quinta-feira, 7 de abril de 2016

Quietude... ou a importância de parar

 Hoje em dia estamos em constante aceleração, quase obcecados com a velocidade e o imediatismo, fazendo cada vez mais coisas em cada vez menos tempo. Procuramos tornar tudo mais rápido, sem nos apercebermos que, por vezes, estamos a passar pela vida com muita pressa, perdendo a oportunidade de a vivermos de facto. Por que é que o fazemos?!? Em parte, porque toda esta rapidez e velocidade nos “protegem” de questões maiores e mais profundas... Muitas vezes, preenchemos as nossas cabeças com distracções e ocupações para que não tenhamos que nos questionar acerca de nós próprios e do que nos rodeia.
Podemos também cada vez mais facilmente estabelecer contacto com pessoas que se encontram nos locais mais remotos, mas por vezes, nesse processo, é como se perdessemos contacto connosco próprios.
Actualmente podemos trabalhar a partir de quase qualquer lado, podemos fazer muito mais, e muito mais rápido, do que alguma vez se pensou. Mas, se tudo parece fazer-se mais rápido, por que nos sentimos sem tempo? Alguns autores sugerem que é por nos termos tornado menos competentes na arte de não fazer nada.
Quantos de nós se sentem desconfortáveis quando não estão a fazer alguma coisa? Quantos sentem que estão a perder tempo? Parece cada vez mais difícil esperar 10 segundos pelo elevador sem consultar a caixa de e-mail, ou fazer o percurso de autocarro simplesmente a olhar pela janela sem nos pormos a par das actualizações nas redes sociais. Alguns estudos mostraram que a maioria das pessoas prefere fazer algo, mesmo que desagradável, do que não fazer nada e ser deixada a sós com os seus pensamentos... Contudo, precisamos da quietude, desta capacidade de “nada fazer” para recarregar baterias. A constante estimulação que recebemos a partir dos nossos ecrãs, apesar de ser prazerosa no imediato, leva-nos a um estado de “sobrecarga cognitiva”, que prejudica capacidades como pensar criativamente, planear, inovar, resolver problemas, tomar decisões, aprender coisas novas facilmente, falar fluentemente, controlar as nossas emoções... ou seja, parece comprometer tudo o que precisamos fazer num dia normal.
Por outro lado, só conseguimos vivenciar as emoções chamadas positivas se nos permitirmos estar efectivamente em contacto com todas as nossas emoções, com tudo o que de facto estivermos a sentir, seja agradável ou desagradável. Infelizmente, o que acontece muitas vezes é que para evitarmos a sensações desagradáveis  que a quietude nos pode trazer (como a sensação de pânico por não estarmos a fazer nada, ou a perder tempo), colocamo-nos numa espécie de “dormência” também em relação às sensações boas das nossas vidas.
Assim, se queremos continuar produtivamente activos e, simultaneamente, sentirmo-nos bem, precisamos aprender a parar. Se nos sentirmos sobrecarregados e sem tempo para cumprir as nossas tarefas, devemos parar e questionarmo-nos. Provavelmente, mais do que de tempo, aquilo de que precisamos é de permanecer quietos, sem estímulos, de quietude para percebermos o que realmente nos motiva, para nos lembrarmos onde reside a nossa verdadeira alegria.
Para treinar a quietude, podemos, por exemplo, tentar conduzir em silêncio, sem rádio ou telemóvel ligados; fazer as refeições sem televisor ou telemóvel por perto; caminhar diariamente no exterior sem telemóvel ou leitor de música; podendo começar com apenas alguns minutos por dia, e ir aumentando gradualmente a duração. E da próxima vez que der por si a olhar para o espaço, perdoe-se. Não está a perder tempo, está a ir ao encontro da sua quietude.



Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.

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