nosso inimigo.
Na realidade, por mais que possamos exigir, a nossa vida poderá ser muito diferente daquela que idealizámos, uma vez que também existem variáveis que fogem ao nosso controlo.
Importa sublinhar que, deixar de exercer este tipo de exigência feroz, não significa adotar uma postura resignada e conformista perante a vida, uma vez que é importante desejar, ter objetivos e lutar por eles. Significa porém, aceitar e abdicar dessa necessidade de controlo absoluto, assim como conseguir reaquacionar o nosso posicionamento quando a vida não corre como gostaríamos. Exemplo desse reposicionamento é pensarmos por exemplo: “Eu gostaria de ter resultados e ganhar uma bolsa para ir estudar fora de Portugal, mas se não conseguir, também posso encontrar realização em formações e experiências profissionais no meu país.” É neste reaquacionar que saímos da posição da frustração e de insatisfação porque as coisas não correm como seriam desejáveis, para uma posição de satisfação e de gratidão pelo que somos, pelo que temos e pelas possibilidades e recursos internos que estão à nossa disposição.
Esta aceitação que, como seres humanos, somos falíveis e que a par das nossas forças também temos limitações, promove uma maior tolerância ao erro e à falha que poderão ser percecionados como oportunidades de aprendizagem e de evolução em vez de ataques à auto-estima. A procura pelo auto-conhecimento, pelo que realmente se quer e deseja, estimula uma maior conexão com as nossas realizações e com o significado e sentido que lhe atribuímos. Deste modo, as comparações com os outros, o medo de sermos avaliados negativamente ou a necessidade de provarmos algo a terceiros, passam para segundo plano na medida em que o que realmente importa é a relação que estabelecemos com as nossas realizações e com aquilo que nos acontece. Assim sendo, o valor passa a estar situado no processo e no seu significado e não tanto nos resultados propriamente ditos, diminuindo a tal cobrança.
Por último, o respeito e o amor pela nossa pessoa, permite-nos também perceber quando é tempo de parar e de não ceder às pressões internas e externas, concedendo-nos o descanso necessário e merecido para a nossa saúde física e mental.

Artigo publicado na Revista Psicologia na Atualidade, Psychology Now, nº 46 Jul-Ago-Set 2019.


terça-feira, 11 de junho de 2019

Como reagir às birras


O que são as birras?



As birras são um comportamento normativo nas crianças entre os 2 e os 4 anos de idade e constituem um comportamento de oposição. Nesta idade as crianças são naturalmente egocêntricas e narcisistas, não conseguindo lidar com as negações e os limites.
As birras são um comportamento que é possível observar em momentos de frustração para a criança. Esta frustração advém da imposição de limites por parte dos adultos, mas também das limitações próprias da idade como a incapacidade de escolher e de tomar decisões sem ajuda dos pais. As birras são uma resposta emocional intensa a algo que a criança perceciona como frustrante e podem englobar vários comportamentos como o choro, grito, atirar-se para o chão, ficar paralisado, ficar mudo, agressões (a si ou a outros), morder, unhar, urinar, parar de comer, entre outros (espernear, puxar o cabelo, etc.).
Podem ainda ser utilizadas como uma forma de chantagem aos pais, uma vez que a criança compreende nesta fase que as suas ações provocam respostas nos outros. Tendem a desaparecer com o crescimento e as crianças entre os 5 e os 6 anos prescindem delas pois já adquiriram outras habilidades.

Porque ocorrem?

Vários são os fatores que favorecem as birras. Normalmente as birras ocorrem devido ao desejo da criança em ser independente mas deparar-se com limitações, havendo um choque entre a busca de autonomia e interesse em tudo que a rodeia com a interferência dos adultos e os limites próprios da idade. Este choque gera raiva e frustração. A limitação na linguagem é outro dos fatores que pode promover a ocorrência de birras, uma vez que as crianças com 2 ou 3 anos não conseguem ainda expressar claramente os seus desejos ou o desgosto produzido por não conseguirem estes desejos, conduzindo ao sentimento de impotência.
Na idade em que ocorrem as birras, as crianças não conseguem ainda distinguir o que está bem do que está mal, sendo que os conceitos de bem e mal se definem social e culturalmente, mas também segundo a família. As normas sociais reguladoras da comunicação e convivência são ainda imprecisas para as crianças e não lhes servem de moderadoras para os seus impulsos descontrolados.
Outro fator para a ocorrência de birras são os comportamentos inconsistentes dos pais. Quando é negado algo à criança, ela chora, grita, esperneia, e consequentemente muitos pais acabam por ceder aos pedidos dos filhos. Esta primeira negação e posterior cedência demonstra incoerência aos filhos, que por sua vez mantêm as birras pois sabem que com esse comportamento obterão o que pretendem.
A fome, sono, cansaço, idas ao supermercado, a falta de atenção por parte dos pais, ausência de normas, normas muito estritas ou o excesso são ainda outros fatores favorecedores das birras.

