terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Escher e a Psicologia

Maurits Cornelis Escher foi um artista gráfico holandês conhecido pelas suas xilogravuras e litografias que tendem a representar construções impossíveis, preenchimento regular do plano, explorações do infinito e metamorfoses – padrões geométricos que se transformam em formas completamente diferentes. Este gráfico holandês é, sem dúvida, um dos criativos modernos que é mais frequentemente abordado para questões psicológicas.

Não se pode negar que as suas obras evocam uma certa sensação de curiosidade e inquietação. Certamente, Escher sabia disso e usava esse efeito perturbador. O paradoxo estava presente constantemente. Ele usou a distorção e a vertigem ao utilizar o mais racional e ordenado dos produtos da mente humana: a geometria.
                            
Normalmente, os seus desenhos são questionados quando se trata de ilusões ópticas, e de processos envolvidos na percepção visual com referências explícitas aos estudos de Psicologia da Gestalt. No entanto, o interesse psicológico que despertam as suas litografias vai muito além da curiosidade relacionada ao fenómeno das ilusões. O uso consciente de poliedros, relações geométricas e distorções, visando provocar um efeito paradoxal, foi notado e apreciado pelos pensadores do século passado, mas suscitam ainda um grande interesse na actualidade.

Fica aqui a sugestão de verem a exposição de Escher em Lisboa, no Museu de Arte Popular, até dia 27 de Maio.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Piper - saindo da zona de conforto e descobrindo o mundo





A animação Piper-Descobrindo o Mundo conquistou o Óscar de melhor curta metragem de animação em 2016 sob a direção de Alan Barillaro e Marc Sondheimer.
A história centre-se nas dificuldades e perigos enfrentados por um pequeno pássaro que deixa o ninho pela primeira vez para procurar comida no mar.
 A saída da zona de conforto rumo ao desconhecido, que implica o confronto com os próprios medos e dificuldades é uma experiência com a qual qualquer um, independentemente da idade, se pode relacionar.  
Na superação das adversidades, a coragem, a persistência e a criatividade, nomeadamente a capacidade para reinterpretar a realidade adversa de forma positiva e encontrar novas possibilidades (tal como o protagonista da história deixou de olhar a onda como uma adversidade para passar a encará-la como um meio de encontrar o alimento mais rapidamente) desempenham um papel fundamental para alcançarmos os objetivos desejados, construirmos aprendizagens e expandirmos a nossa zona de conforto.
Neste processo de crescimento e aprendizagem, o filme realça a importância da figura materna enquanto figura de suporte que está presente mas que concede o espaço necessário para que a sua criança possa cometer erros e aprender a resolvê-los por si, visando a construção da sua autonomia e segurança pessoal.

https://www.youtube.com/watch?v=DGeTa4v-LdA


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Uma boa comunicação – A base para qualquer tipo de relação

Em qualquer tipo de relação que se cria e /ou que se mantém, um dos aspectos essenciais é a comunicação. A comunicação é o processo pela qual trocamos informações, questionamos, partilhamos os nossos pensamentos e emoções. É a base para um bom entendimento.

No meio profissional, no ambiente familiar, conjugal e social, é fundamental uma boa comunicação, para facilitar o desenvolvimento dessas relações.

Uma boa comunicação não é uma linguagem com palavras bonitas, caras ou sofisticadas. O ser-se compreendido de forma eficaz só é possível através de uma boa comunicação, e essa habilidade é possível a todos, mesmo com uma linguagem simples.

Então, quais são os aspectos a que devemos estar mais atentos para nos fazermos entender?

1- É fundamental ter-se uma ideia bem clara do que queremos passar à outra pessoa.

2- Manter-se o foco na ideia que se pretende transmitir e não agarrar outros temas, mesmo que estejam relacionados. O desviar da ideia principal, pode criar confusão a quem nos ouve.

3- Ter o objectivo bem definido e certificarmo-nos que a(s) outra(s) pessoa(s) recebe(m) a informação que queremos passar.

4- Quando achamos que algo é óbvio, não significa que para a outra pessoa também o é, por isso é muito importante tornar o implícito em explícito. A outra pessoa não pensa como nós nem nos lê os pensamentos.

5- Dar atenção à linguagem verbal mas também à não verbal. A linguagem corporal e o tom de voz têm uma grande importância na comunicação. Não adianta estarmos a utilizar palavras simpáticas se a nossa postura é agressiva. Procurar uma coerência entre o que se diz e como se diz, vai facilitar a comunicação.

6- Não falar apenas, mas criar espaço e permitir ouvir o outro (é essencial irmos percebendo o feedback do outro para percebermos se nos está a compreender).

