sexta-feira, 29 de abril de 2016

Silêncio... ou a Sabedoria do Deserto

Há algumas semanas atrás, escrevi acerca do conceito de Quietude, da necessidade de pararmos, de nos permitirmos a estar connosco próprios, de arriscarmos não fazer nada. Ao silenciarmos os estímulos externos, permitimo-nos ouvir-nos a nós mesmos, a escutarmo-nos em toda a nossa plenitude.
No mundo ocidental, passamos muito tempo a ouvir aquilo que as pessoas dizem e prestamos muito menos atenção àquilo que não dizem. O silêncio é uma espécie de resíduo do medo e, em parte por isso, é-nos estranho, desconfortável, desconhecido, levando-nos a evitá-lo, a procurar ocupá-lo, preenchê-lo. Assusta-nos o silêncio porque é o som de quando algo acontece que faz com que o ar fuja do nosso peito por não se sentir seguro nos nossos pulmões, e também nos assusta por nos deixar a sós com o momento presente, mais próximos do que é genuíno (em nós e nos outros).
Tenho o privilégio de ter uma profissão que me possibilita um enorme crescimento enquanto pessoa, e que ao mesmo tempo é enriquecida pelas minhas experiências e vivências pessoais.
Os desertos são regiões geográficas, mas podem também ser as mais tranquilas, profundas, melhores partes de nós. No deserto, conheci um menino, Ishmael, com aproximadamente 10-12 anos. Ele aproximou-se, olhou, sorriu, e deixou-se ficar... tentei falar com ele mas percebi que não compreendia nenhuma das línguas que falo, e falava um dialecto que não compreendo. Tentei comunicar de outras formas... apresentei-me, ele percebeu e apresentou-se também. Deixou-se ficar. Ofereci-lhe coisas, ele aceitou e expressou (não sei bem como) gratidão, e deixou-se ficar. Tentei outras coisas, ele sorriu, e continuou lá... deixando-se ficar.Percebi que eu tentava preencher aquele silêncio, como se ele fosse vazio, como se esse silêncio fosse ausência de comunicação. O Ishmael mostrou-me que não precisamos de palavras para comunicar, que muitas vezes o silêncio nos dá tanto, nos permite uma intimidade tão grande, impossível de alcançar quando a corrompemos com palavras. Mostrou-me a mim, psicóloga, habituada a lidar com silêncios em terapia, que muitas vezes a melhor forma de conhecermos o outro é deixando-nos ficar... permitir que os outros sentidos para além da audição possam, efectivamente, sentir também, dar-nos e expressar informação.
Ishamel significa "Deus escutou". Este menino ensinou-me a escutar melhor... ao outro, e a mim mesma. Se não tivermos a pressão de estar sempre a dizer alguma coisa, de preencher os "vazios" nas conversas, estamos mais em contacto com o outro, com o que nos rodeia, e compreendemos também o quanto as nossas palavras moldam as nossas experiências. O silêncio pode mudar a forma como comunicamos, e, talvez principalmente, a forma como escutamos. O silêncio, e os pequenos silêncios entre conteúdo, podem ser tão interessantes quanto o conteúdo em si mesmo. 

                                                               "O silêncio não é o vazio, é a plenitude", Clarice Lispector.

Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A diferença entre Ter e Ser

Hoje decidi reflectir sobre uma temática que pode parecer mais relacionada com a filosofia do que propriamente com a psicologia. Parece-me no entanto ser algo demasiado abrangente e com grandes consequências para a forma como vivemos o dia-a-dia e para o nosso bem-estar, para não o abordar.
A forma como as pessoas vivem e sentem o “Ter” e o “Ser” tem vindo a sofrer alterações ao longo do tempo. No entanto, hoje gostaria de me focar um pouco mais no agora, século 21, ano 2016, Portugal.

Todos nós sabemos e sentimos que vivemos numa sociedade competitiva e consumista, onde ter uma licenciatura, ter um carro, ter uma casa, ter um bom relógio, ter o último modelo de telemóvel, ter, ter, ter... tornou-se num foco principal. Contudo, sendo este o foco, onde está a importância do ser?
Um exercício simples: quando estamos num grupo de amigos e aparecem pessoas novas, como é que nos apresentamos? Sou o Joaquim e sou motorista. Ou, Sou a Maria e sou professora. Mas afinal somos a nossa profissão? Somos apenas a nossa parte profissional? E que tal, Sou a Júlia e acredito na solidariedade? Ou, Sou o José e sou divertido e adoro anedotas? Aquilo que fazemos para ganhar a vida não é o que somos na vida. Trabalhamos para ganhar dinheiro e ter uma melhor qualidade de vida, mas a qualidade de vida não se obtém apenas por se ter dinheiro, fama ou poder, mas sim nas relações de afecto, na disponibilidade para os outros, na solidariedade, na cooperação, na curiosidade e na partilha.

Por um lado, há o que somos como pessoas: os nossos valores, os nossos interesses, os nossos sonhos. Sermos o que somos hoje e desejarmos ir construindo a nossa pessoa, acreditarmos que o “Ser” é um processo para a vida. O "Ser" é a consciência social, a liberdade, a igualdade, a justiça, a fraternidade, a solidariedade, a cultura, a preocupação ambiental, a tolerância, a aceitação e a preocupação com o outro.
Por outro lado há a licenciatura que tirámos, a formação que fizemos, o emprego que temos, o carro que comprámos, as férias que fizemos, as roupas que comprámos...

