sexta-feira, 17 de junho de 2016

A arte de Não Saber...

A experiência de não saber é difícil para algumas pessoas... É algo que pode deixá-las extremamente ansiosas, especialmente quando outros parecem tão seguros acerca de tanto ou mesmo de tudo. Não saber pode fazer-nos sentir desligados, sozinhos, e, quase inevitavelmente, vulneráveis.
Perante esta ansiedade e mal-estar relativos a não saber, de acordo com Nick Luxmoore pode acontecer entregarmo-nos totalmente ao desespero, ou passarmos a dividir tudo em bom ou mau, adorável ou odioso, porque, então, tudo vai parecer mais simples e será mais fácil convencermo-nos de que "sabemos", mesmo quando a verdade é muito mais complicada. Uma terceira forma de lidar com o não saber poderá ser agarrarmo-nos a respostas, podendo isto acontecer, por exemplo, numa relação em que os elementos dos casal não sabem ao certo o que sentem um pelo outro, e preocupados com a sensação de que deveriam saber, encobrem a sua ansiedade com presentes caros, com reafirmações constantes do amor que “sentem” pelo outro, ou com uma excessiva intimidade, para provarem algo a eles próprios, dispostos a fazerem quase qualquer coisa que faça desaparecer a ansiedade de não saberem.
Contudo, provavelmente muitos de nós recordamos com admiração aquele professor que um dia disse não saber a resposta a uma pergunta mas que iria pesquisar e tentar trazer a resposta na aula seguinte. Pode parecer-nos fácil apreciar a honestidade em admitir que não sabia a resposta, a “humildade” em ir estudá-la, e assumirmos que “Não temos que saber tudo”, que “Os especialistas tornaram-se especialistas em determinado assunto porque estiveram dispostos a não saber acerca de outros”... Mas, então, por que é que nós próprios não podemos não saber? Por que é que tantas vezes não nos permitimos a que a nossa posição face a determinado assunto seja não saber? Por que é que, para conseguirmos uma resposta, estamos dispostos a quase tudo, menos a não saber? Ao invés de ser um sinal de fraqueza, de desinteresse, de ignorância, não saber requer coragem e assumi-lo é, geralmente, eficaz.
Já em 1817, o poeta inglês John Keats defendia o conceito de capacidade negativa: «quando um homem é capaz de estar em incertezas, mistérios, dúvidas, sem qualquer tentativa impaciente de alcançar facto e razão...». De acordo com o poeta, esta é uma competência avançada para tolerar a incerteza, mas não uma incerteza passiva, associada à ignorância. Esta capacidade negativa advém de uma incerteza activa, produtiva, que tem a ver com a possibilidade de estarmos sem um modelo, de não sabermos o resultado, e ainda assim conseguirmos tolerar, e mesmo desfrutar, da sensação de estarmos perdidos.
A incerteza, a permissão que damos a nós mesmos de não sabermos, pode ajudar-nos a resolver problemas e abrir-nos a novas soluções que, se nos deixarmos levar pela impaciência de conseguir uma resposta imediata, ou pela pressão de evitar um desfecho que nos parece incerto, não iríamos encontrar. É-nos muitas vezes difícil lidar com as nossas ambivalências, permitirmo-nos estar no presente com a experiência de não saber. Mas é precisamente quando aceitamos a verdade da situação (não sabermos) que podemos experienciar um enorme alívio que nos permite, finalmente, relaxar.
É como se, por vezes, as grandes decisões das nossas vidas, aquelas que nos parecem mesmo difíceis de tomar, só pudessem ser tomadas quando nos permitimos não saber – como se esta realidade interna de não sabermos nos permitisse parar de pensar acerca das coisas e pudessemos, simplesmente, senti-las... entrando, assim, em contacto com as respostas que, afinal, tinhamos em nós.


Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.


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