terça-feira, 31 de março de 2020

Palavras Chave para a Crise Actual: Aceitação, Adaptação, Resiliência

Este momento crítico afecta-nos psicologicamente a todos, ninguém está imune. Afecta-nos de maneiras diferentes, não só pelas nossas funções (pessoas que trabalham cada dia têm preocupações e cuidados diferentes comparativamente aos que ficam todo o dia em casa, não menos nem mais fáceis, naturalmente diferentes), idades (crianças, jovens, adultos e idosos), condição profissional, etc. Apesar de haver preocupações mais específicas para cada grupo, existem questões transversais que nos podem facilitar ou dificultar em lidar com este momento totalmente novo.

Sabemos que algo que seja totalmente novo e inesperado, activa-nos, mas a forma como lidamos com essa activação vai fazer toda a diferença. E vai fazer a diferença no momento presente, mas também no nosso futuro, pós-pandemia. O Ser Humano tem a necessidade de segurança, e o controlo dá uma sensação de maior segurança. Se eu organizo os meus dias, as minhas rotinas, as minhas férias e dou pouco espaço ao imprevisto ou à espontaneidade, mais difícil é lidar com acontecimentos que estão fora do meu controlo. Sabemos que existem pessoas com maior necessidade de controlo e outras menos. Mas algo essencial numa situação como a que estamos a passar actualmente é ACEITAR. Aceitar o que está ao meu alcance e o que não está, aceitar que há incertezas sem respostas e procurar um estado da maior tranquilidade possível dentro dessa aceitação. O saber quando isto vai passar, o saber que nada nos vai acontecer... daria a todos nós um conforto e uma tranquilidade que neste momento não é possível. Então se não podemos saber, nem podemos controlar tantas coisas, como é ACEITAR que não temos esse controlo? Ninguém controla o mundo... Então como seria focarmo-nos no que está ao nosso alcance? Como seria focarmo-nos no que podemos fazer cada dia? Como é aceitar que apesar de ser difícil, e ter medo de ser infectado, faço tudo o que posso para me proteger? E agarro o que posso fazer, nesse controlo que posso ter, para me conseguir sentir um pouco mais tranquilo! Como é aceitar que apesar de estarmos pelos cabelos de estar em casa, sabemos que temos a possibilidade de decidir o que fazer, dentro de 4 paredes, mas para nosso bem! Como é aceitar as coisas que não podemos mudar, tal como elas são? 

Se por um lado há a palavra ACEITAÇÃO, pelo outro lado existe a RESISTÊNCIA. A resistência é o que nos agarra ao passado, aos dias que tínhamos antes e que queríamos ter agora, às certezas que tínhamos, aos planos, às rotinas conhecidas, às férias agendadas, à segurança que achávamos ter, ao conhecido. A RESISTÊNCIA é uma negação à necessidade de fazermos diferente agora, porque sabemos que é difícil, porque não sabemos como vai ser... Então resistimos! Não queremos! E queixamo-nos e criticamos e ficamos ali, naquele lugar pesado, onde só nos movemos quase arrastados, porque tem que ser. Lugar muito pesado esse, que apenas nos faz sentir desesperados, angustiados e perdidos.

A ACEITAÇÃO, apesar de não nos tirar o medo nem a preocupação, permite-nos procurar alternativas, e permite-nos ter controlo nas nossas pequenas coisas, permite-nos avançar adaptando-nos a uma situação nova e exigente. A capacidade de nos adaptarmos adequadamente a mudanças e situações inesperadas ajuda-nos a gerir a angústia e a incerteza. E é a essa capacidade de nos adaptarmos que chamamos de resiliência. E tomar medidas para desenvolvermos a resiliência é essencial, adoptá-las pode melhorar de uma forma geral o nosso bem-estar físico e emocional.

Para Promover a Resiliência…
- Faça uma pausa das notícias – veja apenas o mínimo necessário, no site da DGS, OMS e OPP.
- Aceite em agarrar o controlo das coisas que tem e não queira controlar o que não pode. Cuide de si e de quem está ao seu lado, alimente-se bem e hidrate-se.
- Aceite os seus medos e as suas emoções, exteriorize de uma forma saudável
- Não se isole, estamos todos no mesmo barco, fale com os seus amigos, colegas, familiares.
- Procure relaxar sempre que possível, com tarefas agradáveis de lazer, relaxamento ou actividade física.



Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

terça-feira, 24 de março de 2020

As minhas emoções a mim pertencem




É com relativa facilidade que atribuímos a responsabilidade pelas nossas emoções aos outros. Se por um lado esta atribuição permite uma demissão da responsabilidade em relação ao que sentimos, por outro lado, traz consigo a perda de controlo e de comando sobre a nossa vida na medida que é ao outro que é dado o poder pelas nossas emoções e reações.
Ao afirmarmos “ Tu irritas-me com o que dizes/fazes”, estamos a funcionar a partir dessa lógica, numa procura de um culpado no mundo externo para as nossas emoções, perdendo assim a oportunidade de olharmos para nós mesmos.
Do mesmo modo, quando alguém próximo não se sente bem, facilmente também nos podemos sentir responsáveis e procurar a todo o custo resolver esse sofrimento, como se a solução para essa dor alheia estivesse nas nossas mãos. Assumirmos a responsabilidade pelas emoções dos outros poderá também gerar mal estar e culpabilidade e ser igualmente pouco eficaz, tal como é arranjar culpados para o que sentimos.
Um diferente posicionamento será afirmar “Eu é que me deixei irritar com aquilo que disseste/fizeste”. Nesta lógica está implícito que o próprio é o dono das suas emoções e sentimentos e como tal tem a capacidade de geri-los. Assim, em vez de tentarmos encontrar culpados, importa aumentarmos a consciência dos nossos sentimentos e reacções perante determinadas circunstâncias.
Claro que temos o direito e a legitimidade de manifestarmos o nosso desagrado ou desacordo e algumas emoções são mesmo inevitáveis em determinadas situações, mas a forma como as gerimos é da nossa responsabilidade e determinados sentimentos só vão perdurar se a nossa mente assim o ditar.
 Assumir o controlo do que sentimos é exatamente reconhecer e aprender a lidar com as emoções e não ser escravizado por elas, ou seja, não viver em reatividade às emoções mas gerindo-as com ponderação e bom senso.  A pessoa pode sentir-se alegre, triste, aborrecida ou irritada mas em controlo e em função dos acontecimentos da sua vida.
Este auto-conhecimento leva-nos a compreender que, apesar de não podermos mudar circunstâncias e as ações de terceiros, a forma como reagimos depende exclusivamente de nós e como tal podemos escolher, de entre infinitas possibilidades, a forma de nos relacionarmos com os acontecimentos da nossa vida.



Artigo publicado na Revista Psicologia na Atualidade, Psychology Now, nº 48 Jan-Fev-Mar 2020.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Não alimentar o medo, pela nossa Saúde Mental


Os acontecimentos do aparecimento do novo coronavírus e toda a evolução que teve desde então, criam muitos medos e preocupações. Medos e preocupações totalmente válidos, tendo em conta a situação verdadeiramente grave que estamos a passar. E percebermos que é grave, leva-nos a adoptar todas as medidas necessárias para nos protegermos, a nós e aos outros. E desta forma estamos a ser cidadãos conscientes e responsáveis.

No entanto esses medos e preocupações podem ser vividos de uma forma demasiado intensa, criando sintomas fortes de ansiedade. É essencial percebermos como nos podemos regular emocionalmente, sem que esses sintomas sejam exacerbados, de forma a prejudicar a nossa Saúde mental e global. Estar constantemente a pensar sobre o coronavírus pode causar o aparecimento ou o aumento de sintomas que podem provocar o sofrimento emocional.

Vamos por partes,
- Sim, sem dúvida que mantermo-nos informados é essencial, mas é importante conseguirmos perceber qual é a quantidade de informação necessária para este tema não nos absorver na totalidade. 1h por dia? O telejornal do almoço e da noite? 3 visitas ao site da DGS? Não há receitas... mas é importante estarmos conscientes de que viver o dia a dia constantemente em alerta só nos faz mal. A procura excessiva de informação é uma acção que nos dá uma sensação de controlo para acalmar o medo, mas paradoxalmente ele aumenta. Por outro lado, ver apenas os factos verdadeiros sobre a pandemia vai fazer com que não se fique alarmado por informações falsas que possam surgir nas redes sociais. É importante evitar informações que não provêm de fontes oficiais e confiar nas recomendações que são dadas pelo Governo e pelas entidades competentes, visto serem eles os que têm toda a informação da evolução do novo coronavírus, e seguir as medidas indicadas. Ao confiar nestes aspetos, vai-se reduzir as preocupações alarmistas que podem provocar pânico e ansiedade.