E se pensarmos sobre o que nos faz sentir realmente melhor? O que nos faz sentir mais cheios por dentro? Será que é saber que temos um carro melhor que o nosso vizinho? Ou sentir satisfação na pessoa que criámos em nós? É verdade que quem vai às compras, no intuito de ter prazer, com certeza que o encontra, mas por quanto tempo? Esse consumismo pode reduzir uma tensão interna, mas dá-nos uma sensação de prazer fugaz, voltando uma nova necessidade e consequente impulso consumista. Podemos sentir que temos mais coisas que os outros, ou as mesmas e assim não nos sentimos inferiores. Podemos ir às compras e retirar prazer disso no momento... Mas como retirar satisfação contínua simplesmente por sermos o que somos? E mesmo que os outros tenham o telemóvel topo de gama, porque não me posso sentir satisfeito com o que tenho? O consumismo serve para muitas pessoas como um analgésico para aliviar (momentaneamente) o mal-estar psicológico, a sensação de vazio e de solidão.
A grande diferença entre o “Ser” e o “Ter” é uma sociedade estar centrada nas pessoas ou estar centrada nas coisas. E quando está centrada nas coisas, o foco está no dinheiro, no poder e na fama e, tendo em conta os números de audiência dos reality shows e o número de candidatos para esses programas, creio que podemos dizer que a fama é algo muito importante neste momento, para uma grande maioria de pessoas. O "Ter" é aparência, é efemeridade, é indiferença e individualidade, é intolerância, é solidão. O "Ter" esgota-se nele próprio, alimenta-se dele, exigindo sempre mais "Ter". Esta sociedade de consumo empurra-nos para valorizarmos cada vez mais o aspecto material e os meios de comunicação estimulam esse consumismo com publicidade cada vez mais agressiva. Os valores estão-se a inverter, e o “Ter” tem tido um foco cada vez maior por parte da população.

E direccionando este texto para a psicologia e o bem-estar das pessoas, como é que uma pessoa se sente bem ao estar constantemente com um foco direccionado para ter mais e mais e mais, sem alimentar os valores? Mas ao mesmo tempo como é que uma pessoa se pode sentir bem, não estando de acordo e não partilhando estes valores centrados nas coisas e no “Ter”, como uma grande parte da sociedade está?

Com este texto não quero de todo partilhar a ideia que o bom é vivermos com pouca coisa e não fazermos compras, nem ter um carro, nem ir de férias. Nada disso. Um desejo quase universal é ter uma vida tranquila, confortável, segura e sem preocupações financeiras. E naturalmente, é necessário termos dinheiro para termos acesso à moradia, saúde, alimentação, estudo, segurança, conforto, transporte, lazer. O foco pode estar orientado para a pessoa e para as pessoas, ou para as coisas, e neste último caso é perigoso por nos estarmos a tornar alienados do que nos envolve, do que está ao nosso lado e na construção da sociedade, que, ao fim e ao cabo, são simplesmente as pessoas. 

É importante reflectirmos e apercebermo-nos que o nosso valor como pessoas não tem que estar associado ao que possuímos, à fama, ao poder ou à riqueza. Essa necessidade e essa consequente procura desmedida traz-nos ansiedade, stress, problemas sociais e dificuldades de relacionamentos, não nos aumenta o bem-estar nem a qualidade de vida.

"Se a preocupação está em ter, ter, ter, uma pessoa cada vez se preocupará menos em ser, ser e ser". – José Saramago

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Autocensura na privação da Liberdade Individual





Este é por excelência um dia para refletirmos no conceito “Liberdade”.
Faz hoje precisamente 42 anos que caía o regime ditatorial em Portugal para dar lugar à democracia, passando os portugueses a usufruir de liberdade de expressão.
Contudo, os mecanismos de auto-censura aos quais muitos de nós estamos sujeitos conseguem exercer uma fiscalização e uma punição ainda mais rigorosas que qualquer instituição externa de ordem social ou religiosa, não nos permitindo o usufruto em pleno da nossa liberdade individual. Quando assim é, impera a renúncia das próprias vontades, desejos e opiniões por medo da rejeição e do julgamento.
O indivíduo interioriza que só é aceite e amado enquanto for um prolongamento do desejo do outro e corresponder às suas expetativas. Embora esta possa ter sido uma vivência experienciada precocemente na infância e indutora de sentimentos de zanga e revolta, a criança, frequentemente para proteger as figuras amadas da sua zanga, acaba  por dirigi-la contra si mesma, dando lugar à auto-recriminação.
A culpa decorrente destes impulsos agressivos em relação às figuras amadas, motiva a necessidade de punição, sendo responsável por perpetuar o impulso inconsciente para o sofrimento pela forma de auto-recriminações e auto-punições que se traduzem frequentemente em quadros de depressão, ansiedade ou somatização.
A psicoterapia pretende libertar o indivíduo destas amarras interiores, pelo reconhecimento e pela vivência dos sentimentos reprimidos no aqui-e-agora, possibilitando a elaboração dos conflitos não resolvidos do passado e que estão muitas vezes na origem da repetição de padrões relacionais disfuncionais.
Clinicamente, a compulsão à repetição é entendida como um processo inconsciente pelo qual o indivíduo tende a repetir situações aflitivas e padrões relacionais disfuncionais, com a finalidade de dominar a experiência traumática. Nas palavras de Freud: “O que permaneceu incompreendido retorna; como uma alma penada, não tem repouso até encontrar resolução e libertação”.
Para cessar essa necessidade de repetir o trauma importa a consciencialização e a expressão dos sentimentos reprimidos, relacionados com o sofrimento vivenciado.
Neste dia em que comemoramos a liberdade, não esqueçamos o papel da psicoterapia no resgate e desenvolvimento da liberdade emocional do indivíduo, capacitando-o para vencer as forças opressoras internas que o impedem de se conhecer verdadeiramente, de se aceitar e de ser feliz. Porque só a verdade liberta e abre a possibilidade para uma vida plena, satisfatória e criativa.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

E viveram felizes para sempre?!?

«Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável.» (in Se Isto é Um Homem, Primo Levi)

Podemos, no entanto, procurar alcançar uma sensação de felicidade, de bem-estar, no nosso dia-a-dia. De acordo com Daniel Goleman, há três estratégias que podemos aprender com as pessoas emocionalmente inteligentes para atingir alegria e satisfação a longo prazo: exercitar o hemisfério esquerdo do nosso cérebro, desejar o bem a desconhecidos e confrontarmo-nos.
Exercitar o hemisfério cerebral esquerdo - A maioria de nós tem dias bons e dias maus. Contudo, algumas pessoas, em quem o hemisfério cerebral direito parece ser dominante, tendem a ser muito deprimidas e constantemente ansiosas. Outras, em quem o hemisfério dominante é o esquerdo, são quase sempre optimistas, recuperando rapidamente dos contratempos da vida. A boa notícia é que podemos transferir o nosso ponto de referência emocional para uma direcção mais positiva, aumentando a nossa auto-consciência e auto-conhecimento.

Desejar o bem a desconhecidos - A empatia (saber aquilo que os outros estão a sentir, sem que precisem de nos dizer) é também uma característica essencial das pessoas emocionalmente inteligentes: facilmente estabelecem afinidade com os outros e, desse modo, têm momentos mais satisfatórios quando sentem uma ligação positiva. Para além disso, dados de investigações sugeriram que esta empatia atenciosa, de cuidado para com o outro, activa os mesmos circuitos cerebrais que o amor que os pais sentem pelos filhos,e que quando as pessoas se concentram em desejar o bem aos outros, activam os seus circuitos cerebrais para a felicidade -   o que não só faz de nós boas pessoas, como nos faz também sentir melhor. Isto pode ser feito através da prática diária de desejar bem-estar (segurança, saúde, felicidade, tranquilidade) a nós próprios, em seguida aos nossos amigos e família, depois aos nossos conhecidos, e por fim aos desconhecidos.

Confrontar-se - A auto-consciência característica das pessoas emocionalmente inteligentes é uma ferramenta poderosa para manter níveis elevados de felicidade. Como? Não são as circunstâncias das nossas vidas que fazem de nós pessoas felizes ou infelizes, mas aquilo que dizemos a nós mesmos acerca disso. A auto-consciência permite-nos monitorizar o nosso discurso interno, aquele monólogo silencioso que acontece na nossa cabeça o dia todo. Identificar esses pensamentos negativos (auto-comiseração, auto-crítica, “deita-abaixo”) pode ser o primeiro passo para um estado de espírito mais alegre. Uma vez identificados esses pensamentos, temos a oportunidade de os confrontar, recordando-nos da nossa força, dos nossos triunfos. Qualquer pensamento realista irá silenciar os desagradáveis. 
Assim, se a nossa mente nos disser “És um falhado!” e nós nos deixarmos ficar com esse pensamento, iremos sentir-nos deprimidos. Contudo, através de estratégias de terapia cognitiva, podemos recordar a nós mesmos tudo aquilo que fizemos que correu bem, ajudando a contrariar o poder daquela negatividade.

Ana Luísa Oliveira



terça-feira, 19 de abril de 2016

- Mas já pensaste em fazer psicoterapia? - Psicoterapia? Para quê? Aquilo não é só conversa?

Ouvi este pequeno diálogo na rua e fiquei a pensar de que forma é que se poderia tentar chegar até estas pessoas, que realmente pensam que psicoterapia é apenas conversa. Mas ao mesmo tempo questionei-me se esta seria a opinião de muitas pessoas. E pensei que não se deveria desvalorizar o poder da conversa. Efectivamente a Psicologia e a Psicoterapia ainda são vistas como algo secundário e menos importante, felizmente cada vez menos. Mas continua a ser quase mais fácil procurar-se um psiquiatra ou até mesmo o médico de família, que nos receita um antidepressivo ou um ansiolítico e o problema fica resolvido. Mas será que fica?
Falarmos sobre o sofrimento que sentimos é essencial para superarmos uma dificuldade ou um trauma. Ao fazermos isso, somos capazes de nos reorganizarmos a nível emocional. Afinal, a tal conversa pode produzir efeitos reorganizadores na mente de uma pessoa. Apenas a necessidade de traduzirmos o que estamos a sentir para palavras, dá-nos por vezes uma outra perspectiva que, de outra forma não teríamos acesso.

A Psicologia vê o funcionamento da pessoa como uma consequência da soma da inter-relação entre cognição, emoção e pensamento e assim, o comportamento e as emoções são determinados, numa grande parte, pela maneira como pensamos sobre nós e sobre o mundo à nossa volta. Quando essa percepção se encontra afectada, surgem os problemas emocionais. A psicoterapia é o tratamento dessas problemáticas para promover o bem-estar. Através das técnicas psicoterapêuticas e ao se explorar novas perspectivas, vamos sendo cada vez mais capazes de regularmos as nossas necessidades psicológicas e, assim, encontrarmos o nosso equilíbrio emocional.

Felizmente têm havido inúmeros estudos que comprovam as alterações do cérebro, pelos efeitos da psicoterapia. Com o desenvolvimento das neurociências, há nova informação sobre esta questão que é importante dar-se cada vez mais a conhecer. O avanço da tecnologia possibilitou o desenvolvimento de técnicas de neuro imagem, que têm sido cada vez mais utilizadas em pesquisas científicas sobre o funcionamento cerebral associado aos transtornos mentais e ao seu tratamento. As neurociências têm procurado esclarecer os efeitos da psicoterapia no cérebro, e as pesquisas realizadas têm comprovado que existem mudanças neuronais, levando a uma melhoria dos sintomas das pessoas.

