terça-feira, 15 de novembro de 2016

Autodeterminado? Ou heterodeterminado?

Quantos de nós temos uma maior tendência em ser autodeterminados? Quantos de nós temos a tendência de ser heterodeterminados? Quantos de nós temos a consciência dessa tendência? Quantos de nós ficamos satisfeitos com essa tendência? Quantos de nós conseguimos ir conciliando estas duas abordagens de uma forma satisfatória para si?

A questão da auto ou hetero determinação, não é de todo, qual a mais ou menos correcta e acertada, mas sim, de que forma temos essa consciência, de que forma nos afecta a nós e aos outros e de que forma lidamos com as consequências dessa nossa atitude.

Por exemplo, quando alguém nos diz que esse curso não tem saída e que por isso temos que escolher outra formação que garanta um emprego, ou quando alguém nos diz que temos que manter o casamento porque, casamento é para a vida. Efectivamente podemos aceitar o conselho e tirar um outro curso, como também podemos tentar manter o casamento. Com certeza que serão as opção mais acertadas, se realmente essas forem uma escolha nossa, sentida. Contudo, quantas vezes sentimos que não é uma opção nossa e escolhemos à mesma avançar com ela? O que nos pode levar afinal a seguir a opinião/conselho/orientação/pressão dos outros, quando estamos a decidir algo para a nossa vida? Na verdade a consequência dessa decisão será vivida apenas por nós... E como é suportar uma consequência que não queríamos, mas que nos vimos levados a ela? Quantas vezes nos sentimos desiludidos, angustiados, arrependidos com um peso que não era suposto? Se temos essa tendência e nos apercebemos que o resultado pode ser devastador para nós, o que nos pode levar a manter essa atitude e a não sermos mais autodeterminados?

Mas por outro lado, quantas vezes decidimos não seguir a opinião/conselho dos outros e seguir a nossa vontade? O que sentimos, quando estamos a fazer o que nos faz mais sentido? Mas quantas vezes nos apercebemos que afinal a outra pessoa podia ter tido razão, ou que teve mesmo. Talvez possamos aprender algo com isso, tenho a certeza, no entanto também nos podemos sentir menos boas pessoas por termos seguido a nossa vontade e não o conselho de quem se preocupa connosco. E quantas vezes surge uma vozinha a chamar-nos egoístas? Mas estaremos realmente a ser egoístas quando seguimos a nossa vontade?

A tomada de consciência das nossas necessidades e o desenvolvimento da nossa assertividade (ver artigo sobre assertividade), possibilitar-nos-á uma liberdade na escolha e uma maior capacidade de lidar com as consequências dessa escolha, de forma mais tranquila e menos culpabilizadora.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

domingo, 13 de novembro de 2016

Como ensinar o meu filho a estudar?