Como reagir a essa situação?

A ocorrência das birras em lugares públicos são um dos grandes incómodos para os pais, levando-os a reagirem à birra. Esta reação nem sempre é a mais adequada e leva à intensificação e prolongamento da birra. Existem alguns aspetos a ter em conta de forma a evitar que as birras ocorram, nomeadamente:
*        Devem ser respeitadas as necessidades de sono e fome da criança;
*       Definir regras e limites claros, precisos e adequados para a idade desenvolvimento da criança:
*     Os limites e regras devem ser consistentes e consensuais entre os pais e não serem alterados segundo o cansaço ou o humor dos pais.
*        Manter o “não” firme e irredutível apesar do aborrecimento.
*        Manter os objetos proibidos fora da vista da criança;
*     Os brinquedos devem ser adequados à idade da criança, com vista a não causarem frustração;
*     Dar algumas oportunidades para a criança fazer escolhas, como escolher a roupa ou os sapatos, ou qual de dois alimentos pretende comer.
*     Devem fazer-se avisos prévios à criança, como por exemplo avisar que após o almoço terá que lavar as mãos e os dentes.

Quando a birra acontece há também alguns comportamentos que podemos ter, nomeadamente:
*        Não se exaltar;
*        Não tentar chamar a criança à razão;
*        Não castigar a criança;
*        Não ceder ao pedido da criança;
*        Atuar de imediato para que a criança não perca o controlo total;
*        Desviar a atenção da criança para outro objeto, local, etc;
*        Levar a criança para outro local;
*        Conter a criança em caso de que possa magoar-se;
*        Em alguns casos ignorar a birra ou mostrar-se surpreso.

O que acontece se cedermos?

Quando negamos algo à criança e se desencadeia a birra, proporcionamos um momento para que ela lide com a frustração e com o confronto com uma negação. Ao cedermos após a criança iniciar a birra, estamos a ensinar à criança que esta é uma forma que tem para conseguir o que quer, levando-a a reproduzir este comportamento sempre que quiser manipular os pais para obter algo que deseja. Quando se cede umas vezes e outras não, a criança fica confusa e fica sem entender qual é a melhor forma de agir uma vez que não tem diretrizes claras.


Referências bibliográficas:
Pernas, P. & Luna, C. (2005). Las rabietas en la infancia: qué son y cómo aconsejar a los padres. Revista de Pediatría e Atención Primaria, 7, 67-74.
Gouveia, R. (2009). As birras na criança. Revista Portuguesa de Clínica Geral, 25, 702-705.
Silva, A. (2013). Birras infantis, estilos educativos parentais e comportamentos de punição (Dissertação de mestrado não publicada). Universidade de Coimbra.
Duarte, A. (2011). As práticas educativas parentais e as birras das crianças (Dissertação de mestrado não publicada). Instituto Miguel Torga – Coimbra.



sábado, 4 de maio de 2019

Quando queremos dar resposta a tudo... e o que fica para trás é a nossa saúde

Quando a nossa responsabilidade profissional nos exige as horas de trabalho e as extra para conseguirmos dar resposta a tudo, quando a nossa responsabilidade familiar nos exige cuidar dos filhos, dos pais e da casa... quando sentimos que tentamos dar resposta, mas que constantemente nos apercebemos que não estamos a ser suficientemente bons em nenhuma das partes, quando ouvimos queixas no trabalho que temos prazos e que nos estamos a atrasar, quando ouvimos queixumes do companheiro / companheira, ou dos filhos que não passamos tempo de qualidade, ou que já não brincamos com eles... quando temos algum tempo e não nos apetece fazer absolutamente nada!

--- pausa—urgente!

Esta situação poderia ser a de muitas pessoas, e infelizmente são estas situações que também vão convergir em perturbações de ansiedade ou perturbações de humor. A super-mulher ou o super-homem é algo inatingível. Um estereótipo que até pode ter sido criado para inspirar e dizer: “Sim, você é capaz de tudo!”. Mas e seremos capazes realmente de tudo? Mas e se formos capazes de tudo, não acabará por surgir sempre mais? Afinal onde está o limite?