Ritchey e col. (2011), fizeram um estudo com pacientes depressivos sem o uso de medicação que demonstrou que a psicoterapia promoveu um aumento geral na activação do córtex pré-frontal, e a uma maior excitação na amígdala, núcleo caudado e hipocampo (uma das regiões cerebrais envolvidas na expressão das emoções). Outra investigação, da Universidade da Califórnia demonstrou, através de estudos de neuro imagem, uma redução da actividade metabólica no núcleo caudado (estrutura localizada no hemisfério cerebral direito, com papel importante no sistema de aprendizagem e memória) em pacientes com Transtorno Obsessivo Compulsivo, que passaram por psicoterapia.

Todos estes resultados demonstram que os circuitos cerebrais e nervosos são muito mais flexíveis do que se pensava anteriormente. A psicoterapia pode alterar o funcionamento cerebral de forma a que as memória recolhidas pelo hipocampo sejam reorganizadas de uma forma significativa pelos lobos frontais e consolidados novamente na memória. O processo de sentir, falar sobre o que se sente, expressar as emoções, ligando isso a uma memória, tem consequências duradouras e benéficas para a qualidade de vida emocional das pessoas.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Quando o corpo fala o que a mente não consegue pensar - a Doença Psicossomática


Normalmente quando sentimos alguma dor ou apresentamos determinados sintomas que nos preocupam, tentamos procurar as causas orgânicas para essas manifestações e procedemos à realização de testes e exames clínicos. No entanto, quando os exames médicos não conseguem descobrir uma origem biológica para os sintomas, é provável que possamos ouvir algo do género : “Você não tem nada, isso é psicossomático!”.
E afinal, o que são somatizações e doenças psicossomáticas? Podemos entendê-las como um conjunto de sintomas para os quais não existe uma origem orgânica/física, sendo a sua causa de origem psicológica e emocional.
A ligação entre a mente e o corpo tem sido bastante estudada, comprovando-se que cada parte do nosso corpo tem uma linguagem a ser entendida. O nosso campo emocional está na base de mais de 90% das alterações ou acidentes ocorridos no nosso corpo, havendo por isso uma tradução dos nossos desequilíbrios emocionais no corpo, sob a forma de dores ou outras desordens orgânicas.
A dificuldades em gerir situações de vida sentidas como insatisfatórias ou stressantes, pode gradualmente induzir alterações no nosso estado psicológico e levar à manifestação de sintomas de variada ordem tais como dores de cabeça, cansaço, fadiga, depressão, pânico.
Podemos então dizer que somatizar é manifestar no corpo, na forma de uma doença ou  sintoma, algum conflito ou desajuste emocional que a mente não consegue elaborar. Por exemplo, uma pessoa que sente dor de cabeça ou de estômago, como resultado da sua ansiedade.
Algumas das doenças psicossomáticas mais frequentes estão ligadas a alterações no aparelho circulatório (pressão alta), digestivo (ulcera, colite, gastrite), endócrino (anorexia e obesidade), doenças dermatológicas (psoríase, alopécia) e aparelho genital (impotência, frigidez).
Ter uma doença psicossomática não significa que a dor e a doença não existam. Mesmo não tendo sido diagnosticada uma causa biológica ou orgânica, a pessoa sabe que algo não está bem consigo e isso é gerador de muito sofrimento, sendo por isso fundamental a procura de ajuda especializada. O tratamento feito com terapias, acompanhamento psicológico e a mudança de hábitos pode levar ao alivio dos sintomas e até ao seu desaparecimento.
O processo psicoterapêutico, para além de promover a conscencialização dos conflitos internos e das emoções que estão na origem da doença psicossomática, elucidando o significado daquele sintoma, ajuda o paciente a adquirir estratégias mais eficazes para lidar com as suas emoções e para mudar as circunstâncias da sua vida que são sentidas como adversas.
A melhor maneira de se prevenir uma doença como a somatização é estar psicologicamente equilibrado e para tal importa a prática de estilos de vida saudáveis como o exercício físico, atividades prazerosas, relaxar, tornar os pensamentos mais ativos e construtivos e colocar em prática as decisões.

É fundamental aprendermos a conhecer melhor o nosso corpo, tendo a capacidade de o sentir, integralmente, por dentro e por fora para compreendermos o que está a falhar e o que é necessário mudar. 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O que queres fazer, agora que és grande?!