7- Saber ouvir é também saber comunicar. Quando a outra pessoa fala, ouvir realmente o que está a dizer, sem interromper. Uma escuta activa e empática ajuda bastante e quando não entendemos algo, questionamos no final.

8- Saber aceitar as críticas da outra pessoa sem nos colocarmos na defensiva. Mesmo que a crítica não seja fácil de ouvir, é importante entender o que pensa e sente a outra pessoa, apenas assim se podem resolver os problemas.

9- Aceitar as diferenças. As pessoas são diferentes e é essencial aceitar que cada pessoa vê e sente de forma diferente, e às vezes muito diferentes. Por mais que seja diferente, não significa que é a nossa ou a do outro que esteja errada. Se não é possível chegar a um acordo, é importante tentar chegar a um entendimento mútuo onde se respeitam ambas as partes.


Todos somos diferentes, não vamos pensar exactamente o mesmo sobre os diversos temas. Saber ouvir, saber aceitar as diferenças e demonstrar respeito pelas críticas é essencial para uma comunicação saudável e, desta forma para relações saudáveis.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

“Pára-me de Repente o Pensamento” – um Olhar da Psicologia




“Pára-me de Repente o Pensamento” é o título de um documentário que retrata as particularidades e o quotidiano vivido num dos hospitais psiquiátricos mais antigos de Portugal, o Centro Hospitalar Conde de Ferreira no Porto.
O título do documentário é também o título de um poema do pintor Ângelo de Lima que fez parte da revista Orpheu e que foi também paciente esquizofrénico deste mesmo Hospital. Miguel Borges é um ator que vem do mundo exterior para construir o seu personagem, mergulhando no mundo interior das pessoas que estão naquele hospital.
Enquanto espectadores, este é um documentário capaz de nos tocar profundamente e  levantar um conjunto de questões sobre a condição humana, despertando em nós reacções emocionais tão diferentes que podem ir do riso ao “nó na garganta”.
A possibilidade que temos em escutar estas pessoas e em compreender as suas histórias de vida, pensamentos, medos, alegrias e esperanças, permite-nos ter um olhar mais próximo delas, bem como a noção da dimensão da sua humanidade, dignidade e sabedoria. Sabedoria essa que vai muito além daquilo que os livros ensinam mas que se funda primordialmente em experiências de vida de um valor inestimável.
 A fragilidade e a força que delas emana a par da generosidade das suas partilhas, sem carapaças e armaduras às quais estamos tão habituados, são ao mesmo tempo desarmantes e comoventes.
Curioso é pensar, como a dificuldade que muitas vezes temos em olhar para estas pessoas se prende com a nossa própria dificuldade em contactar com a nossa fragilidade, vazio e medo do abismo e como muitas vezes, à semelhança do título do documentário, desejaríamos que a mente nos desse tréguas e parásse por um instante.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A arte de perder o tempo, que não se perde

Liniers ou Ricardo Liniers Siri (nascido em Buenos Aires em 15 de Novembro de 1973), é um cartoonista reconhecido na Argentina, como também a nível mundial.

Hoje decidi partilhar o seu cartoon mais recente, e podermos reflectir nesta relação tão simples entre Enriqueta - uma miúda curiosa sobre a vida e o que a rodeia, e o seu amigo Fellini - o  seu gato. Pequenos diálogos, simples, com poucas palavras, mas tão ricos, proporcionando reflexões importantes.

Hoje sugiro a reflexão sobre o tempo... sobre esse tempo que não se perde, mesmo que não se esteja a fazer nenhuma actividade ou tarefa. O tempo que não se perde, tal como Enriqueta refere, "é o tempo que os meus pensamentos usam para viajar livres pelo meu cérebro".

Numa sociedade onde o fazer, fazer, fazer, impera! Onde há uma pressão constante por desempenhos excelentes e uma rentabilidade máxima. Onde o fazer nada passou a ser visto negativamente; numa urgência constante em responder às expectativas pessoais e sociais, gerando-se assim as condições óptimas para o desenvolvimento de quadros de stress, mal estar e insatisfação...

Por isso, hoje sugiro ouvirmos a Enriqueta...

