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sábado, 2 de maio de 2020

Pensar sempre no pior? Ou lidar com a frustração?


Já ouvi inúmeras pessoas a dizerem que preferem pensar no pior, para caso ele (o pior) aconteça, já não se magoarem tanto. Tendo receio em pensar no que seria melhor, porque depois é mais difícil lidar com a frustração. Mas será efectivamente bom para nós pensarmos e estarmos à espera do pior na maioria das circunstâncias, sem podermos imaginar e criar algumas expectativas de como seria bom se isso acontecesse? Será realmente melhor não lidar com a frustração de não ter conseguido?
Creio que existem aqui diversos aspectos importantes a serem tidos em conta: que o poder das expectativas, da visualização, da motivação intrínseca, da crença de se conseguir, vai influenciar a concretização e que se pode aprender a lidar com a frustração.

Existem inúmeros estudos que apontam que o poder da crença tem um grande peso na conquista que se pretende (terminar uma maratona, passar a um exame, ser seleccionado, ser correspondido numa relação amorosa...), se nós imaginarmos que vai acontecer, se acreditarmos que não há razão de não acontecer, a nossa atitude e a nossa postura na situação vai influenciar no momento, e de forma mais confiante é mais provável que se consiga concretizar o que se pretende. No sentido contrário, se eu já entrar a acreditar que não vou ser capaz (no sentido de ser preferível acreditar nisso para não sair frustrado), aumento as minhas possibilidades de não conseguir. Se eu não acredito, se eu não vou com confiança, como é que a minha postura e atitude podem demonstrar isso? Assim, dessa forma, automaticamente passamos essa imagem de insegurança e é mais natural da outra parte não nos escolherem ou não se sentirem tão atraídos... a postura de confiança em nós próprios é passada aos outros e isso tem peso na forma como nos vêm.

Mas então, se eu até acho que sou capaz, mas simplesmente prefiro pensar no pior para não lidar com a frustração de falhar, como seria eu aceitar o falhar? Como seria olhar para esse “falhar” como uma aprendizagem? Como seria pensar numa oportunidade para aprender e crescer? Como é lidar e gerir essa frustração que o falhar pode criar em mim?

Então, a frustração é o resultado de não se obter aquilo que queremos ou esperamos, e na verdade, indica que existe uma distância entre o que gostaríamos de obter e o que na realidade conseguimos obter. Aqui é importante conseguirmos diferenciar se estaria de alguma forma ao nosso alcance fazer diferente (e aí pode haver uma aprendizagem) ou se não estaria de todo no nosso controlo (e aí perceber como podemos aceitar exactamente o não controlo). Existem diversas estratégias para se melhorar a lidar com a frustração: permitir sentir o mal estar e não se dar demasiada importância, permitindo que se vá perdendo com o tempo; perceber o que se podia ter feito diferente e olhar como uma oportunidade de aprendizagem; ou seja: gestão emocional!

O aprender a falhar, permite-nos não ter medo de falhar e desta forma avançamos para o que queremos concretizar de forma mais confiante e com menos receios, garantindo assim, uma maior possibilidade de desejo concretizado! E assim... podemos pensar nessa situação como algo possível! Porque é tão bom sonhar acordado!


Artigo publicado na Revista Psicologia na Actualidade, Psychology Now, nº 48 Jan-Fev-Mar 2020.


terça-feira, 24 de março de 2020

As minhas emoções a mim pertencem




É com relativa facilidade que atribuímos a responsabilidade pelas nossas emoções aos outros. Se por um lado esta atribuição permite uma demissão da responsabilidade em relação ao que sentimos, por outro lado, traz consigo a perda de controlo e de comando sobre a nossa vida na medida que é ao outro que é dado o poder pelas nossas emoções e reações.
Ao afirmarmos “ Tu irritas-me com o que dizes/fazes”, estamos a funcionar a partir dessa lógica, numa procura de um culpado no mundo externo para as nossas emoções, perdendo assim a oportunidade de olharmos para nós mesmos.
Do mesmo modo, quando alguém próximo não se sente bem, facilmente também nos podemos sentir responsáveis e procurar a todo o custo resolver esse sofrimento, como se a solução para essa dor alheia estivesse nas nossas mãos. Assumirmos a responsabilidade pelas emoções dos outros poderá também gerar mal estar e culpabilidade e ser igualmente pouco eficaz, tal como é arranjar culpados para o que sentimos.
Um diferente posicionamento será afirmar “Eu é que me deixei irritar com aquilo que disseste/fizeste”. Nesta lógica está implícito que o próprio é o dono das suas emoções e sentimentos e como tal tem a capacidade de geri-los. Assim, em vez de tentarmos encontrar culpados, importa aumentarmos a consciência dos nossos sentimentos e reacções perante determinadas circunstâncias.
Claro que temos o direito e a legitimidade de manifestarmos o nosso desagrado ou desacordo e algumas emoções são mesmo inevitáveis em determinadas situações, mas a forma como as gerimos é da nossa responsabilidade e determinados sentimentos só vão perdurar se a nossa mente assim o ditar.
 Assumir o controlo do que sentimos é exatamente reconhecer e aprender a lidar com as emoções e não ser escravizado por elas, ou seja, não viver em reatividade às emoções mas gerindo-as com ponderação e bom senso.  A pessoa pode sentir-se alegre, triste, aborrecida ou irritada mas em controlo e em função dos acontecimentos da sua vida.
Este auto-conhecimento leva-nos a compreender que, apesar de não podermos mudar circunstâncias e as ações de terceiros, a forma como reagimos depende exclusivamente de nós e como tal podemos escolher, de entre infinitas possibilidades, a forma de nos relacionarmos com os acontecimentos da nossa vida.



Artigo publicado na Revista Psicologia na Atualidade, Psychology Now, nº 48 Jan-Fev-Mar 2020.