A humildade tem sido, ao longo do tempo,
um conceito pouco compreendido e muitas vezes associado a um significado de
fraqueza, subserviência, pobreza ou a uma aparência descuidada e despojada.
No entanto, se formos à
origem etimológica da palavra humildade, vamos descobrir que ela é
derivada no latim, de “humus” que designa terra. A palavra homem, derivada
do latim “homo”, curiosamente também tem a sua origem no termo “humus”.
Assim sendo, a humildade pode ser
entendida como um processo psicológico a partir do qual o indivíduo
se relaciona consigo e com os outros de forma realista, mantendo “os pés assentes
na terra” e reconhecendo as suas limitações e fragilidades, na medida em que
fazem parte da sua verdade e da sua natureza.
Esta capacidade de aceitação e de
tolerância dos aspectos mais vulneráveis e dolorosos da nossa personalidade,
sem os afastarmos por recurso à repressão, dissociação ou projeção, implica a
existência de algum grau de maturidade psicológica que também nos vai permitir
estabelecer relações interpessoais sustentadas sobretudo na compreensão em vez
de ser no julgamento e na crítica.
A tranquilidade que a humildade
proporciona ao assegurar o indivíduo da sua identidade, na qual estão
integradas as suas forças e as suas limitações, incrementa definitivamente a qualidade
dos seus relacionamentos.
O indivíduo com humildade
consegue aceitar que, em certos momentos da sua vida, necessita
de ser cuidado e é capaz solicitar e de receber esse cuidado por parte do outro
sem se sentir rebaixado e humilhado.
Em contrapartida, as pessoas que durante
o seu processo de crescimento vivenciaram situações de carência e
de dependência em que se sentiram humilhadas e desconsideradas,
poderão ter mais dificuldade em aceitar o receber do outro na medida que a
sua auto-estima está sustentada na capacidade de completa auto-suficiência e
de independência. E é aqui que humildade e humilhação se confundem,
impedindo o processo de troca, fundamental à vida, através do dar e receber.
Transformar humilhação em humildade é o
caminho que permite resgatar o prazer não só de dar mas também de receber,
enriquecendo as trocas humanas e permitindo o acesso a um sentimento essencial:
a gratidão. Gratidão, não só por estas trocas relacionais que nos
permitem sair de uma posição de “orgulhosamente sós” para uma
vivência de colaboração, solidariedade e afetos mas também por tudo aquilo que
a vida nos pode proporcionar em termos de prazer e de aprendizagem.
Na humildade está inerente a consciência da
limitação do nosso saber e a disponibilidade permanente para
aprender, com todas as pessoas, independentemente do seu grau de
instrução, idade, profissão ou extrato social, respeitando diferentes pontos de
vista.
Na humildade existe a consciência da
finitude e de como tudo é efémero e transitório, pelo que as conquistas e os
sucessos não passam de situações momentâneas e as condições de superioridade
(instrução, conhecimento, extrato social) não devem ser usadas com arrogância
para rebaixar o outro ou para gerar uma atitude de autoengrandecimento.
Pessoas que se classificam
pretensiosamente humildes através de manifestações anti-beleza/sucesso/dinheiro
não são genuinamente humildes porque aquilo que verdadeiramente as move e
sustenta é uma necessidade de enaltecimento ou um desejo de superioridade. Quem
quer mostrar que é humilde não é realmente humilde.
Quando é genuína, a humildade pode estar
presente em qualquer contexto ou condição de vida, não é exclusiva de
nenhum extrato sócio-económico e acima de tudo é uma expressão de maturidade psicológica
e saúde mental.
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