- A criação / manutenção de rotinas são importante! Sabemos que existem especificidades nas dificuldades de quem tem que ir trabalhar, nos que estão sozinhos em casa ou nos que estão com uma família numerosa em casa. Para os que não vão trabalhar e ficam em casa, a criação de uma rotina saudável ajuda a lidar com o isolamento, tal como ter um horário de acordar, o duche, o teletrabalho (ou o estudo), uma alimentação saudável, actividade física, e momentos de lazer (ouvir música, ler um livro, ver um filme, jogar, falar com amigos e familiares por telefone...). As pessoas necessitam de sentir controlo, e mudar rotinas de modo súbito e forçado causa uma sensação de ameaça, e tendo em conta que já se alteraram tantas rotinas e que vivemos num momento tão conturbado, que estas rotinas ajudam a manter-nos mais equilibrados, com objectivos e alguma organização. Para além de que actividades que nos obriguem a estar focados em outros temas, tal como o trabalho, o estudo, um filme ou um livro, permitem-nos ter momentos em que não estamos a pensar no que nos cria ansiedade e conseguimos assim diminuir o estado de alerta em que nos sentimos, e até mesmo relaxar, brincar e rir!

- A Actividade Física - é uma maneira de cuidar da saúde e ocupar a mente durante o período de isolamento social, para além de melhorar a qualidade do sono, reduzir o stress e aumentar a sensação de bem-estar. Existem inúmeros sites com orientações de exercícios, vídeos e aulas online (para todos os gostos!) para essa actividade poder ser realizada.

- Estar em contacto com as nossas emoções, reconhecê-las e aceitá-las com naturalidade, permite procurarmos formas de as expressar, não ficando presas em nós, criando mal-estar. Podemos partilhar com alguém próximo (manter o contacto com a família e amigos através dos meios disponíveis faz-nos sentir que não estamos tão sós) e/ou procurar uma forma de nos expressar emocionalmente – há quem use um diário ou a escrita, o desenho, a música ou a dança.

Quando somos confrontados com situações inesperadas, tal como esta em que estamos a viver actualmente, surgem alterações em nós próprios e vamos precisar de integrar o que está a acontecer. Quanto maior a nossa consciência sobre o que estamos a sentir, mais facilmente procuramos formas de nos regular emocionalmente e de nos adaptarmos, para vivermos o dia a dia, da melhor maneira dentro do possível.



Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.