A aquisição de métodos de trabalho eficazes e de competências ligadas ao saber estudar são determinantes para um percurso escolar e académico bem sucedidos.
A aprendizagem destas competências, muitas vezes negligenciada, não só promove a autonomia dos alunos, como também lhes vai exigir menos tempo de estudo e aumentar a eficácia na compreensão e apreensão dos conteúdos.
Para ajudar os seus filhos a alcançar o sucesso escolar, os pais têm um papel fundamental na promoção da autonomia, responsabilidade e motivação dos filhos, assim como no desenvolvimento das estratégias de estudo mais eficazes das quais se destacam as seguintes:
·         Escolher um local de estudo cómodo, tranquilo e bem iluminado, com a temperatura ideal e isento de fatores distratores, no qual todo o material necessário deve estar disponível.
  • Criar uma rotina de estudo, estando definido esse tempo no horário semanal. Não é possível os alunos estudarem apenas o que lhes apetece e quando lhes apetece, sendo fundamental o incentivo dos pais para um estudo regular e frequente já que tal permite ir acompanhando a matéria diária, possibilitando reforços de aprendizagem e esclarecimento de dúvidas.
  • Gerir o tempo de forma equilibrada, sabendo que os períodos de estudo devem ter uma duração de 40-50 minutos, ao fim dos quais importa fazer uma pausa de cerca de 15 minutos. Repartir o esforço por diferentes momentos traz melhores resultados. 
  • Começar a estudar pelas disciplinas mais difíceis, enquanto os níveis de concentração são mais elevados e passar depois para as disciplinas mais fáceis.
  • Ler,explicar e praticar 
Ø  Num primeiro momento o aluno deverá ler com atenção as fontes de informação, realizando uma leitura compreensiva, ou seja, ler a frase completa, fazer breves pausas para pensar no que leu e reler quando não compreender. Durante essa leitura é importante ir sublinhando as ideias principais através das quais pode ir buscar as secundárias.
Ø  Numa segunda fase importa que o aluno reproduza a informação por palavras suas como se estivesse a dar uma aula, porque mais facilmente a informação ficará armazenada na memória a longo prazo, especialmente nos alunos cujo processamento da informação é feito preferencialmente pela via auditiva. Como uma das melhores maneiras de aprender é a ensinar, ao “ensinarem a matéria aos pais” os pais podem assumir um papel importante, nomeadamente fazendo perguntas à criança para aferirem se ela consegue explicar, pedindo pormenores e exemplos ou uma explicação diferente.
A  realização de apontamentos e resumos, reescrevendo por palavras suas os aspectos considerados mais importantes, permite igualmente trabalhar e sistematizar a informação. A elaboração de esquemas de chavetas ou de setas é outra estratégia útil sobretudo nos alunos cujo processamento da informação é feito preferencialmente pela via visual.
Ø  Por último, o estudo implica que o aluno consiga demonstrar o que sabe através de diferentes tipos de exercícios e perguntas, sendo a simulação de teste uma estratégia muito eficaz.

Importa salientar que cada aluno tem o seu próprio perfil de aprendizagem, pelo que devem ser exploradas e encontradas as estratégias de estudo mais eficazes para cada um. A valorização por parte dos pais do esforço, do trabalho e dos progressos dos seus filhos, promove igualmente o sentimento de confiança, de competência e a motivação para os estudos. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

A tristeza como um farol...

Um dos meus “mentores” costuma dizer que quem não entristece… deprime. Susan Piver diz que o desespero é consequência de lutarmos contra a tristeza. O desconforto e mal estar associados a quando sentimos tristeza fazem-nos, por vezes, colocar no seu lugar emoções que imaginamos (e, mais do que isso, desejamos) magoarem menos, como raiva, desesperança, desamparo…
Sabemos que esta raiva nos complica frequentemente a relação com os outros, e que a desesperança e o desamparo nos levam, quase irremediavelmente, a refugiarmo-nos na inacção. Nada disto cumpre a sua função inicial, pois não?!? Não ficamos, de todo, menos tristes do que estávamos inicialmente…
Mas, e se encararmos a tristeza que estamos a sentir como uma chamada de atenção? Como o início de um caminho que nos ajudará a sentirmo-nos melhor, mais felizes... Ou seja, olhar a tristeza como uma oportunidade, dolorosa, para vermos aquilo que fomos ignorando e precisamos saber, e que nos levará a uma nova fase de mudança e crescimento.
Não nos iludamos, “abraçarmos” a nossa tristeza, sem a camuflar com outras emoções ou actividades, não nos faz sentir imediatamente bem: é difícil e, por vezes, mesmo doloroso. Mas permite-nos sentirmo-nos vivos, em contacto connosco próprios. Dá-nos a possibilidade de parar, observar, e ganhar consciência acerca do que está mal nas nossas vidas… a única forma de podermos voltar a trazer-lhes equilíbrio. Ao prestarmos atenção às nossas emoções, à nossa mente, é como se estivéssemos a vê-la trabalhar, e isso pode ajudar-nos a não nos sentirmos tão oprimidos pelos nossos pensamentos, e, portanto, mais livres para fazer diferente, para mudar.
Contudo, a sensação de desamparo tem aqui um forte impacto, uma vez que pode fazer-nos sentir que não somos capazes de mudar a nossa situação, e, portanto, a tristeza permanece. Por outro lado, a sensação de esperança, a crença nas nossas capacidades, e a coragem em agir essa autoconfiança, permitem melhorar o nosso humor. Como refere James Gordon,  assim que aprendemos a expressar as nossas emoções, nos comprometemos em nos ajudarmos a nós mesmo, e a chegar aos outros, já estamos no nosso caminho.
Por outro lado, e como já fui falando noutros textos, ao fugirmos de qualquer emoção, neste caso da tristeza (e de qualquer estado a ela associado), corremos o risco de permanecer presos nos mesmos padrões de sempre, nos hábitos, ideias e formas de nos relacionarmos com os outros que se foram deteriorando, que não nos servem.

