sexta-feira, 15 de julho de 2016

Viajar... uma necessidade psicológica?!?

Nem toda a gente gosta de viajar. E, daqueles que gostam, há os que preferem ir para o destino mais distante possível, há os que gostam de “viajar cá dentro”, há os que preferem a natureza, os que amam as grandes cidades, os que são adeptos dos fins de semana prolongados, e os que não se importam de acumular as férias de dois anos para poderem depois perder-se no tempo... E mesmo cada um deste “viajantes” é também, por vezes, outro tipo de viajante. Em diferentes momentos (cronológicos ou emocionais) das nossas vidas preferimos e fazemos viagens diferentes...
Por vezes podemos atribuir a capricho, ou má utilização da palavra, quando alguém diz que precisa viajar. Muitos poderão argumentar que precisar precisa-se de comer, de um tecto, de um agasalho no inverno... não de viajar! Mas, e se encararmos viajar como sendo realmente uma necessidade?
Na Idade Média, quando havia algo de errado com alguém essa pessoa era incentivada a partir em peregrinação, dirigindo-se, por exemplo, ao local onde se encontrassem os restos mortais de um determinado santo, preferencialmente daquele “especializado” na preocupação, doença ou problema que se possuía. Arrisco dizer que, hoje, quase todos que viajam fazem-no por outros motivos. Ainda assim, concordo que há lugares no mundo que, pelas suas características, têm o quase “poder” de mudar e ajudar a reparar algumas das nossas feridas interiores.
Quando viajamos, todos integramos também (de uma forma mais ou menos profunda, mais ou menos consciente) uma viagem interior. Só que, ao contrário do que acontecia na Idade Média, agora partimos muitas vezes sem sabermos exactamente o que é que está mal connosco, o que ou onde dói, e, por isso, partimos também sem saber muito bem como o destino escolhido nos pode ajudar... Pode alguém partir sem saber antes onde está? Quantas vezes o desejo de viajar traz consigo não só a vontade para visitar algum lugar, como também a de deixar para trás determinadas partes de nós mesmos?
E se procurássemos aprender com aqueles nossos antepassados e nos tornássemos viajantes mais conscientes? E se nos tornarmos mais ambiciosos relativamente às viagens, e as encararmos como uma forma de nos ajudar a desenvolver o melhor de nós mesmos, crescendo com as sugestões oferecidas pelos lugares em que estivemos? Poderíamos começar por procurar conhecer outras características que cada lugar possui: não o tipo de alojamento que existe, ou a facilidade em levantar dinheiro, ou mesmo a distância a um hospital... outras qualidades como a calma, a sensualidade, o rigor, a tolerância, a perspectiva. Ao atentarmos a estes detalhes, poderemos permitir que a viagem exterior nos ajude na interior também – o que só é possível se nos arriscarmos olhar para dentro, saber onde estamos bem lá no fundo do nosso Eu.
Qualquer local para onde possamos viajar possui características que podem proporcionar algum tipo de mudança benéfica. Há sítios que podem ajudar-nos com a timidez, outros com a ansiedade. Os desertos, por exemplo, parecem poder ajudar-nos a promover a nossa humildade, recordando-nos, por exemplo, como somos, à escala global, apenas uma pequena peça.
Assim, é como se o acto de viajar atingisse o seu potencial máximo ao ajudar-nos, quase como uma forma de terapia, a corrigir os desequilíbrios e imaturidades que nos são naturais.
As viagens permitem-nos, muitas vezes, procurar no mundo exterior onde precisamos ir no nosso mundo interno. Para isso é necessário arriscar... Deixar de viajar apenas para onde nos é confortável no nosso interior, para onde nos é familiar, deixando de procurar nesses locais apenas repetir o que já temos.

"A verdadeira viagem de descoberta não consiste em ver novas paisagens, mas em observar com novos olhos."

Marcel Proust


Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia,

terça-feira, 12 de julho de 2016

O Mundo afinal é ou não é Justo!?

Quantas vezes nos ouvimos a dizer, ou ouvimos a alguém a expressão “Isto não é justo!”