Um novo estudo (https://www.apa.org/pubs/journals/releases/bul-bul0000138.pdf) de Thomas Curran e Andrew Hill, publicado no Psychological Bulletin, concluiu que o perfeccionismo está em ascensão. Os autores, ambos psicólogos, concluem que "as recentes gerações consideram os outros mais exigentes, são mais exigentes com os outros e são mais exigentes consigo mesmos". E quando não concretizamos as exigências que vemos e lemos serem dos outros, ao mesmo tempo que são as nossas, é o caminho fácil para nos sentirmos frustrados, falhados, tristes, ansiosos...

Como contrariar esta situação? Naturalmente o primeiro passo é termos consciência do caminho que estamos a seguir... e naturalmente não podemos esperar que algo mude, quando continuamos a seguir o mesmo caminho. Depois talvez seja importante apercebermo-nos que o nível de exigência é irrealista e que talvez seja necessário fazer algo diferente... nomeadamente dividirmos as tarefas em casa (com companheiro/companheira, filhos), pedir apoio a avós ou a tios, negociar prazos ou delegar tarefas no trabalho, colocar também como prioridade tempo para nós próprios.

Vários estudos mostram que tempo dedicado e não estruturado de inactividade equilibrado com a gestão das actividades, promovem uma maior energia, clareza mental e capacidade de concentração ao longo do dia. No entanto, o vivermos tão focados e pressionados pela produtividade, pode-nos parecer até estranho... Isso porque o não fazer nada é muitas vezes associado a preguiça ou apatia, e vem acompanhado por pensamentos negativos, julgamentos e até mesmo uma sensação de culpa. 

Mas e se continuarmos por esse caminho... e cada dia nos sentimos mais cansados e com menos energia e vontade, como poderemos continuar a fazer bem as coisas, a dar de nós a quem nos é importante, e acima de tudo... como nos vamos sentir bem?
 
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.



Artigo publicado na edição Jan/Fev/Março, Nº 44 da Revista Psicologia Na Actualidade

domingo, 14 de abril de 2019

A Importância da Coerência entre as Palavras e os Comportamentos




A coerência associada à previsibilidade e à constância dos cuidados maternos é uma condição que desde cedo se coloca como fundamental para o desenvolvimento psico-emocional da criança. Uma vinculação segura só é possível se a criança usufruir de uma experiência de confiabilidade, a partir da qual pode depender da resposta ajustada da mãe às suas necessidades, o que  lhe vai promover a segurança necessária para explorar o mundo ao seu redor.
Ao longo da vida a perceção de coerência também é fundamental para o desenvolvimento das relações entre as pessoas, isto é, a segurança de se saber com o que se pode contar da parte do outro.
A perceção de falta de concordância entre o que é dito e os comportamentos adotados, levam muitas vezes a uma falência da credibilidade e da confiabilidade, com prejuízo para a relação. Um exemplo disso é o caso de pessoas que dizem gostar de outras e serem suas amigas mas nunca estão disponíveis para falar, ouvir, prestar suporte, estar presente ou cumprir com o combinado, pois existem sempre outras prioridades. Outros exemplos são as pessoas que defendem valores como solidariedade e generosidade mas que depois vivem de uma forma completamente egocêntrica ou situações de incoerência na educação parental quando por exemplo um pai ensina ao filho que deve pedir licença para se levantar da mesa mas ele próprio não o faz.
Lidar com alguém que transmite mensagens antagónicas, quer entre palavras e comportamentos, ou entre linguagem verbal e não verbal,  é gerador de desconforto, podendo levar a um estado de alerta, que tornando-se constante, gera stress e ansiedade.
Se em certas situações esta incoerência é consciente por parte do seu protagonista, outras vezes há em que o próprio nem sequer reconhece os sentimentos antagónicos que lhe estão a causar desconforto e incoerência nele próprio e consequentemente nos outros.
Por exemplo, mediante uma escolha afetiva relacionada com o ir ou não ir viver maritalmente com alguém, a pessoa em questão afirma que deseja essa união mas adia-a sistematicamente, alegando as mais diversas justificações para tal,  porque na realidade está a evitar reconhecer e lidar com eventuais sentimentos contraditórios.  
A disponibilidade para “ouvir” com sinceridade o que cada uma das partes internas do conflito tem para nos dizer é fundamental, só assim é possível reconhecermos e compreendermos as razões do “sim” e as do “não” e colocá-las a dialogar uma com a outra para chegarem a acordos.  
O não permitir esta escuta interna para evitar o desconforto de lidar com sentimentos antagónicos, acaba por se traduzir em reações de incoerência geradores de sofrimento não só para o próprio mas também para o outro. 