Este não é, como vemos, um caminho sem obstáculos. A dúvida, a solidão, o orgulho, o ressentimento, a procrastinação, o perfeccionismo, o medo... todos eles podem aparecer, mesmo sem serem convidados. Olhêmo-los antes como desafios, e usêmo-los como faróis que nos ajudam a ver melhor o nosso prório sentido, propósito e direcção.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Distorções Cognitivas - a importância de as identificar e de as questionar

Muitos de nós, em determinados momentos, podemos sentir que nos boicotamos e que somos o nosso pior inimigo, sem no entanto percebermos, porque é que as coisas não avançam por mais que tentemos fazer com que elas aconteçam.

As DISTORÇÕES COGNITIVAS são basicamente maneiras distorcidas de processar uma informação, ou seja, são interpretações enviesadas do que nos acontece, criando diversas consequências negativas.  Quando se sofre de depressão, por exemplo, tem-se uma visão da realidade na qual as distorções cognitivas exercem um papel principal (visão de túnel). Todos nós podemos utilizar algum tipo de distorção cognitiva. Saber detectá-las e analisá-las ajuda-nos a desenvolver atitudes mais realistas e, acima de tudo, mais funcionais.

Aqui ficam algumas das distorções cognitivas e exemplos de situações:

Personalização
Quando nos sentimos 100% responsáveis pelos acontecimentos. Por exemplo, o filho do António fez um exame e não passou. O António pensa logo ter fracassado na educação do seu filho, acha que cometeu algum erro, porque se tivesse feito tudo bem feito, seu filho teria aprovado.

Filtro mental
Consiste em focarmo-nos nos aspectos negativos e ignorar o resto da informação. O negativo é filtrado e absorvido, enquanto o positivo é esquecido. Exemplo: A Maria preparou um prato para um jantar e convidou nove amigas.  Quase todas adoram a refeição da Maria, à excepção da Cristina, que disse que o prato estava um pouco salgado. Maria sente-se mal por isso e passa a achar que cozinha terrivelmente mal.–  Ela só absorveu o negativo, ignorando totalmente os aspectos positivos.

Esta distorção também está presente quando acreditamos que se algo aconteceu uma vez, acontecerá em todas as outras vezes. Por exemplo: O João terminou com a Sónia depois de dois anos e meio de relação. A Sónia pensa “ninguém vai gostar de mim”, “nunca mais encontrarei alguém que queira ficar comigo”.

Maximização e minimização
Essa distorção cognitiva consiste em maximizar os nossos próprios erros e os acertos dos outros e, minimizar os próprios acertos e os erros dos outros. “Não importa quantas coisas fiz correctamente no passado, elas não têm importância. O que importa agora é que cometi um erro gravíssimo.”

Pensamento dicotómico
Consiste na extrema valorização dos acontecimentos, sem levar em conta os aspectos intermediários. Classificar as coisas como brancas ou pretas, verdadeiras ou falsas. Por exemplo: “Se este trabalho não ficar perfeito, o meu esforço não terá valido para nada”, ou quando uma pessoa não encontra emprego e pensa “sou completamente inútil!”.

Catastrofização
Ocorre quando prevemos o futuro negativamente sem considerar outros resultados mais prováveis. Exemplo: “O meu filho ainda não chegou, deve ter acontecido alguma coisa horrível. Vou esperar um pouco, mas não vou conseguir dormir.” Outros exemplos: “O meu namorado não me atende o telemóvel, deve estar com outra”.