Quando perdemos um jogo de futebol e jogámos muito melhor do que o adversário, quando nos fartamos de estudar e saem as perguntas da matéria que menos percebemos, quando sabemos tudo muito bem e temos tudo organizado e surge um imprevisto que nos impede de atingir o nosso objectivo. Se eu me esforcei e me empenhei tanto, se pensei em tudo, não é justo não conseguir! Quase como que se existisse um conceito de justiça universal, que recompensasse os bons e castigasse os maus e, quando isso não acontece, sentimos uma indignação porque não é justo... Será assim?

Quando somos crianças, ensinam-nos que nos devemos portar bem, cumprir as regras e ser uma boa pessoa (a emprestar os brinquedos às outras crianças, a não fazer mal mesmo que nos façam, etc.), com a promessa de que esse comportamento nos vai trazer consequências positivas. Ao contrário, se desobedecemos, se não seguimos as regras, as desgraças irão acontecer: desde um castigo ou o homem do saco que nos vem buscar. E assim, começamos a pensar que o mundo funciona como um juiz, justo, que vai distribuindo recompensas e punições em função dos nossos comportamentos. Se a essa aprendizagem juntarmos também a necessidade do ser humano de sentir que controla o que ocorre à sua volta, temos a explicação do que se chama a “teoria do mundo justo”, onde cada qual tem o que merece.

Definitivamente, a vida não é justa. E ainda que vamos repetindo essa ideia a nós mesmos, e muitas vezes, não é por isso que a pequena esperança dentro da nossa cabeça desaparece, que nos leva a manter o pensamento (quase que mágico), que o malvado irá receber antes ou depois o seu merecido castigo, e que as pessoas boas acabarão por ser recompensadas.

Para lidarmos com as inúmeras tragédias que acontecem diariamente no nosso mundo, diminuindo ao máximo a sensação de ameaça constante, tendemos muitas vezes a tentar encontrar explicações "racionais" que nos levem a acreditar que tais factos jamais nos irão acontecer, formando assim uma crença de que o mundo, de uma forma ou outra, é justo com as pessoas decentes, boas, cuidadosas e justas, e que desgraças acontecem geralmente às pessoas más ou que fazem por merecer. Baseado nisso, Melvin J. Lerner criou a teoria da Crença no Mundo Justo (CMJ), que pode ser caracterizada como uma atribuição defensiva, de acordo com a qual se acredita que todos têm o que merecem e merecem o que têm. A CMJ ajuda-nos a manter a nossa visão da vida como segura, organizada e previsível. Esta crença está intimamente relacionada com factores sociais, políticos, interpessoais e culturais que regulam as crenças.

De acordo com Melvin J. Lerner, a crença no mundo justo é uma ilusão fundamental para que mantenhamos a nossa percepção de invulnerabilidade face às ameaças da vida. A nós não nos acontecerá porque somos bons. Sabemos que as pessoas com maior CMJ têm níveis de bem-estar psicológico mais elevados. Contudo, a essas pessoas pode ser mais difícil ultrapassar um trauma quando elas próprias ou familiares passam por uma situação trágica que não tiveram o controlo. Segundo esta teoria, todas as pessoas, em maior ou menor grau, têm necessidade de acreditar que o mundo é justo. Contudo, temos que ter algum cuidado... É importante perceber que faz sentido querermos sentir-nos seguros e que naturalmente a teoria do Mundo Justo é como que uma forma de nos adaptarmos /sobreviver ao mundo em que vivemos, e de lidarmos com os medos, preocupações e perigos que nos rodeiam. Evidentemente não nos podemos sentir sempre vulneráveis e em perigo, não seria possível vivermos nesse estado constante.

Mas, um exemplo infelizmente demasiado conhecido - A necessidade de culpar as verdadeiras vítimas em casos de violação, na sua maior parte, mulheres: "Se elas tivessem uma saia menos curta ou decote decente nada disto aconteceria." Assim, é importante percebermos até que ponto é que as culpabilizações que fazemos às vítimas não servirão apenas para restabelecermos a nossa crença no mundo justo, e aliviar o sofrimento que a confirmação das injustiças nos provoca. Se calhar, podemos estar apenas a ser ainda mais injustos!?