Artigo publicado na Revista Psicologia da Atualidade, Psychology Now, n.º43 Out-Nov-Dez 2018

terça-feira, 12 de março de 2019

As incertezas dos 30

Hoje vamos falar sobre o elefante numa sala de jovens com 30 anos. Enquanto crianças, estes jovens foram sendo incentivados a estudar, ter boas notas e escolher um bom curso universitário que lhes permitisse um futuro de sucesso. Foi-lhes dito que aos 30 anos teriam uma carreira de sucesso, um emprego para a vida, um bom ordenado, carro, casa própria e uma família construída. Mas será essa a realidade com que nos deparamos?

Com a crise económica mundial de 2008, que teve repercussões nefastas para Portugal tendo originado um resgate financeiro, temos vindo a verificar uma grande disparidade entre as expectativas criadas para estes jovens e a realidade que vivem atualmente.


Quando chegam ao mercado de trabalho em plena crise económica, e em moldes que se têm mantido desde então, as suas expectativas de um emprego para a vida são defraudadas logo à partida. Com contratos de estágio temporários que quase nunca passam a contrato de trabalho efetivo, contratos de trabalho a 6 meses renováveis por três vezes e no fim a fila do Centro de Emprego mais próximo, ou os famosos recibos-verdes e os seus mais de 40% de contribuições, sem 13º nem 14º mês, sem subsídio de desemprego, doença, parentalidade, etc., etc. Logo aqui caem por terra as primeiras expectativas do emprego para a vida, quando de contrato em contrato, de empresa em empresa, flutuam aflitivamente para se manter à superfície e conseguir a sua (pouca) independência e liberdade financeira.

Depois vem o bom ordenado…. Ora caso estes contratos temporários oferecessem um ordenado chorudo, qualquer jovem iria sentir-se grato por ter uma experiência de trabalho onde pudesse adquirir conhecimentos e aplicar os que adquiriu durante a sua formação académica. Contudo não foi/não é isso que se tem verificado. Abundam ofertas onde são solicitados requisitos obrigatórios por vezes não essenciais à função, com uma enorme exigência, e no fim a oferta fica-se pelo ordenado mínimo nacional (485€ à época, 600€ atualmente), para alguém que estudou cerca de 16 anos e com formação superior. Em 2019 continuamos a assistir a ofertas que oferecem o Salário Mínimo Nacional a trabalhadores com experiência, com formação superior (Licenciados e Mestres), para trabalho altamente especializado, com grande responsabilidade e essencial para a vida das empresas. Mais uma expectativa criada pela sociedade e que não se concretiza.

Sem estas duas premissas, a primeira de um emprego estável e a segunda de um bom ordenado, onde fica a carreira de sucesso? Fica inevitavelmente relegada para o recanto dos sonhos que parecem impossíveis de realizar. Atrás da carreira de sucesso desmoronam-se as expectativas da aquisição de carro (por mais barato e antigo que possa ser, comporta imensos custos anuais), as de comprar casa às prestações (porque o mercado imobiliário entrou numa bolha especulativa, em que qualquer pardieiro serve como habitação mesmo sem as mínimas condições e a preços exorbitantes), e sem estas duas condições torna-se impossível formar uma família.

Ouvem-se muitas vezes comentários de gerações anteriores de que estes  jovens são preguiçosos, pouco ambiciosos e acomodados. Que não lutam, que se queixam demasiado, mas será que assim é? Será que este impasse geracional que encontramos atualmente pode ser comparado ao que se tem verificado nas décadas anteriores? Estes jovens têm hoje menos poder de compra do que a geração que lhes criou estas expectativas, tem hoje menos filhos do que as gerações anteriores, mas pelo contrário tem hoje mais estudos e mais qualificação do que alguma vez na história. Tivemos durante este resgate económico níveis de emigração muito próximos aos da década de 1960, época de enormes dificuldades económicas para as famílias Portuguesas e de dificuldades políticas e sociais devido à Ditadura que se vivia. 

Qual o impacto psicológico deste choque entre expectativas e realidade? Será que estão os nossos jovens a conseguir adequar as suas expectativas anteriores à realidade atual? Não podemos afirmar com certezas, mas temos uma prevalência cada vez mais acentuada de doença mental em Portugal, percentagens de utilização de medicamentos psiquiátricos em valores considerados muito acima do aceitável, depressões, ansiedades, stress, esgotamentos, burnouts….

É necessário olhar para esta situação de um ponto de vista crítico, científico e interventivo, para que se possa apoiar estes jovens, permitir-lhes criar expectativas realistas e adaptadas à realidade económica e social em que vivem. Não como uma forma de os tornar resignados, menos ambiciosos ou pouco lutadores, mas para lhes permitir lidar com a frustração enorme que sentem por não cumprirem com o que seria esperado de si, permitindo uma restruturação dessas expectativas desajustadas e da visão com que encaram esta mesma realidade.

Escrito por: Nuno Gago