domingo, 9 de fevereiro de 2020

Sobre a Humildade



A humildade pode ser entendida como uma característica individual e que implica a existência de algum grau de maturidade psicológica, sendo passível de ser desenvolvida e moldada por experiências e pela influência do meio externo.
O conceito da humildade tem sido, ao longo do tempo pouco compreendido e muitas vezes associado a esse tal significado de fraqueza, subserviência, baixa-auto-estima, pobreza ou a uma aparência descuidada e despojada.
No entanto, se formos à origem etimológica da palavra humildade, vamos descobrir que ela é derivada no latim, de “humus” que designa terra. A palavra homem, derivada do latim “homo”, curiosamente também tem a sua origem no termo “humus”.
Assim sendo, a humildade pode ser entendida como um  processo psicológico a partir do qual o indivíduo se relaciona consigo e com os outros de forma realista, mantendo “os pés assentes na terra” e reconhecendo não só as suas qualidades mas também as suas  limitações, na medida em que fazem parte da sua verdade e da sua natureza.
Este posicionamento perante o próprio e os outros é sem dúvida vantajoso do ponto de vista psicológico, na medida em que a consciência das nossas limitações nos torna mais disponíveis para investir no nosso próprio desenvolvimento pessoal  e para aceder a níveis mais sofisticados de conhecimento.
Para além desta recetividade para a aprendizagem, a capacidade de aceitação e de tolerância dos aspectos mais vulneráveis e dolorosos da  personalidade também vai permitir estabelecer relações interpessoais sustentadas sobretudo na compreensão em vez de ser no julgamento e na crítica, o que incrementa  a qualidade dos relacionamentos.
Por outro lado, o  indivíduo com humildade consegue aceitar que, em certos momentos da sua vida, necessita de ser cuidado e é capaz de solicitar e de receber esse cuidado por parte do outro sem se sentir humilhado e afectado na sua auto-estima, o que proporciona trocas relacionais de colaboração, solidariedade e afetos ,viabilizando igualmente o acesso à experiência da gratidão.
A pessoa humilde tende a revelar um auto-conhecimento mais desenvolvido e uma auto-imagem mais íntegra e coesa na qual estão integrados os aspectos mais fortes da personalidade mas também os mais vulneráveis. Para além de aceitar as diferenças com mais tranquilidade e sem julgamento, a pessoa humilde demonstra mais empatia, interesse e respeito pela perspetiva do outro, comunicando sem adotar uma postura auto-centrada e egocêntrica, o que a torna  mais competente do ponto de vista emocional, pessoal e social.
A pessoa humilde tem a consciência da finitude e de como tudo é efémero e transitório, pelo que as conquistas e os sucessos não passam de situações momentâneas que coexistem com as falhas e as fragilidades, não adotando por isso atitudes exibicionistas ou de auto-engrandecimento nem esperando qualquer forma de tratamento especial.  


É possível trabalharmos o desenvolvimento da humildade. Para tal é importante:

O auto-conhecimento: o conhecimento mais profundo das nossas limitações e a aceitação das mesmas, permite-nos ter consciência da nossa necessidade de crescimento pessoal e de estarmos disponíveis para novas aprendizagens e experiências.

A aceitação da falha e o admitir dos erros: As pessoas que exibem capacidade para tolerar e admitir os seus erros, podem mais facilmente aprender com eles e evoluir, transmitindo igualmente aos outros uma honestidade emocional e uma dimensão humana despojada de ideais de perfecionismo que é apreciada e respeitada.

A aceitação da necessidade do outro: a capacidade para pedir ajuda e receber esse cuidado por parte do outro sem se sentir diminuído na sua auto-estima, é uma expressão de humildade que proporciona trocas relacionais de colaboração, solidariedade e afetos, bem como a experiência da gratidão.

O interesse genuíno pelo outro: a consciência de que todas as pessoas, independentemente do seu grau de instrução, idade, profissão e estrato social, têm experiências de vida diferentes da nossa e algo a partilhar, permite-nos estar mais disponíveis para escutá-las verdadeiramente. Facilitar a expressão do outro e conseguir apreciar e elogiar as suas qualidades e talentos, é uma via importante para desenvolver a humildade.

A empatia: o desenvolvimento da capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de procurarmos ir ao encontro das suas necessidades, numa relação de ajuda, por exemplo,  facilita a descentração e promove a procura por contribuir para o bem estar do outro, sendo essa uma experiência de crescimento pessoal,

A consciência da finitude: a consciência de como tudo é efémero e transitório, e que os sucessos coexistem com as fragilidades, dispensa a necessidade de atitudes exibicionistas ou de auto-engrandecimento.

Publicado no Artigo "A Humildade é uma vantagem evolutiva", na revista online DN Life, 02/12/2019

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Tenho tudo o necessário para ser feliz... mas não me sinto!


Quase de certeza que já nos aconteceu em algum momento da vida pensarmos, ou já ouvimos alguém próximo a dizer: “-Não entendo... tenho tudo o que preciso para ser feliz, mas não me sinto feliz”.
O que dizemos quando ouvimos isso? O que fazer quando ouvimos isso? Felizmente muitas pessoas procuram apoio psicológico nestas situações, porque todos temos o direito de nos sentirmos bem, com a nossa vida.

Essa sensação de insatisfação pode derivar de inúmeras questões, nomeadamente o nosso nível de exigência, aborrecimento com a rotina ou ter um sonho mas não o fazer por receio.