Generalização
Ocorre quando generalizamos de um caso, para todos os casos, mesmo que seja apenas ligeiramente idêntico. Se uma vez foi verdade, será sempre assim: “A mim nada nunca corre bem”; “Nunca me vou casar”; “Eu nunca termino o que começo”; “Eu jamais vou conseguir deixar de fumar”; “Não dormi bem ontem, a minha insónia vai durar para sempre” ou “Nunca mais vou conseguir ter um emprego bom como este”.

Raciocínio emocional
Refere-se à suposição de que as nossas emoções reflectem as coisas como elas são. É acreditar que o que sentimos no momento é o correcto e verdadeiro.  “Estou-me a sentir uma incompetente, logo sou totalmente incompetente!” ou “Eu sinto que é assim, consequentemente isso tem que ser verdade.”

Afirmações como “deveria fazer isso…”
São crenças rígidas e inflexíveis de como nós ou os demais deveríamos ser. As exigências concentradas em nós próprios favorecem a autocrítica, enquanto as dirigidas aos outros favorecem a raiva, a ira e a agressividade. Alguns exemplos podem ser: “Deveria ter dado mais atenção ao meu marido, assim ele não me teria deixado”, “Não devo cometer erros”, “Os outros devem-se portar bem comigo” ou “Preciso gostar de todos.”

Leitura da mente
Consiste em afirmar que determinadas suposições são certas, mesmo que não exista nenhuma evidência que a comprove. Acreditar que se sabe o que os outros pensam e o motivo de se comportarem como se comportam. “O que ele quer é pôr-me nervoso!”, “O que ele quer é rir-se de mim!”, “Eles sentem pena de mim!” ou “Ela só está comigo por dinheiro!”

Predição do Futuro
Consiste em afirmar que determinadas suposições são certas, mesmo que não exista nenhuma evidência para as comprovar, é esperar que nada dê certo, sem sequer permitir a possibilidade de que seja razoável ou positiva. “Tenho certeza de que vou reprovar.”,“Ninguém me vai dar atenção na festa”.

Rotulagem
Utilizar rótulos pejorativos para nos descrevermos, ao invés de descrever os nossos actos e qualidades com objectividade e exactidão. Por exemplo: “Sou um inútil!” ao invés de “Cometi um erro, mas nem sempre faço isso.”

Sugestão:
Tentar dialogar connosco próprios e questionarmo-nos. Com qual ou quais nos identificamos? E se a partir de agora começarmos a estar mais atentos? Agora que já as reconhecemos, podemos questioná-las. Assim poderá ser mais fácil procurarmos alternativas que façam mais sentido e que nos sejam mais benéficas.

Fontes: Beck, A. T. (1979). Cognitive Therapy and the Emotional Disorders. New York: Meridian.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.


domingo, 6 de novembro de 2016

Dia da Preguiça...ou a importância de parar?