Desde pequeninos que ouvimos perguntas como “O que queres ser quando cresceres?”. Não só este ser (e não fazer) se refere à profissão que pretendemos escolher (como se isso se tornasse no nosso “eu” ou o nosso “eu” passasse a ser, simplesmente, o trabalho que desempenhamos), como parece haver uma certa urgência na decisão (como se não pudéssemos, simplesmente, ainda não saber). Isto devia alertar-nos já em crianças para o que nos espera em adultos…
A experiência e a investigação mostram-nos que uma das coisas que mais contribui para o desenvolvimento da nossa identidade em adultos é a nossa profissão. Mais uma vez, parece que os conceitos de ser e fazer se tocam. Não é só o nosso “eu” social que parece depender da nossa profissão, mas também o nosso “eu” individual é construído em parte por ela.
Em tempos em que tantas pessoas se encontram desempregadas, e tantas outras (ou mais ainda) estão insatisfeitas com aquilo que fazem, com os cargos que ocupam, como se definem os adultos de hoje? Como podem eles (re)construir as suas identidades?
Mesmo quando a nossa resiliência nos permite ver o desemprego como uma oportunidade (ou que somos livres de mudar), e perceber que temos um mundo de possibilidades de escolha, muitas vezes, o que acontece é ficarmos paralisados - ficamos tão ansiosos com o receio de fazermos a escolha errada, que acabamos por não fazer escolha nenhuma. Isto não significa que não tenhamos preferências, ou que não há nada que gostássemos de fazer, mas apenas que não sabemos com clareza o que é (o que nos coloca na perigosa posição de quem não tem um plano: facilmente fica à mercê de quem tem um).
Quando iniciamos a pesquisa da profissão que queremos seguir, aquela que nos vai “encher as medidas”, o primeiro passo passa por nos conhecermos profundamente. Para isso, precisamos de não pensar em dinheiro por alguns momentos, uma vez que a ansiedade com as contas e a subsistência podem comprometer qualquer diálogo com o lado mais autêntico e entusiástico de uma pessoa. Assim, da forma mais espontânea e intuitiva que lhe for possível, escreva TUDO aquilo que alguma vez tenha gostado de fazer (o que pode incluir fazer queda livre, separar as roupas por cores no armário, ou organizar um divertido jantar para os amigos). Às vezes, quanto mais estranha e excêntrica lhe parecer a lista melhor, porque é muito provável que nesta confusão de ideias estará o esboço da sua identidade profissional.
Claro que esse esboço é ainda muito desordenado, e por isso requer uma análise mais profunda, que pode demorar vários meses de constantes reflexões diárias até se poder identificar uma profissão que seja adequada à sua identidade. Contudo, tendemos a sentir-nos ansiosos acerca disso, culpando-nos muitas vezes de auto-complacência… Mas na realidade, se não queremos passar o resto das nossas vidas presos ao trabalho que “um miúdo” de quem já mal nos lembramos escolheu para nós quando tinha 16 anos, precisamos ser generosos connosco quanto ao tempo que vamos dispensar com isto.
No entanto, só nos conseguimos conhecer verdadeiramente se formos ao encontro do mundo real, e não nos limitarmos a reflectir acerca da nossa identidade e do nosso futuro. Precisamos reunir informação mais concreta, seja através de um estágio ou voluntariado, de observação, ou até mesmo ouvindo os outros. Para isso, e porque por vezes o conhecimento dos outros acerca de nós pode estar mais “apurado” em algumas áreas do que o nosso próprio, podemos, por exemplo, pedir a alguns amigos e a outros tantos colegas ou ex-colegas de trabalho para nos dizerem três qualidades nossas. Isto poderá ajudar-nos a (re)descobrir em nós características para as quais não estávamos sensibilizados.
Esta descoberta poderá ser crucial para outro importante passo na procura da sua profissão: ser confiante. Por vezes parece absurdo, mas de uma forma estranha e também ela por vezes absurda, a diferença entre sucesso e insucesso reside, com frequência, na coragem em arriscar. Neste campo, a falta de confiança corresponde, não raras vezes, a uma compreensão deturpada de como o mundo funciona, em que supõe que apenas algumas pessoas (mas nunca nós próprios) têm o direito pré-determinado de obter determinadas coisas… Quando, na verdade, conseguimos fazer muito mais do que aquilo em que acreditamos nos nossos momentos de dúvida e timidez. Estas são algumas estratégias que nos podem ajudar a chegar mais perto da nossa identidade profissional, e a redefinir o nosso caminho. A psicoterapia pode ser uma importante ferramenta neste processo de auto-conhecimento.



Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Como Prevenir a Depressão Pós Parto?

O nascimento de um bebé é, supostamente, um acontecimento de grande alegria. No entanto, nem sempre é assim; muitas mães, durante um período breve, sentem-se infelizes, preocupadas, nervosas e chorosas. Essa situação começa alguns dias após o parto e afecta muitas mães, e é tão comum que é considerada normal. É possível que as alterações hormonais da gestação sejam responsáveis por esses sintomas, que tendem a diminuir e a desaparecer em dias. A maior parte das mães consegue superar essa tristeza inicial e passa a cuidar do seu bebé, contudo, uma mulher com depressão pós parto fica cada vez mais ansiosa e invadida por sentimentos desagradáveis. A depressão pós-parto desenvolve-se normalmente nas seis semanas seguintes ao parto e pode aparecer gradualmente ou de repente.
Aqui fica um pequeno vídeo sobre a depressão pós parto e como a podemos prevenir.



domingo, 10 de abril de 2016

A Relação Fraterna...da Rivalidade à Cooperação entre Irmãos





Ontem, dia 10 de Abril, assinalou-se o Dia dos Irmãos, nos Estados Unidos da América, O National Sibling Day.
Durante várias décadas, o foco da investigação incidiu nas dinâmicas relacionais entre pais e filhos e só mais recentemente é que a relação fraterna tem sido estudada e avaliada. Atualmente, é inegável que a relação entre irmãos tem de facto uma influência considerável no nosso desenvolvimento social e emocional enquanto adultos.
No entanto, a qualidade do vínculo entre os irmãos, depende dos pais e da forma como fomentam a proximidade relacional entre os irmãos desde o início, incentivando o envolvimento, o respeito mútuo, a cooperação e a gestão dos problemas.
Cabe aos pais mostrar aos filhos que cada um tem o seu lugar na família, de modo a ajudá-los a superar as situações de competição, ciúme e rivalidade, sendo por isso de evitar a comparação entre irmãos.
A vida na fratria vai possibilitar  a cada criança experimentar a socialização antes de vivenciá-la na realidade externa (creche, escola) sendo por isso fundamental a existência  de regras e limites por parte das figuras parentais. Os irmãos acabam por se constituírem como agentes socializadores por excelência, com os quais se aprende a dividir, fazer concessões, perseverar, negociar, enfim a viver em sociedade.
As crianças que crescem como filhas únicas podem não ser necessariamente menos competentes socialmente do que as que crescem com os irmãos, mas têm uma probabilidade maior de desenvolver as habilidades sociais através de amigos. Neste caso, os pais podem encorajar os seus filhos a desenvolver relações  próximas com os primos e/ou com os filhos dos amigos, o que acaba por lhes permitir desenvolver competências sociais que provavelmente não adquiririam se estivessem limitadas à interacção com os pais e outros adultos.
Apesar das pequenas guerrinhas e às vezes dos gritos, a relação entre irmãos e a cumplicidade entre eles fazem com que as crianças nunca se sintam sozinhas e sobretudo, aprendam a partilhar desde brinquedos a sentimentos. 
De modo a promover a solidariedade e a amizade entre os irmãos, diminuindo a rivalidade fraterna, os pais poderão adotar algumas das seguintes estratégias:
  • Não faça comparações entre irmãos, evitando qualquer manifestação de favoritismo: cada filho deve ser estimulado a melhorar em relação aos seu próprio desempenho, não em relação ao do irmão;
  • Garanta que os seus filhos saibam que são igualmente amados, pelas suas diferenças e qualidades únicas, para que eles próprios se sintam bem com as suas características e também aceitem as diferenças dos demais;
  • Crie um “dia do filho único” e faça programas em separado, proporcionando momentos de partilha com cada filho individualmente;
  • Promova espaços de convívio e atividades conjuntas que irão reforçar a relação entre irmãos mas também respeite o espaço individual de cada um, nomeadamente os interesses, os amigos, as atividades e a vida particular de cada um;
  • Não tome partido nas divergências entre os irmãos, ouvindo sem julgar;
  • Incentive os seus filhos a procurarem estratégias de resolução de conflitos.  Os pais devem posicionar-se como mediadores, promovendo a partilha de pontos de vista e emoções
  • Se uma rivalidade se tornar excessiva intervenha rapidamente e de forma firme, definindo os limites e clarificando que em nenhuma circunstância é admissível magoar o outro;
  • A atenção dos pais deve privilegiar os momentos em que há interações positivas e adequadas, elogiando a capacidade das crianças partilharem brincadeiras e trabalharem em equipa.