Relativamente ao nosso nível de exigência, podemos colocar o seguinte exemplo de um pensamento recorrente: “a minha vida apenas será perfeita se casar e tiver 2 filhos, se tiver uma estabilidade profissional, se a minha família estiver bem e se sentir que tenho muitos amigos à minha volta”. E caso falte uma pequena parte desta ideia, a satisfação não será sentida, um pouco a ideia do 8 ou 80, subjacente à crença de “ou estarei feliz com o que desejo, ou estarei infeliz porque ainda não tenho tudo o que realmente preciso”. Por vezes o nosso grande desejo de atingirmos a dita felicidade, faz-nos quase aguardar por ela como se depois, no momento em que ela chegasse, tudo ficasse para sempre bem. Mas se por um lado, a espera desse futuro poderá não nos permitir viver o presente da melhor forma, por outro, é quase como se acreditássemos que essa felicidade ao chegar fosse para ficar. E ficará?

Quanto ao aborrecimento com a rotina, criar e manter uma rotina é importante, mas quebrá-la de vez em quando também é essencial. A zona de conforto é um conjunto de actividades e de comportamentos que fazem parte de uma rotina, um padrão que minimiza o stress e os riscos possíveis. A explicação mais científica para essa expressão é que a zona de conforto é qualquer tipo de comportamento que consegue manter um nível baixo de ansiedade. Assim, a zona de conforto dá-nos uma sensação de segurança. Todos nós, ao estarmos na zona de conforto beneficiamos de um bem-estar regular, baixa ansiedade e redução do stress. Estar na zona de conforto não é algo bom ou mau, é um estado natural onde a maioria das pessoas vivem. Ou seja, a zona de conforto é importante, mas se nos limitarmos a estar aí, pode-nos criar num determinado momento das nossas vidas uma sensação de vazio e insatisfação, seja na vida profissional, como na vida pessoal.

E quando temos um sonho, um objectivo, um projecto, mas por várias razões (receio de falhar, medo das críticas dos outros) não avançamos, podemos estar perante um dilema. Com certeza que ao longo da nossa vida já nos deparámos com dilemas de várias naturezas, uns mais complicados e que criam um maior mal-estar e outros menos intensos. Contudo, os dilemas criam por norma algum desconforto por termos que decidir pelo menos por duas opções contraditórias, mas que por diversos motivos, não nos é fácil avançar nessa escolha. Por vezes podemos ficar num mal-estar por um período longo. Cada pessoa necessitará do seu tempo para elaborar o dilema e colocar a hipótese de contrariar o que pensava que queria, os seus objectivos iniciais, os seus gostos antigos, e colocar verdadeiramente a hipótese de avançar para algo novo e desconhecido. Naturalmente, o desconhecido pode tornar-se assustador para algumas pessoas, no entanto se a decisão tomada for nesse sentido, será com certeza uma oportunidade de se avançar e evoluir, com novas aprendizagens. Por vezes perceber-se o que nos impede de nos sentirmos bem e felizes até pode demorar algum tempo... mas acabará por ser essencial para dar início a essa procura.


Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.




Artigo publicado na edição Abr/Maio/Jun, Nº 45 da Revista Psicologia Na Actualidade

