sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Quando fazer nada nos pode trazer tanto...

Quando nada é feito, nada fica por fazer.
(Lao Tzi, O Livro do Caminho e da Virtude)

Pode ser frequente encararmos o nosso dia-a-dia como uma sucessão de pequenas (ou grandes) batalhas, em que constantemente nos sentimos desafiados, postos à prova, bombardeados com desafios que lutamos por superar...
Esforçamo-nos demasiado, diriam os Taoístas... Não somos capazes de responder às exigências reais das situações, e então vem a fadiga, o sono, a fome, a dificuldade de concentração. Dormimos pouco, alimentamo-nos mal, e entramos na batalha seguinte com as hipóteses de sucesso ainda mais reduzidas.
O Livro do Caminho e da Virtude salienta que devemos ser como a água: “suave e branda”, mas que “para atacar o que é rígido e duro, nada se pode adiantar a ela, não pode substituí-la”, parecendo ensinar-nos que com uma delicada persistência e complacência para com as características específicas de um problema, o obstáculo pode ser contornado e gradualmente erodido, numa espécie de passividade estratégica.
Vários estudos mostrarem que tempo dedicado e não estruturado de inactividade equilibrado com a gestão das actividades, promovem uma maior energia, clareza mental e capacidade de concentração ao longo do dia. Contudo, vivemos tão focados e pressionados pela produtividade, que nos parece pouco possível sequer equacionar tempo de inactividade como um bom aliado da tarefa em si. Focamo-nos no pensamento rápido, na tomada de decisão quase espontânea, ao ponto de não nos apercebermos que podemos ajustar ou mesmo mudar os nossos próprios ritmos e rotinas. Como?!? Valorizando não apenas o tempo em que estamos activos, mas também, e (por que não) principalmente, a inactividade.
Para isso, importa, antes de mais, conseguirmos identificar o nosso próprio ritmo, conhecendo os nossos picos (altos e baixos) de energia e motivação ao longo do dia ( e, posteriormente, ao longo da semana, e até mesmo ao longo do ano). Então, darmo-nos permissão para reservar algum tempo para não fazer nada e, para o conseguirmos, necessitamos ser cuidadosos na organização da nossa agenda, lembrando-nos de não preencher todos os períodos e reservando tempo para descansar, descontrair e recuperar. E sejamos rigorosos... porque é-nos incrivelmente fácil abdicar de tempo de inactividade sem pensarmos duas vezes,em detrimento de um qualquer compromisso, confundindo muitas vezes a noção de importante com a de urgente.
Mas fazer nada é muitas vezes associado a preguiça ou apatia, e vem acompanhado por pensamentos negativos, julgamentos e até mesmo uma sensação de quase culpa... e, por isso, importa também estarmos disponíveis para gerir as emoções negativas que vêm como consequência da prática de fazer nada, começando por tomar consciência de como a tendência humana para se focar mais no negativo do que no positivo pode influenciar o nosso comportamento, e, dessa forma, evitarmos exigir demais de nós próprios.


Ana Luísa de Castro Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.

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