sexta-feira, 15 de julho de 2016

Viajar... uma necessidade psicológica?!?

Nem toda a gente gosta de viajar. E, daqueles que gostam, há os que preferem ir para o destino mais distante possível, há os que gostam de “viajar cá dentro”, há os que preferem a natureza, os que amam as grandes cidades, os que são adeptos dos fins de semana prolongados, e os que não se importam de acumular as férias de dois anos para poderem depois perder-se no tempo... E mesmo cada um deste “viajantes” é também, por vezes, outro tipo de viajante. Em diferentes momentos (cronológicos ou emocionais) das nossas vidas preferimos e fazemos viagens diferentes...
Por vezes podemos atribuir a capricho, ou má utilização da palavra, quando alguém diz que precisa viajar. Muitos poderão argumentar que precisar precisa-se de comer, de um tecto, de um agasalho no inverno... não de viajar! Mas, e se encararmos viajar como sendo realmente uma necessidade?
Na Idade Média, quando havia algo de errado com alguém essa pessoa era incentivada a partir em peregrinação, dirigindo-se, por exemplo, ao local onde se encontrassem os restos mortais de um determinado santo, preferencialmente daquele “especializado” na preocupação, doença ou problema que se possuía. Arrisco dizer que, hoje, quase todos que viajam fazem-no por outros motivos. Ainda assim, concordo que há lugares no mundo que, pelas suas características, têm o quase “poder” de mudar e ajudar a reparar algumas das nossas feridas interiores.
Quando viajamos, todos integramos também (de uma forma mais ou menos profunda, mais ou menos consciente) uma viagem interior. Só que, ao contrário do que acontecia na Idade Média, agora partimos muitas vezes sem sabermos exactamente o que é que está mal connosco, o que ou onde dói, e, por isso, partimos também sem saber muito bem como o destino escolhido nos pode ajudar... Pode alguém partir sem saber antes onde está? Quantas vezes o desejo de viajar traz consigo não só a vontade para visitar algum lugar, como também a de deixar para trás determinadas partes de nós mesmos?
E se procurássemos aprender com aqueles nossos antepassados e nos tornássemos viajantes mais conscientes? E se nos tornarmos mais ambiciosos relativamente às viagens, e as encararmos como uma forma de nos ajudar a desenvolver o melhor de nós mesmos, crescendo com as sugestões oferecidas pelos lugares em que estivemos? Poderíamos começar por procurar conhecer outras características que cada lugar possui: não o tipo de alojamento que existe, ou a facilidade em levantar dinheiro, ou mesmo a distância a um hospital... outras qualidades como a calma, a sensualidade, o rigor, a tolerância, a perspectiva. Ao atentarmos a estes detalhes, poderemos permitir que a viagem exterior nos ajude na interior também – o que só é possível se nos arriscarmos olhar para dentro, saber onde estamos bem lá no fundo do nosso Eu.
Qualquer local para onde possamos viajar possui características que podem proporcionar algum tipo de mudança benéfica. Há sítios que podem ajudar-nos com a timidez, outros com a ansiedade. Os desertos, por exemplo, parecem poder ajudar-nos a promover a nossa humildade, recordando-nos, por exemplo, como somos, à escala global, apenas uma pequena peça.
Assim, é como se o acto de viajar atingisse o seu potencial máximo ao ajudar-nos, quase como uma forma de terapia, a corrigir os desequilíbrios e imaturidades que nos são naturais.
As viagens permitem-nos, muitas vezes, procurar no mundo exterior onde precisamos ir no nosso mundo interno. Para isso é necessário arriscar... Deixar de viajar apenas para onde nos é confortável no nosso interior, para onde nos é familiar, deixando de procurar nesses locais apenas repetir o que já temos.

"A verdadeira viagem de descoberta não consiste em ver novas paisagens, mas em observar com novos olhos."

Marcel Proust


Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia,

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