sábado, 5 de outubro de 2019

Quando a exigência se torna nossa inimiga



Com alguma facilidade e de uma maneira geral, todos podemos entender o que significa ser exigente, na medida em que, em maior ou menor grau, todos possuímos padrões de exigência e de expectativa no que respeita ao comportamento e desempenho. Estes padrões poderão implicar algum nível de stress, mas desde que não sejam em excesso nem comprometam a adaptação e a funcionalidade, são de grande utilidade na orientação para a ação e para o crescimento pessoal.
No entanto, quando o nível de exigência e de cobrança é demasiado grande, o confronto com as obrigações poderá tornar-se angustiante e traduzir-se em cansaço persistente, perda de energia, tristeza, ansiedade, irritabilidade e até no desejo de procastinar.
Neste caso, é frequente as tarefas serem percecionadas como demasiado exigentes, dando lugar à instalação da dúvida quanto à capacidade para cumpri-las, à desvalorização do trabalho já realizado e à antecipação de resultados insuficientes. Esta urgência em responder às expectativas pessoais e sociais, poderá levar a um desempenho extenuante, sobressaindo a dificuldade na gestão do tempo, bem como em distinguir o essencial do acessório com prejuízo para a produtividade, qualidade do trabalho e cumprimento de prazos.
 Se por um lado, estas pessoas até reconhecem que têm competências, por outro, a possibilidade de errar e de não atingir o tal ideal de perfeição acaba por se sobrepor e gerar ansiedade e insatisfação. Se o resultado não corresponder ao que consideram aceitável ou for inferior mediante a comparação com os outros, é frequente emergirem acentuados sentimentos de insuficiência, desvalor e inferioridade,  prejudicando a auto-estima.
 É neste ponto que se pode dizer que o grau de exigência se tornou nosso inimigo.
Na realidade, por mais que possamos exigir, a nossa vida poderá ser muito diferente daquela que idealizámos, uma vez que também existem variáveis que fogem ao nosso controlo.
Importa sublinhar que, deixar de exercer este tipo de exigência feroz, não significa adotar uma postura resignada e conformista perante a vida, uma vez que é importante desejar, ter objetivos e lutar por eles. Significa porém, aceitar e abdicar dessa necessidade de controlo absoluto, assim como conseguir reaquacionar o nosso posicionamento quando a vida não corre como gostaríamos. Exemplo desse reposicionamento é pensarmos por exemplo: “Eu gostaria de ter resultados e ganhar uma bolsa para ir estudar fora de Portugal, mas se não conseguir, também posso encontrar realização em formações e experiências profissionais no meu país.” É neste reaquacionar que saímos da posição da frustração e de insatisfação porque as coisas não correm como seriam desejáveis, para uma posição de satisfação e de gratidão pelo que somos, pelo que temos e pelas possibilidades e recursos internos que estão à nossa disposição.
Esta aceitação que, como seres humanos, somos falíveis e que a par das nossas forças também temos limitações, promove uma maior tolerância ao erro e à falha que poderão ser percecionados como oportunidades de aprendizagem e de evolução em vez de ataques à auto-estima. A procura pelo auto-conhecimento, pelo que realmente se quer e deseja, estimula uma maior conexão com as nossas realizações e com o significado e sentido que lhe atribuímos. Deste modo, as comparações com os outros, o medo de sermos avaliados negativamente ou a necessidade de provarmos algo a terceiros, passam para segundo plano na medida em que o que realmente importa é a relação que estabelecemos com as nossas realizações e com aquilo que nos acontece. Assim sendo, o valor passa a estar situado no processo e no seu significado e não tanto nos resultados propriamente ditos, diminuindo a tal cobrança.
Por último, o respeito e o amor pela nossa pessoa, permite-nos também perceber quando é tempo de parar e de não ceder às pressões internas e externas, concedendo-nos o descanso necessário e merecido para a nossa saúde física e mental.

Artigo publicado na Revista Psicologia na Atualidade, Psychology Now, nº 46 Jul-Ago-Set 2019.


terça-feira, 11 de junho de 2019

Como reagir às birras


O que são as birras?



As birras são um comportamento normativo nas crianças entre os 2 e os 4 anos de idade e constituem um comportamento de oposição. Nesta idade as crianças são naturalmente egocêntricas e narcisistas, não conseguindo lidar com as negações e os limites.
As birras são um comportamento que é possível observar em momentos de frustração para a criança. Esta frustração advém da imposição de limites por parte dos adultos, mas também das limitações próprias da idade como a incapacidade de escolher e de tomar decisões sem ajuda dos pais. As birras são uma resposta emocional intensa a algo que a criança perceciona como frustrante e podem englobar vários comportamentos como o choro, grito, atirar-se para o chão, ficar paralisado, ficar mudo, agressões (a si ou a outros), morder, unhar, urinar, parar de comer, entre outros (espernear, puxar o cabelo, etc.).
Podem ainda ser utilizadas como uma forma de chantagem aos pais, uma vez que a criança compreende nesta fase que as suas ações provocam respostas nos outros. Tendem a desaparecer com o crescimento e as crianças entre os 5 e os 6 anos prescindem delas pois já adquiriram outras habilidades.

Porque ocorrem?