É essencial termos consciência do nosso nível na teoria da Crença no Mundo Justo e de que forma isso nos faz avaliar as tragédias que surgem, porque pode-nos levar a sermos bastante injustos na avaliação dos outros. Talvez possamos fazer algo mais concreto na luta contra essas injustiças, para diminuirmos a nossa sensação de vulnerabilidade? Talvez possamos aceitar que o Mundo afinal não é assim tão (nem sempre) Justo? Como nos poderemos sentir menos vulneráveis sem ser através de uma inversão de culpa (culpabilizando as vítimas), para que a teoria do Mundo Justo seja mais verdadeira?

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Como pré(-)ocupar-se menos com o futuro e ocupar-se mais com o presente



A incerteza do futuro é uma das principais preocupações do ser humano, que muitos tentam driblar através da construção mental de múltiplos cenários perante uma situação que desperta dúvidas e inseguranças.
Procura-se assim, através do intelecto, prever e anteceder todas as variáveis possíveis, como se tal garantisse o controlo e o domínio da situação e de qualquer dano colateral que possa surgir.
Esta pré-ocupação excessiva e o medo em relação ao futuro, acabam muitas vezes por ter um efeito paralisante, inibindo o indivíduo para a acção e em última instância para a vida. A privação que daqui decorre e que é impeditiva do acesso a experiências de prazer, entusiasmo, ousadia e superação, podem levar a um bloqueio no crescimento, ao entorpecimento mental e ao adoecer.
Para evitar que tal aconteça, importa antes de mais o desenvolvimento de uma percepção realista da condição humana e a consciência que a única coisa que podemos controlar é aquilo que depende única e exclusivamente de nós e que passa pelos nossos comportamentos, atitudes, posição perante a vida e empenho. Tudo isto pode ser entendido como o nosso funcionamento interno, que no fundo é o que necessitamos de usar para nos lançarmos à vida.  A ideia que a podemos ensaiar e com isso prever resultados à semelhança do que se faz num laboratório não passa de mera utopia. Na verdade, grande parte das variáveis não estão no nosso controlo, até mesmo a saúde de cada um é algo que pode sofrer alterações sem disso haver qualquer tipo de domínio.
Assim sendo, a única coisa que depende de nós e à qual importa dar atenção é ao nosso empenho mas sem a cobrança de resultados, dado que estes também estão dependentes muitas vezes das próprias circunstâncias, assim como da maneira de ser, pensar e agir de terceiros, que não podemos controlar.
Tal não invalida que não possamos pensar num plano alternativo caso um determinado projeto não seja bem sucedido, até porque isso nos pode ajudar a descentrar da preocupação em relação aos resultados. Contudo, isso não nos deve retirar a atenção do presente, único tempo em que a vida se desenrola, tendo consciência que o erro e a falha fazem parte da condição humana e nos oferecem oportunidades únicas de aprendizagem e de superação pessoal.
O humor é também um instrumento poderoso, rir de nós mesmos é uma forma de lidar melhor com as nossas fragilidades. Negá-las ou escondê-las é uma maneira de lhes conferir poder e de limitar a nossa liberdade.
Voltando à questão inicial, a pré-ocupação com o futuro e a desocupação com o presente, podem conduzir a uma situação de grande empobrecimento na medida em que nos impede de ir para a vida por medo do mundo não corresponder exatamente ao que queremos ou que achamos que ele tem de ser. Perdemos assim a oportunidade de receber aquilo que ele teria para nos dar e de descobrimos ou redescobrimos talentos, capacidades e recursos internos importantes.
Prevalecendo na expetativa, ficamos dependentes que seja o outro ou o mundo a trazer-nos a realização que desejamos, quando na verdade, a nossa felicidade não vem de fora.