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Recordando Dolores O´Riordan



Dolores O´Riordan, vocalista da banda irlandesa The Cranberries, morreu no passado dia 15 de Janeiro, aos 46 anos, por motivos ainda desconhecidos. A sua voz e sonoridade inconfundível, onde parecia coexistir em simultâneo uma expressão profunda de dor e força, fazem parte da memória afetiva de muitos de nós.
Dolores O´Riordan tornou publico, em vários momentos,  a sua luta contra a depressão e a perturbação bipolar que lhe foi diagnosticada em 2015, abrindo com isso espaço para o diálogo sobre a saúde mental.
Segundo a artista, o transtorno era a causa de seus surtos de agressividade.
"Há dois extremos na escala: você pode se sentir extremamente deprimida (...) e perder o interesse nas coisas que ama fazer, e logo se sentir supereufórica", disse ao jornal Metro.
"Mas você só fica nesses extremos por cerca de três meses, até que vai ao fundo do poço e cai na depressão. Quando você está transtornado, não dorme e se torna muito paranóico."
E a depressão, segundo O'Riordan, "é uma das piores coisas que podem acontecer com você".
Durante vários anos, a anorexia foi acompanhada de abuso de álcool e pensamentos suicidas, tendo revelado que em 2013, tentou o suicídio com uma overdose.

Na sua recuperação, referiu que o apoio dos seus três filhos teve um papel fundamental.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Desconstruir para reconstruir

Quando damos início à construção de uma casa preocupamo-nos com os fortes alicerces, com um bom material, com uma construção com medidas fidedignas, porque sabemos que caso algum destes aspectos não for tido em conta, podemos estar a colocar em causa toda a construção. E se por acaso quando estivermos já no momento das pinturas nos apercebermos que a parede está torta, temos que a deitar abaixo para fazer uma nova parede direita. Mas algumas vezes só nos podemos aperceber que ela está torta quando a vamos pintar ou apenas quando vamos colocar um quadro e ele ficar também torto...

Por vezes há momentos em que a nossa vida vai seguindo, vamos fazendo coisas e parece que está tudo bem, até que tentamos fazer algo e nos apercebemos que não conseguimos, apesar de até tentarmos de muitas formas diferentes. Mas e se esse insucesso não estiver relacionado com as nossas competências? Ou quando as nossas próprias competências poderem ter sido desenvolvidas segundo uma parede sempre torta? E quando nos apercebermos que sempre acreditámos em algo que nos fez sentido toda a vida, até este preciso momento?

Há situações em que parece que, por maior que investimento que fizermos ou mais tentemos avançar, algo está estagnado sem permitir o seguir em frente, nem permitindo a nossa concretização quer pessoal e relacional, como a profissional. E quantas vezes nessa altura nos podemos sentir confusos sem perceber a razão... E, na verdade, muitas vezes a razão pode estar mesmo em nós, nas nossas crenças.

São as nossas crenças que criam a construção da nossa realidade, e a realidade é única para cada um de nós: a nossa forma de olhar, de perspectivar, de pensar, de sentir, de interpretar, de agir... Somos nós que criamos a nossa própria realidade.

As crenças são adquiridas a partir de muito cedo da nossa existência, desenvolvidas e mantidas através de toda a nossa experiência de vida. Tudo o que somos no presente é a soma das nossas experiências, a forma como nos tratamos a nós próprios e como nos vemos, tem muito a ver com a forma como fomos tratados e olhados quando crianças e jovens. Isto significa que podemos chegar a um momento em que nos apercebemos que não acreditamos que tenhamos a capacidade de, por exemplo, criar o nosso negócio, ou que não somos merecedores de alguém que nos trate bem, e que é essa crença que nos está a boicotar de seguir em frente com esse projecto profissional ou relacional. Mas e essas crenças que nos direcionaram até agora têm que ser necessariamente verdadeiras? Mas e se essas crenças nos estiverem a boicotar a possibilidade de atingir o que realmente é importante no presente?

Para podermos avançar com novas formas de nos vermos, temos que desconstruir a base, para reconstruirmos essa imagem de uma maneira mais funcional e saudável, que nos permita avançar para o que nos faz sentido no presente, para o nosso bem-estar, sem amarras do passado. Quando essas amarras perduram temos a tendência de procurar e de dar uma maior atenção às ideias e situações que confirmam as nossas crenças, fortalecendo-as e solidificando-as assim cada vez mais, e ignoramos ou damos menor importância às evidências que vão contra a nossa crença, comprometendo a nossa capacidade de avaliar e interpretar as situações.

É a consciência das nossas crenças que nos pode fazer decidir desconstruí-las (pondo à prova a sua funcionalidade, a sua verdade, a sua adequação) para conseguirmos criar em nós uma maior harmonia e bem-estar connosco e com os outros.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

Artigo escrito para a Revista Psicologia da Actualidade - encontra-se na edição nº 40, Janeiro- Fevereiro 2018