Vários são os fatores que favorecem as birras. Normalmente as birras ocorrem devido ao desejo da criança em ser independente mas deparar-se com limitações, havendo um choque entre a busca de autonomia e interesse em tudo que a rodeia com a interferência dos adultos e os limites próprios da idade. Este choque gera raiva e frustração. A limitação na linguagem é outro dos fatores que pode promover a ocorrência de birras, uma vez que as crianças com 2 ou 3 anos não conseguem ainda expressar claramente os seus desejos ou o desgosto produzido por não conseguirem estes desejos, conduzindo ao sentimento de impotência.
Na idade em que ocorrem as birras, as crianças não conseguem ainda distinguir o que está bem do que está mal, sendo que os conceitos de bem e mal se definem social e culturalmente, mas também segundo a família. As normas sociais reguladoras da comunicação e convivência são ainda imprecisas para as crianças e não lhes servem de moderadoras para os seus impulsos descontrolados.
Outro fator para a ocorrência de birras são os comportamentos inconsistentes dos pais. Quando é negado algo à criança, ela chora, grita, esperneia, e consequentemente muitos pais acabam por ceder aos pedidos dos filhos. Esta primeira negação e posterior cedência demonstra incoerência aos filhos, que por sua vez mantêm as birras pois sabem que com esse comportamento obterão o que pretendem.
A fome, sono, cansaço, idas ao supermercado, a falta de atenção por parte dos pais, ausência de normas, normas muito estritas ou o excesso são ainda outros fatores favorecedores das birras.

Como reagir a essa situação?

A ocorrência das birras em lugares públicos são um dos grandes incómodos para os pais, levando-os a reagirem à birra. Esta reação nem sempre é a mais adequada e leva à intensificação e prolongamento da birra. Existem alguns aspetos a ter em conta de forma a evitar que as birras ocorram, nomeadamente:
*        Devem ser respeitadas as necessidades de sono e fome da criança;
*       Definir regras e limites claros, precisos e adequados para a idade desenvolvimento da criança:
*     Os limites e regras devem ser consistentes e consensuais entre os pais e não serem alterados segundo o cansaço ou o humor dos pais.
*        Manter o “não” firme e irredutível apesar do aborrecimento.
*        Manter os objetos proibidos fora da vista da criança;
*     Os brinquedos devem ser adequados à idade da criança, com vista a não causarem frustração;
*     Dar algumas oportunidades para a criança fazer escolhas, como escolher a roupa ou os sapatos, ou qual de dois alimentos pretende comer.
*     Devem fazer-se avisos prévios à criança, como por exemplo avisar que após o almoço terá que lavar as mãos e os dentes.

Quando a birra acontece há também alguns comportamentos que podemos ter, nomeadamente:
*        Não se exaltar;
*        Não tentar chamar a criança à razão;
*        Não castigar a criança;
*        Não ceder ao pedido da criança;
*        Atuar de imediato para que a criança não perca o controlo total;
*        Desviar a atenção da criança para outro objeto, local, etc;
*        Levar a criança para outro local;
*        Conter a criança em caso de que possa magoar-se;
*        Em alguns casos ignorar a birra ou mostrar-se surpreso.

O que acontece se cedermos?

Quando negamos algo à criança e se desencadeia a birra, proporcionamos um momento para que ela lide com a frustração e com o confronto com uma negação. Ao cedermos após a criança iniciar a birra, estamos a ensinar à criança que esta é uma forma que tem para conseguir o que quer, levando-a a reproduzir este comportamento sempre que quiser manipular os pais para obter algo que deseja. Quando se cede umas vezes e outras não, a criança fica confusa e fica sem entender qual é a melhor forma de agir uma vez que não tem diretrizes claras.


Referências bibliográficas:
Pernas, P. & Luna, C. (2005). Las rabietas en la infancia: qué son y cómo aconsejar a los padres. Revista de Pediatría e Atención Primaria, 7, 67-74.
Gouveia, R. (2009). As birras na criança. Revista Portuguesa de Clínica Geral, 25, 702-705.
Silva, A. (2013). Birras infantis, estilos educativos parentais e comportamentos de punição (Dissertação de mestrado não publicada). Universidade de Coimbra.
Duarte, A. (2011). As práticas educativas parentais e as birras das crianças (Dissertação de mestrado não publicada). Instituto Miguel Torga – Coimbra.