 O nosso bem estar vem do nosso funcionamento interno  e da forma como encaramos e nos relacionamos com aquilo que acontece. Como tal, é o uso do nosso funcionamento, daquilo que somos,  que nos  capacita para viver a vida em direto, sem ensaios nem repetição de cenas, no aqui e no agora.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

"Sou do tamanho do que vejo..." E não do tamanho do meu grupo de amigos - uma introdução à Introversão

Na semana passada lancei a questão “Quando é que deixámos de poder ver o copo meio vazio?!”, reflectindo acerca de uma espécie de “obrigatoriedade” de estarmos (e sempre) optimistas em relação às coisas; alegres, satisfeitos, bem sucedidos em todos os nossos papéis. A pergunta foi-me acompanhando, evoluindo, fui-me questionando, e foram surgindo questões como: Quando iremos deixar de termos de ser todos líderes, excelentes oradores, super sociáveis e sociais? Quando é que será admissível para a nossa sociedade podermos ter menos de 100 amigos no Facebook, ou (utopia!) não termos sequer Facebook? Quando é que não seremos apelidados de esquisitinhos, bichos do mato, ou impulsionar preocupações acerca de uma possível depressão, quando recusamos o convite para a mega festa de fim de verão (ou de qualquer outra coisa... porque motivos para festejar, convenhamos, parece ser coisa que não escasseia) por querermos, simplesmente, ficar em casa, com o estore em baixo, a ver um filme? Quando é que estas situações vão poder novamente entrar no campo das Escolhas que fazemos? Quando é que os outros (os que festejam o fim (e o início, e o decorrer) de cada Verão 10 vezes; os que têm 3000 amigos no Facebook e, verdade seja dita, uns 500 “próximos” na vida real; os que passam os meses de Novembro e Dezembro em jantares de Natal; os que falam sem parecer que algumas vez se calam...) vão deixar de pensar que uma vida sossegada e pacata não é algo imposto aos que não souberam fazer pela vida, e que tiveram que se resignar à sua incapacidade social?
Esses, os pensativos e introspectivos, são vistos muitas vezes como pessoas sem iniciativa e com pouca capacidade para trabalhar em equipa, que se “viraram para dentro” por terem baixa auto-estima e défice de um sem número de outras qualidades consideradas desejáveis. Contudo, estima-se que 30 a 50% da população seja composta por introvertidos!
O que é isso de se ser introvertido?!? Bem... até mesmo na investigação acerca da personalidade, houve tempos em que a introversão era definida por aquilo que não era: extroversão. Ou seja, até por volta dos anos 80, sabia-se que se os extrovertidos eram pessoas assertivas e entusiásticas, que prosperavam em ambientes sociais altamente estimulantes, então os introvertidos eram o oposto! Ponto.
Tal como referi no artigo acerca do perfeccionismo, actualmente sinto que somos bombardeados com ideais de formas de estar e viver - já Jung falava de como vivíamos condicionados por uma sociedade que nos tenta ensinar como viver. No caso concreto da introversão-extroversão, parece que a extroversão é a forma correcta. E a “missiva” vem acompanhada de argumentos que associam atributos positivos às pessoas extrovertidas, como serem mais inteligentes, mais bonitas, mais interessantes, mais desejáveis para fazer amizade, mais criativas, mais competentes profissionalmente, e... mais felizes! A introspecção, muito associada às pessoas introvertidas, por seu lado, parece não reunir grande prestígio na nossa sociedade, e as pessoas que escolhem uma vida mais solitária são muitas vezes vistas como alguém que deixou de acreditar, em si e nos outros, e são, por isso, infelizes. Susan Cain, grande defensora da importância do papel dos introvertidos na nossa sociedade, refere que algumas das nossas melhores ideias, manifestações artísticas e invenções foram geradas por pessoas silenciosas e cerebrais que souberam sintonizar-se com o seu mundo. Sem a introversão, não conheceríamos Chopin, Proust, Orwell, Harry Potter ou não teríamos acesso ao Google.
De acordo com Cain, se por um lado se conhece há séculos o poder da solitude, actualmente parece que ele é esquecido (e, diria eu, até mesmo renegado): parece difícil conseguirmos estar com um grupo de pessoas sem imitar as suas opiniões instintivamente, muitas vezes sem sequer nos apercebermos de que o fazemos.
O meu desafio, por agora, é que possamos aceitar a ideia de que se, por um lado, os extrovertidos precisam de muita estimulação, os introvertidos parecem sentir-se mais vivos, mais ligados, e mais capazes, quando estão em ambientes mais sossegados, mais recatados.
Retomo Jung na defesa da importância de conhecermos a nossa forma de funcionamento e aceitarmo-nos como somos, a nossa personalidade, a nossa maneira de ser, em vez de nos resignarmos a ser aquilo que é esperado que sejamos.

Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.

terça-feira, 5 de julho de 2016

E se cada cor de chapéu transformasse o nosso pensamento?

A principal dificuldade de pensar é a confusão. Por vezes, algumas vezes, muitas vezes tentamos fazer demasiadas coisas de uma só vez e pensar em tudo e tomar decisões, tendo em conta a informação concreta que se tem, tentar encontrar a lógica dessa informação, juntamente com a parte emocional, a esperança e a criatividade – é como fazer malabarismo com demasiadas bolas. Contudo, cada elemento tem um  espaço e a sua função, e é importante sabermos como equilibrar de forma harmoniosa estes aspectos e ver as coisas de várias formas é, muitas vezes, essencial em processos de tomadas de decisões complexas.

Com a sua forma prática de tomar decisões e explorar novas ideias, Edward de Bono, criou o Método dos Seis Chapéus de Pensamento, e em muitas situações do nosso dia-a-dia, poderá permitir-nos pensar melhor, utilizando o chapéu mais adequado para cada situação.

Conseguirmos num determinado momento separar a emoção da lógica, a criatividade da informação objectiva, pode-nos ajudar a conseguir encontrar pensamentos e soluções alternativas mais construtivas e eficazes.

O Método dos Seis Chapéus de Pensamento permite-nos dirigir o nosso pensamento, tal como um maestro faz com a sua orquestra; podemos decidir qual o instrumento a tocar num determinado momento e num outro, de forma a tornar a melodia mais harmoniosa. E conseguirmos fazer isso, ajuda a desviarmo-nos do caminho conhecido e assim a pensarmos de maneira diferente sobre um tema / problema.

Então, quem se aventura a experimentar este método?
Sugiro que cada um de nós pense num problema, numa dificuldade, em algo que tenha que decidir e não saiba o que fazer... Já pensámos? Então agora vamos experimentar imaginar que colocamos chapéus e vamos estar durante alguns minutos com cada um deles. Ao usar cada determinado chapéu pensante, vamos assumir papéis "como se" tivéssemos uma determinada perspectiva.

Vamos colocar o Chapéu Branco - Com este chapéu do pensamento, vamo-nos focar nos dados / informações disponíveis. Vamos olhar para a informação que temos e verificamos o que podemos aprender com ela. Observamos que falhas existem no conhecimento e tentamos preenchê-las ou tê-las em conta. É neste momento que analisamos as tendências passadas e tentamos extrapolar sobre dados históricos.
Agora vamos colocar o Chapéu Vermelho – Este chapéu vai fazer-nos olhar para o problema utilizando a intuição, a reacção instintiva e a emoção. Também será importante que tentemos pensar como é que as outras pessoas poderão reagir emocionalmente. Vamos tentar compreender as respostas dos outros que não conhecem as nossas razões.
De seguida colocamos o Chapéu Preto: Com este chapéu vamos olhar para todos os pontos negativos da decisão. Tentamos ver onde é que pode não funcionar, o que pode correr mal. Isto é importante porque destaca os pontos fracos, permitindo eliminá-los, alterá-los ou preparar planos de contingência para combate-los. Este chapéu ajuda-nos a fazer planos mais resistentes e mais resilientes.
De seguida colocamos o Chapéu Amarelo: Este chapéu ajuda-nos a pensar positivamente. É o ponto de vista optimista que nos ajuda a ver os benefícios da decisão e o valor desta. Este chapéu ajuda-nos a continuar quando tudo à nossa volta parece difícil.
E agora colocamos o Chapéu Verde: Este chapéu é o da criatividade. É aqui que podemos desenvolver soluções criativas para um problema. É uma maneira exuberante de pensar, onde há poucas críticas às ideias apresentadas. Existem várias ferramentas de criatividade (por exemplo: brainstorming, brainwriting) que nos podem ajudar.
Por fim colocamos o Chapéu Azul: Este chapéu representa o controlo do processo. Habitualmente este chapéu é utilizado pela pessoa que preside a uma reunião. Quando nos deparamos com dificuldades devido à falta de ideias, este chapéu pode ajudar a dirigir a actividade para o Chapéu do Pensamento Verde. Quando são necessários planos de contingência, ele pode pedir opinião ao Chapéu do Pensamento Preto, etc.

