sexta-feira, 18 de novembro de 2016

“O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho”... e a dificuldade em viver o Presente

Há uma semana foi anunciada a morte de Leonard Cohen, reconhecido cantor, mas também escritor, poeta, e monge budista. E é como se essa variedade e complexidade estivessem presentes nas suas músicas e letras – goste-se ou não, o ritmo que escolhia e as letras que cantava levaram a que Pico Iyer dissesse que “Cohen takes you in, not up.”, ou seja, que as suas canções não são para elevar o ânimo, mas sim canções que nos fazem viajar para dentro de cada um de nós, em profundidade.
Cohen encontrou na meditação e na vivência budista a forma de desacelerar a vida agitada que tinha. Encontrou-se no silêncio, na quietude, arte de parar, de estar no presente. Terá dito que não ir a parte nenhuma foi a grande aventura que faz sentido em qualquer outro lugar.
Apesar de a prática da meditação ser milenar, de tantos exemplos mediáticos (Cohen, Alan Watts...) destacando a importância de vivermos o presente, da possibilidade de encontrarmos sugestões mindfulness em tantas publicações e até mesmo apps... continua a ser-nos terrivelmente difícil habitar adequadamente este lugar a que chamamos Presente. Também no Livro do Desassossego, Fernando Pessoa escreveu: Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Mas a verdade é que a nossa mente parece muito mais passear entre o passado, de um Presente que já foi, e o futuro, que ainda não está aqui, e que não pode, por isso, ser parte da realidade vivida enquanto não for, também ele, Presente.
Estamos desastrosa e quase permanentemente conectáveis; já não há fins de semana; os dias de descanso são só para alguns; dormimos pouco; corremos muito; comemos mal. E, mesmo quando conseguimos fugir desse ambiente de serviço de urgências, e até quando somos presenteados com um sol magnífico (ou uma super-lua!), o céu mais azul que já vimos, o mar de um turquesa encantador, a brisa que refresca e ao mesmo tempo aconchega... a nossa mente consegue fugir para a reunião que vamos ter daí a dois dias, para a discussão da semana passada com o nosso melhor amigo, ou, simplesmente, para as belas fotos que vamos poder publicar nas redes sociais. É como se esse sol, o mar, a brisa que embala, pudessem ser mais reais, e também melhor apreciados, quando já são memória. Porque no Presente são difíceis de experienciar, com tanto ruído que existe em nós.

Contudo, importa estarmos preparados para esta dissonância entre o espaço temporal em que os nossos corpos e as nossas mentes se encontram. Aceitarmos que estas duas partes de nós nem sempre coexistem no mesmo Tempo. E, com isso, lembrarmo-nos também que o mesmo pode acontecer com as outras pessoas – e que, por exemplo, quando parecem não estar a prestar atenção ao que estamos a dizer, podem simplesmente estar a experienciar esta dificuldade.

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