sexta-feira, 10 de junho de 2016

Esforçamo-nos por escondê-la... mas Camões não deixou!

Hoje é dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. O Poeta, de cuja data de morte foi a escolhida para celebrar a nação Portuguesa, termina a maior das suas obras com uma emoção...
Sentimo-nos mais ou menos confortáveis em expressar a maioria das nossas emoções, mesmo as desagradáveis: podemos admitir estar tristes, zangados e até com medo... mas e invejosos? Quantos de nós já confessámos a nossa inveja a outros, ou até a nós mesmos? Com que frequência ouvimos alguém falar acerca da intensa inveja que tem face a algo? Pois é... a inveja parece não vir sozinha. Parece haver, quase sempre, embaraço a acompanhá-la, vergonha e até mesmo culpa.
Há quem diga que terminar Os Lusíadas com a enveja foi uma escolha de Camões, assumindo que esta é uma emoção que nos define enquanto povo. Será?!? E se assim for, será assim tão mau?
Querer qualquer coisa que outra pessoa tem, mas cujo acesso é limitado, e que, imaginamos, nos trará felicidade e realização pessoal, confere ao outro uma certa vantagem ou mesmo poder. Quando sentimos inveja, imaginamos que a vida dos outros é mais feliz, satisfatória, o que torna esta emoção numa espécie de elogio ao outro. Um “elogio” que muitas vezes nos magoa no mais profundo de nós. Fantasiamos acerca de ter aquilo que sentimos que nos falta, quando, muitas vezes, o que nos falta é admiração, apreço, uma sensação muito semelhante à que temos para com a pessoa que tem o bem ou carcaterística que desejamos, mas que muitas vezes não temos para connosco. E se estarmos aleatoriamente demasiado expostos ao sucesso dos outros nos pode apavorar ao ponto de nos sentirmos sem capacidade de agir, e, inconscientemente, nos impedir de colocar qualquer plano em prática, será esta, efectivamente, uma emoção que nos define?
A inveja é muitas vezes descrita como uma emoção mesquinha, egoísta, e, como vimos, muitas vezes acompanhada de sofrimento... mas, se é suposto permitirmo-nos sentir todas as emoções, por que é que invejamos? Qual a função da inveja no nosso auto conhecimento?
Se nos permitirmos despir a culpa e o embaraço da inveja, podemos olhá-la como uma pista acerca daquilo que podemos fazer a seguir, como uma espécie de chamamento a que devemos estar atentos, uma vez que nos traz, de forma disfarçada, mensagens enviadas por partes confusas, mas importantes, das nossas personalidades, sobre o que devemos fazer com as nossas vidas.
Quando invejamos, podemos sentir-nos tristes com o sucesso do outro, ou com o que ele tem, mas também, simultaneamente, sentirmo-nos nós próprios secretamente inferiores. Sem as mensagens que a inveja nos vai enviando regularmente, ser-nos-ia difícil saber o que queremos ser: cada pessoa que invejamos tem uma peça daquilo com que desejamos construir o nosso futuro.  É como se as pistas que a inveja nos dá quando sabemos que um colega nosso está numa posição de sucesso, quando a nossa melhor amiga foi mãe, quando o nosso irmão abdicou da vida “confortável” que tinha e decidiu partir numa missão humanitária, nos permitissem ir construindo um puzzle com a imagem do nosso verdadeiro Eu.
Em vez de tentarmos esconder, disfarçar e até mesmo reprimir a nossa inveja, por que não questionarmo-nos calmamente acerca de tudo ou todos quantos invejamos: “O que é que posso aprender com isto?”?
Se nos dispusermos a estudar a nossa inveja criando, por exemplo, um “diário da inveja” onde vamos apontando as situações e pessoas que invejamos, poderemos aceder às partes do nosso futuro Eu que procuram aparecer. Poderá ser libertador perceber que, apesar de começarmos a invejar certas pessoas na sua totalidade, se analisarmos calmamente as suas vidas, tomamos consciência de que, afinal, apenas uma pequena parte do que fizeram realmente ressoa em nós e é orientador dos nossos próprios próximos passos. Ou seja, esquecemos-nos frequentemente que aquilo que admiramos e desejamos não pertence exclusivamente a uma vida específica, e que pode ser alcançado em doses mais pequenas, ou mesmo menos intensas, mas ainda assim muito reais, que abrem a possibilidade de versões mais pequenas, mais práticas e até adaptáveis, e, principalmente, mais realistas, das vidas que queríamos ter.

Os nossos sentimentos de inveja tentam dizer-nos alguma coisa... e nós devíamos ouvi-los.


Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante,
A minha já estimada e leda Musa
Fico que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter
enveja.

(Luiz Vaz de Camões, in Os Lusíadas)



Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.

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