Alguns de nós, pensamos de forma racional e isso permite-nos ter pontos de vista muito positivos e por isso também são pensamentos muitas vezes, bem-sucedidos. Contudo, podemos falhar quando não olhamos para os problemas de maneira emotiva, intuitiva, criativa ou negativa. Isto significa que podemos falhar ao não darmos saltos criativos e ao não elaborarmos planos de contingência. De forma idêntica, os mais pessimistas também podem ser excessivamente defensivos e pessoas mais emocionais, e falham ao olharem para as decisões de forma pouco calma e racional.

Se olharmos para um problema através da técnica dos Seis Chapéus do Pensamento, podemos resolvê-lo utilizando todas as perspectivas. As decisões e planos tomados irão ter uma mistura de ambição, competências na execução, sensibilidade, criatividade e um plano de contingência.

Os principais benefícios do método dos Seis Chapéus de Pensamento são:
- Permitir pensar algo sem risco,
- Consciencialização sobre a existência de diversas perspectivas no assunto,
- Mecanismo útil para "mudar perspectivas",
- Regras para o jogo de pensamento,
- Concentração,
- Criação de mais pensamentos criativos,
- Melhor tomada de decisões.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

domingo, 3 de julho de 2016

Chantagem Emocional – como reconhecê-la e lidar com ela?


Viver em sintonia com os nossos desejos e com a nossa verdade é algo que todos nós almejamos e que nos permite viver em satisfação e harmonia. No entanto, este exercício vital da liberdade individual nem sempre é fácil, sobretudo quando as nossas escolhas não vão ao encontro daquilo que os outros pretendem.
Quando o amor é libertador, existe o respeito e a aceitação pelas decisões do outro em prol da sua satisfação e realização pessoal, mesmo que essas escolhas não se coadunem com os interesses da própria pessoa. Mas nem sempre isto acontece, prevalecendo ao invés a tentativa egoísta de pressionar e obrigar o outro a abdicar da sua vontade em prol das necessidades e interesses do próprio.
A esta forma de manipulação psicológica através da qual uma pessoa tem por objetivo levar a outra a satisfazer os seus desejos, através da indução de sentimentos de culpa, ameaça ou remorso chamamos chantagem emocional e pode ocorrer em vários contextos relacionais tais como os conjugais, familiares, sociais e profissionais.
As estratégias mais utilizadas para manipular os sentimentos do outro e levá-lo a agir em oposição às próprias convições são as seguintes:
 - A auto-punição, caracterizada pela ameaça de um comportamento auto-destrutivo. Exemplo: “Se me deixares, não quero continuar a viver”
- A punição, que recorre à utilização de ameaças de retaliação em relação ao outro. Exemplo: “Se fizeres isso, vou-me embora” ; “Se não fizeres isso por mim nunca mais falo contigo”
- A vitimização, que faz uso da dor e da angústia para manipular o outro. Exemplo: ” Se saíres com os teus amigos vou ficar triste e sozinha”
            - A culpa, cujo objetivo é responsabilizar o outro pelo próprio comportamento. Exemplo: “Se eu sou agressivo é porque me provocas”
            Em qualquer dos tipo de chantagem emocional, a indução da culpa no outro, constitui-se como o núcleo principal e a mensagem latente é a seguinte: “Se não fizeres o que eu quero vais sofrer muito”. O registo utilizado é muitas vezes o apelativo e o teatral, que rapidamente se desvanece assim que as necessidades ficam satisfeitas.
A manipulação é frequentemente oriunda de pessoas inseguras, autocentradas e com pouca capacidade para conseguirem a empatia dos outros, que recorrem priviligiadamente a estas estratégias para obterem o que desejam, sem levarem em consideração as necessidades dos outros, assim como o sofrimento que lhes induzem. 
As pessoas manipuladas são frequentemente vulneráveis e propensas a desenvolverem sentimentos de culpa, medo e de obrigação bem como a evitar situações de conflito, acabando por ceder, sobretudo quando os laços afetivos são maiores como na relação entre casais ou pais e filhos. No entanto, essa não é a melhor maneira de lidar com a situação, na medida que reforça o comportamento manipulador e a sua repetição.
Romper com o padrão de chantagem emocional não é fácil e pode induzir sofrimento para ambas as partes, mas é essencial para que a pessoa manipulada possa restaurar a sua liberdade individual e para que o sujeito manipulador possa desenvolver novos comportamentos mais saudáveis na relação com os outros.
 Importa não ceder ao jogo da culpa, fazer uso da razão e ser firme na recusa.
A assertividade também transmite uma imagem mais segura e menos vulnerável, inibindo a ação da pessoa manipuladora.
Em casos mais graves, em que a pessoa se tornou refém emocional da outra, passando a viver numa situação de exploração emocional e de acordo com os interesses daquela, em desrespeito pelos próprios, poderá ser aconselhável a procura de ajuda psicológica especializada.
Trabalhar a inteligência emocional, promover a auto-estima, aumentar a conscencialização dos direitos e deveres e reforçar os limites pessoais são fatores protetores que capacitam a pessoa para lidar com estas situações de modo mais ajustado. 


