domingo, 3 de abril de 2016

O Quarto de Jack num olhar da Psicologia



O Quarto de Jack (Room, no original) é um filme que surpreende e emociona pela forma como retrata diferentes dimensões da condição humana tais como a esperança, a fantasia, a depressão, a resiliência mas acima de tudo, pelo modo como retrata o poder dos laços afetivos entre mãe e filho na superação de uma realidade adversa e hostil.
O filme conta a  história de Joy (Brie Larson, vencedora do Óscar de melhor atriz em 2016), uma jovem que foi sequestrada e é mantida em cativeiro há 7 anos num quarto com cerca de 10 metros quadrados. Joy, que é molestada periodicamente pelo seu sequestrador, acaba por ter um filho com ele, Jack (Jacob Tremblay), que nasceu no cativeiro e que completou 5 anos de idade.
Para que o filho não sofra com a vida desumana que os dois levam, encarcerados naquele espaço minúsculo e claustrofóbico, Joy constrói a fantasia de que o mundo e tudo o que existe se resume ao pequeno quarto, ocultando do filho a ideia de que estão em cativeiro. Logo, para Jack, o Quarto era todo o mundo. Aos poucos percebemos a resiliência daquela mãe, no que se refere à capacidade para transformar o sofrimento em força, ou seja, a condição de cativeiro num mundo particular, único e especial, explorando para isso a fantasia no seu filho e criando-o com todo o amor, de modo a garantir que ele se sinta seguro, amado e feliz.
No seu mundo, Jack tem apenas contacto com a mãe e como mecanismo de compensação de falta de relações humanas, personifica os objetos do quarto. A dimensão social é determinante na construção do ser humano e por isso Jack relaciona-se com os móveis e outros objectos presentes no quarto como se fossem pessoas, cumprimentando-os de manhã e despedindo-se deles à noite. A presença dos outros ao nosso redor, como apoio e suporte nos momentos mais exigentes é fundamental e se Jack recebeu da sua mãe o amor incondicional de que precisava para sobreviver, também ele sustentava emocionalmente a sua mãe e fazia com que ela lutasse pela vida pelo simples facto de existir.
A segunda parte do filme retrata as dificuldades de adaptação de Jack e da sua mãe ao mundo real após a libertação do quarto. E, por isso, Jack fala por diversas vezes que gostaria de voltar para lá. “O quarto de Jack”, não é só um espaço físico, mas também um lugar psicológico, uma zona de conforto, de segurança  que é difícil de ser deixada para trás, ainda que não seja possível permanecer lá. É comum nós também desejarmos voltar para uma posição mais cómoda e confortável perante situações que nos exponham em demasia ou que ainda não aprendemos a gerir. Temos dificuldades em lidar com grandes mudanças nas nossas vidas porque estamos apegados às nossas crenças, verdades e hábitos e temos medo de perder tudo isso. É necessário determinação e coragem para encararmos a mudança e deixarmos para trás as velhas mentalidades em prol de uma nova realidade repleta de opções e diferentes verdades.
Se num primeiro momento Jack entra em choque com a nova realidade, com o tempo a sua adaptação torna-se mais fácil que a da sua mãe, o que remete para a plasticidade que existe nas crianças e que é facilitadora da adaptação. Por seu lado, a mãe ao retornar a casa, vive as consequências psíquicas da violação da sua liberdade e integridade ao longo dos anos, bem como das humilhações físicas e psicológicas a que esteve sujeita. Joy entra numa depressão profunda e fica bastante confusa sobre o velho e o novo mundo em que agora se encontra.

Jack tem aqui um papel fundamental, na forma como apoia emocionalmente a sua mãe e lhe indica a atitude necessária para virar a página: enfrentar os seus fantasmas e seguir em frente.

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