"Ter um irmão é ter, para sempre, uma infância lembrada com segurança em outro coração."
Tati Bernardi




quinta-feira, 7 de abril de 2016

Quietude... ou a importância de parar

 Hoje em dia estamos em constante aceleração, quase obcecados com a velocidade e o imediatismo, fazendo cada vez mais coisas em cada vez menos tempo. Procuramos tornar tudo mais rápido, sem nos apercebermos que, por vezes, estamos a passar pela vida com muita pressa, perdendo a oportunidade de a vivermos de facto. Por que é que o fazemos?!? Em parte, porque toda esta rapidez e velocidade nos “protegem” de questões maiores e mais profundas... Muitas vezes, preenchemos as nossas cabeças com distracções e ocupações para que não tenhamos que nos questionar acerca de nós próprios e do que nos rodeia.
Podemos também cada vez mais facilmente estabelecer contacto com pessoas que se encontram nos locais mais remotos, mas por vezes, nesse processo, é como se perdessemos contacto connosco próprios.
Actualmente podemos trabalhar a partir de quase qualquer lado, podemos fazer muito mais, e muito mais rápido, do que alguma vez se pensou. Mas, se tudo parece fazer-se mais rápido, por que nos sentimos sem tempo? Alguns autores sugerem que é por nos termos tornado menos competentes na arte de não fazer nada.
Quantos de nós se sentem desconfortáveis quando não estão a fazer alguma coisa? Quantos sentem que estão a perder tempo? Parece cada vez mais difícil esperar 10 segundos pelo elevador sem consultar a caixa de e-mail, ou fazer o percurso de autocarro simplesmente a olhar pela janela sem nos pormos a par das actualizações nas redes sociais. Alguns estudos mostraram que a maioria das pessoas prefere fazer algo, mesmo que desagradável, do que não fazer nada e ser deixada a sós com os seus pensamentos... Contudo, precisamos da quietude, desta capacidade de “nada fazer” para recarregar baterias. A constante estimulação que recebemos a partir dos nossos ecrãs, apesar de ser prazerosa no imediato, leva-nos a um estado de “sobrecarga cognitiva”, que prejudica capacidades como pensar criativamente, planear, inovar, resolver problemas, tomar decisões, aprender coisas novas facilmente, falar fluentemente, controlar as nossas emoções... ou seja, parece comprometer tudo o que precisamos fazer num dia normal.
Por outro lado, só conseguimos vivenciar as emoções chamadas positivas se nos permitirmos estar efectivamente em contacto com todas as nossas emoções, com tudo o que de facto estivermos a sentir, seja agradável ou desagradável. Infelizmente, o que acontece muitas vezes é que para evitarmos a sensações desagradáveis  que a quietude nos pode trazer (como a sensação de pânico por não estarmos a fazer nada, ou a perder tempo), colocamo-nos numa espécie de “dormência” também em relação às sensações boas das nossas vidas.
Assim, se queremos continuar produtivamente activos e, simultaneamente, sentirmo-nos bem, precisamos aprender a parar. Se nos sentirmos sobrecarregados e sem tempo para cumprir as nossas tarefas, devemos parar e questionarmo-nos. Provavelmente, mais do que de tempo, aquilo de que precisamos é de permanecer quietos, sem estímulos, de quietude para percebermos o que realmente nos motiva, para nos lembrarmos onde reside a nossa verdadeira alegria.
Para treinar a quietude, podemos, por exemplo, tentar conduzir em silêncio, sem rádio ou telemóvel ligados; fazer as refeições sem televisor ou telemóvel por perto; caminhar diariamente no exterior sem telemóvel ou leitor de música; podendo começar com apenas alguns minutos por dia, e ir aumentando gradualmente a duração. E da próxima vez que der por si a olhar para o espaço, perdoe-se. Não está a perder tempo, está a ir ao encontro da sua quietude.



Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Respiração consciente: uma aliada na gestão do stresse


Logo no primeiro momento de vida, aprendemos a respirar. Provavelmente é essa a razão da respiração ser tão automática, que acaba por ser negligenciada no nosso dia-a-dia. A respiração é essencial para a qualidade de vida e não pode ser negligenciada. A respiração é automática, mas uma respiração ao se tornar consciente pode ser nossa aliada nas situações de maior stresse e ansiedade.
Nos tempos que correm, existe uma constante exigência por parte da sociedade e são tantos os compromissos e deveres que é essencial conseguirmos aliviar os sintomas físicos e emocionais do stresse de um modo natural. Às vezes, tudo parece ser demais: um patrão exigente, uma voz de uma colega mais aguda, o carro a ter que ir ao mecânico, alguém que nos está constantemente a telefonar, o autocarro que nunca mais chega, sentimos que existe uma facilidade de nos irritarmos e de nos sentirmos incomodados. Nestes momentos, podemos ter uma grande aliada para nos aliviar destas sensações desagradáveis: a respiração consciente. Segundo Ana Berenguer, psicóloga e membro da International Breathwork Foundation (http://www.ibfnetwork.com), o nosso organismo tem um sistema autónomo para obter o oxigénio e adequa-se a cada momento, mas nós podemos modificar a nossa respiração para controlar o sistema nervoso e o ritmo cardíaco, melhorando assim o nosso bem-estar.

Agora vamos a algo mais prático. Como está a sua respiração hoje? Está rápida ou lenta? Curta ou longa? Por breves minutos, sem a tentar modificar, apenas estando atento à sua respiração, aperceba-se qual o ritmo e como a está a fazer. Sinta o ar a entrar nas narinas e os pulmões a encherem-se de ar. Ao fazer este exercício, mesmo que outros pensamentos invadam a sua mente, volte a sua atenção novamente para a sua respiração. Continue focado nas sensações, sinta os pulmões a esvaziarem-se à medida que o ar vai saindo das suas narinas. Como é estar focado e atento na sua respiração? Ao estarmos atentos à nossa respiração, podemos aliviar as sensações desagradáveis de tensão e de stresse, através de uma respiração consciente. A nossa respiração tem um grande impacto no nosso estado mental e físico, vamos pensar nisso? Convido-vos a experimentar este exercício 3 minutos por dia.

Existem duas formas para colocarmos ar nos pulmões: com a barriga para dentro, peito para fora, que é a respiração torácica, ou então através do diafragma, que é a respiração abdominal. Quando enchemos o peito de ar, encolhemos a barriga, usamos apenas a musculatura do tórax. Este é o tipo de respiração de quem está a fazer um exercício físico intenso. E é também o tipo de respiração de quem está sob pressão. Já a respiração diafragmática ocorre em situações de calma e, muito importante, é capaz de diminuir uma reacção de alarme. O diafragma é o músculo que separa o abdómen do tórax, e pode ser controlado com um mínimo de atenção.

Os sintomas físicos da ansiedade podem ser desencadeados por hiperventilação e respiração superficial (respiração curta e rápida), que aumenta os níveis de oxigénio e reduz a quantidade de dióxido de carbono no sangue. O dióxido de carbono auxilia na regulação da reacção do corpo à ansiedade e pânico. Devemos aprender a respirar pelo diafragma e sobretudo ter uma respiração consciente, onde a barriga se expande quando se inspira. Para termos a certeza de que estamos a respirar correctamente, colocamos uma mão sobre o abdómen e outra no peito. A respiração mais correcta significa mover o abdómen, em vez do peito.

Se vamos fazer uma apresentação oral, um exame ou vamos a uma entrevista de trabalho, é natural estarmos ansiosos, contudo o focarmos em breves minutos a nossa total atenção na nossa respiração, ajuda a acalmar e a relaxar. Se estamos numa situação já de tensão e de ansiedade, para não permitirmos que essa tensão se eleve ainda mais, ao tentarmos focar a nossa atenção total na respiração, vai ajudar.nos,

Existem algumas práticas físicas que ajudam a desenvolver um maior controlo da respiração, tais como yoga, pilates, natação, tai chi chuan e mindfulness, como também aulas de música com instrumentos de sopro e canto. Mas o estar consciente da forma como se respira durante qualquer prática respiratória é mais importante do que a própria prática em si.

Vamos experimentar uma vez por dia este exercício da respiração consciente?