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Perfeito?!? Suficientemente bom...

Já aqui falámos algumas vezes da importância de experienciarmos e sentirmos efectivamente todas as emoções, as agradáveis e as desagradáveis... de como a alegria não é a mesma sem haver tristeza. E se procurássemos essa mesma aceitação do nossa realidade interna, na realidade exterior?
Por vezes, fico com a sensação de que vivemos num mundo excessiva e (até mesmo) ridiculamente optimista. Somos invadidos pela ânsia de uma vida perfeita: corpos perfeitos, o trabalho perfeito, o sucesso (comprovando o quão perfeitos somos profissionalmente); as relações perfeitas, em que se é completa e perfeitamente compreendido pelo outro e em que também a intimidade é perfeita; os filhos perfeitos, que se relacionam perfeitamente uns com os outros e que terão, também eles, vidas perfeitas; a casa perfeita, perfeitamente limpa e arrumada; a família perfeita, a rede social perfeita, a cidade perfeita... E estas perfeições precisam, também elas, de ser perfeitas, e, como tal, duradouras, permanentes no tempo. Para além disso, em quase todo o lado assistimos ao apelo de felicidade, excelência, satisfação plena.
Quando é que deixámos de poder ver o copo meio vazio?! Será que, nos dias de hoje, todos temos que nos sentir alegres, satisfeitos, bem sucedidos, excelentes cozinheiros, ambiciosos, empreendedores, os melhores amantes, grandes desportistas...?!? E, pior, sempre?, e simultaneamente? Por que é que apenas a versão perfeita e imaculada de algo é que vale a pena?
É verdade que o perfeccionismo pode ser bastante útil em muitas situações: importa conseguirmos imaginar bons cenários, que nos ajudarão a reunir a energia e foco necessários para procurarmos torná-los reais. Mas lembremo-nos de que somos sempre primeiramente expostos à competência do profissional experiente, que esses “bons cenários”, bem sucedidos, são resultado de muito trabalho, de alguns erros, de alguns cenários menos bons. Precisamos, por isso, ser também capazes de elaborar imagens mais sensatas que nos mostrem a dificuldade ( e por vezes o sofrimento) que está por trás daquilo que admiramos e desejamos alcançar.

Ser um “bom perfeccionista” implica ser capaz de tolerar, e perdoar, os tormentos da imperfeição (em nós próprios e nos outros) por longos e, quase sempre, difíceis períodos... aceitarmos que “suficientemente bom” pode ser bom o suficiente.



Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.