domingo, 3 de abril de 2016

O Quarto de Jack num olhar da Psicologia



O Quarto de Jack (Room, no original) é um filme que surpreende e emociona pela forma como retrata diferentes dimensões da condição humana tais como a esperança, a fantasia, a depressão, a resiliência mas acima de tudo, pelo modo como retrata o poder dos laços afetivos entre mãe e filho na superação de uma realidade adversa e hostil.
O filme conta a  história de Joy (Brie Larson, vencedora do Óscar de melhor atriz em 2016), uma jovem que foi sequestrada e é mantida em cativeiro há 7 anos num quarto com cerca de 10 metros quadrados. Joy, que é molestada periodicamente pelo seu sequestrador, acaba por ter um filho com ele, Jack (Jacob Tremblay), que nasceu no cativeiro e que completou 5 anos de idade.
Para que o filho não sofra com a vida desumana que os dois levam, encarcerados naquele espaço minúsculo e claustrofóbico, Joy constrói a fantasia de que o mundo e tudo o que existe se resume ao pequeno quarto, ocultando do filho a ideia de que estão em cativeiro. Logo, para Jack, o Quarto era todo o mundo. Aos poucos percebemos a resiliência daquela mãe, no que se refere à capacidade para transformar o sofrimento em força, ou seja, a condição de cativeiro num mundo particular, único e especial, explorando para isso a fantasia no seu filho e criando-o com todo o amor, de modo a garantir que ele se sinta seguro, amado e feliz.
No seu mundo, Jack tem apenas contacto com a mãe e como mecanismo de compensação de falta de relações humanas, personifica os objetos do quarto. A dimensão social é determinante na construção do ser humano e por isso Jack relaciona-se com os móveis e outros objectos presentes no quarto como se fossem pessoas, cumprimentando-os de manhã e despedindo-se deles à noite. A presença dos outros ao nosso redor, como apoio e suporte nos momentos mais exigentes é fundamental e se Jack recebeu da sua mãe o amor incondicional de que precisava para sobreviver, também ele sustentava emocionalmente a sua mãe e fazia com que ela lutasse pela vida pelo simples facto de existir.
A segunda parte do filme retrata as dificuldades de adaptação de Jack e da sua mãe ao mundo real após a libertação do quarto. E, por isso, Jack fala por diversas vezes que gostaria de voltar para lá. “O quarto de Jack”, não é só um espaço físico, mas também um lugar psicológico, uma zona de conforto, de segurança  que é difícil de ser deixada para trás, ainda que não seja possível permanecer lá. É comum nós também desejarmos voltar para uma posição mais cómoda e confortável perante situações que nos exponham em demasia ou que ainda não aprendemos a gerir. Temos dificuldades em lidar com grandes mudanças nas nossas vidas porque estamos apegados às nossas crenças, verdades e hábitos e temos medo de perder tudo isso. É necessário determinação e coragem para encararmos a mudança e deixarmos para trás as velhas mentalidades em prol de uma nova realidade repleta de opções e diferentes verdades.
Se num primeiro momento Jack entra em choque com a nova realidade, com o tempo a sua adaptação torna-se mais fácil que a da sua mãe, o que remete para a plasticidade que existe nas crianças e que é facilitadora da adaptação. Por seu lado, a mãe ao retornar a casa, vive as consequências psíquicas da violação da sua liberdade e integridade ao longo dos anos, bem como das humilhações físicas e psicológicas a que esteve sujeita. Joy entra numa depressão profunda e fica bastante confusa sobre o velho e o novo mundo em que agora se encontra.

Jack tem aqui um papel fundamental, na forma como apoia emocionalmente a sua mãe e lhe indica a atitude necessária para virar a página: enfrentar os seus fantasmas e seguir em frente.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

​Relações difíceis?! ou como a mitologia grega e os nossos pais nos podem levar a fracassar nos relacionamentos


Na obra de Platão "Simpósio",  Aristófanes conta como, originalmente, os humanos foram criados com quatro braços, quatro pernas e uma cabeça com duas caras. E que Zeus, ao sentir o poder dos deuses ameaçado, separou os humanos em duas partes distintas, e lançou cada metade ao mundo. Passou a acreditar-se que, algures, haveria uma metade que nos faltava. A busca pela "cara metade", por uma “alma gémea”, parece estar ainda, embora que subtilmente, no topo da lista de tarefas a cumprir de muitos de nós. E isso leva a que, por vezes, numa relação, procuremos no outro as “partes” de nós que nos faltam, impedindo-nos de olhar o outro na sua singularidade, conhecendo-o verdadeiramente. Contudo, muitos anos de História, e alguma investigação, têm-nos mostrado que o verdadeiro desafio das relações não é encontrar a combinação perfeita, mas negociar generosamente as diferenças.
Por outro lado, aprendemos o amor, inicialmente, sendo amados pelos nossos pais ou cuidadores, numa relação nada recíproca. Isto ajuda a que, quando adultos e aparentemente disponíveis para um relacionamento, muitas vezes, sem nos apercebermos, mais do que desejarmos amar alguém, procuremos ser amados, procuremos alguém que irá entender todas as nossas vontades, e que será extremamente paciente, compreensivo e altruísta para connosco. No fundo, é como se procurássemos trazer para a vida adulta o que era sentirmo-nos cuidados, perdoados, amados incondicionalmente, pelos nossos pais. Para além disso, quando em bebés começamos a aprender acerca do amor, não somos capazes, nem precisamos, de dar a conhecer as nossas vontades e intenções àqueles que mais nos amam: eles sabem, pura e simplesmente, que queremos comer, certificam-se de que estamos confortáveis, etc. De certa forma, os nossos pais moldam a nossa compreensão do que é amar e ser amado. Infelizmente, muitas vezes, isso é enviesa a nossa compreensão de um “amor adulto”.
Para complicar ainda mais, no início das relações as pessoas parecem entender-se profundamente sem  precisarem de dizer muito, concordar de uma forma quase mágica acerca das coisas, sentir uma ligação como nenhuma outra. O problema é que, enquanto adultos, somos seres extraordinariamente complexos, e pedir a alguém que nos compreenda a longo prazo sem nos darmos a conhecer, sem nos “explicarmos” ao outro, é como pedir a alguém que compreenda como funciona um determinado medicamento no organismo simplesmente olhando para a embalagem. Ou seja, não compreender o outro quando não se tem uma explicação acerca dele não revela que somos más pessoas, apenas que somos humanos. Assim, em vez de amuarmos, ficando ofendidos por não sermos compreendidos, por que não darmo-nos a conhecer profundamente ao outro? Por outro lado, se, involuntariamente, somos nós que levamos o outro a amuar, experimentemos tentar aceitar que não é porque ele seja mau que está estranho e calado, mas porque no fundo está assustado e com medo, e que, mesmo sendo forte e competente em muitas áreas, por dentro pode estar apenas a sentir-se como um bebé desprotegido nas mãos de alguém que parece não saber tomar conta dele. Uma parte da relação amorosa implica aceitar esta necessidade de “ensinar” ao outro, de uma forma agradável e paciente, quem nós somos.
Assim, entre os melhores presentes de amor que podemos oferecer a alguém, estão a genuina abertura e curiosidade para conhecer o outro, e explicações, tão calmas e detalhadas quanto conseguirmos, sobre como verdadeiramente somos, em toda a nossa loucura, complexidade e estranheza.


Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.