Hoje, dia  7 de Novembro, assinala-se o  Dia Internacional da Preguiça cujo intuito serve para lembrar o quanto o descanso é importante para o nosso bem-estar.
Esta data torna-se particularmente importante numa era em que muitas pessoas se queixam constantemente de não terem tempo para nada, descurando a necessidade de parar, pelo menos algumas vezes por dia, em prol da própria sanidade mental.
Vivemos num mundo no qual impera a pressão constante por desempenhos excelentes e maximização de resultados e onde o fazer nada passou a ser visto negativamente, induzindo sentimentos de culpa.  
Muitas pessoas entram neste ritmo acelerado e numa urgência constante em responder às expectativas pessoais e sociais criadas, gerando-se as condições propícias para o desenvolvimento de quadros de stress e em última instância de burnout. Quem se aproxima desse ponto deixa de se sentir produtivo  e podem emergir sensações desagradáveis tais como a ansiedade, a raiva, o tédio, o desejo de procrastinar e até sintomas físicos como dores de cabeça, dores de estômago ou insónias. Para este desgaste extremo podem contribuir diferentes fatores tais como o perfeccionismo, o elevado nível de ambição e de criticismo, a auto-exigência e a pressão por parte do exterior. Neste contexto atual, parece não haver muito espaço para desligar, desconectar e parar, até mesmo nos supostos momentos de pausa, a propensão para continuar ligado, a consumir informação, através dos smartphones parece levar a melhor.
No entanto, há muito que as neurociências evidenciaram a importância dos “tempos de nada”. O importante é acalmar a mente, parar de analisar e afastar totalmente os pensamentos indutores de stress, na medida em que esta paragem conduz à reorganização mental, que é a base para novos insights e novas soluções, isto é para a criatividade. Ou seja, ao ativar no cérebro um estado mais passivo e relaxado, são neutralizados os efeitos negativos das hormonas do stress e produzidos neurotransmissores como endorfinas e dopaminas  que induzem a sensação geral de bem-estar e a criatividade.
Há várias alternativas para ativar um estado de relaxamento, tais como um exercício de relaxamento, dar um passeio a pé ou fazer uma corrida,  ouvir música calma, fazer uma sesta ou tomar um banho quente. Este estado permite assim romper com os padrões de raciocínio anteriores e com as emoções negativas associadas, promovendo o acesso a uma posição neurológica mais favorável a um raciocínio mais claro, criativo e produtivo. Quantos momentos “eureka!”já tivemos no duche ou enquanto conduzíamos ao ouvir música?

Tempos de nada são portanto essenciais para aumentar a criatividade e a capacidade para resolver problemas e tomar decisões, incrementando a qualidade do trabalho e a auto-confiança. Para além disso, são nos tempos de nada que temos oportunidade para nos desligarmos do exterior e do modo automático em que vivemos grande parte do tempo, para nos conectarmos connosco, ou seja com os nossos sentimentos, desejos e aspirações e não nos perdermos de nós próprios na correria do dia a dia. É neste parar que a mente e o corpo reencontram a tranquilidade e o relaxamento que necessitam para a manutenção da saúde física e mental. Como tal, é essencial incorporar estes tempos de nada no nosso quotidiano, o que requer organização, estabelecimento de prioridades e acima de tudo permissão por parte do próprio. Porque apesar deste dia ser intitulado como o dia da preguiça, os tempos de nada em nada se relacionam com negligência, displicência, ou aversão ao trabalho mas sim com uma necessidade imperiosa de parar a que todos temos direito em prol da nossa saúde, bem estar, criatividade e produtividade.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A beleza da Vulnerabilidade

Vivemos num mundo vulnerável. Esbarramo-nos constantemente com vulnerabilidades: as nossas, as dos outros, as dos contextos em que nos vamos movimentando, a vulnerabilidade primária da simples condição de sermos seres-vivos (“Para morrermos basta estarmos vivos”). Todos nós corremos o risco de perder alguém de quem gostamos, de sermos despedidos, de ter que despedir alguém, de ficar doente, de sermos rejeitados, de ter de dar o primeiro passo numa relação, ou o último...
Estamos constantemente sujeitos a situações que implicam um maior ou menor grau de vulnerabilidade, e por vezes colocamo-nos noutras tantas que nos deixam ainda mais vulneráveis. A vulnerabilidade é, assim, como que uma condição inerente à nossa condição humana, e, mesmo assim, achamos que podemos fugir dela.
Porquê?!? Porque não queremos estar vulneráveis. Porque, geralmente (e não erradamente), associamos a vulnerabilidade ao medo, a ter dúvidas, a estar em risco, exposto.  Mas porque também associamos a vulnerabilidade a fraqueza, a angústia e sofrimento... coisas que não queremos sentir.
Nos seus estudos, Brené Brown foi percebendo que, muitas vezes, face à vulnerabilidade, tendemos a tentar “adormecê-la” em nós. E é aqui que alerta para o facto de não ser possível “adormecermos” selectivamente as emoções, ou seja, não nos é possível escolher não sentir as coisas “más”, sem que estejamos a negligenciar também outras emoções e afectos prazerosos. Ao tentarmos afastar-nos de sentimentos fortes como a vulnerabilidade, a dor, a vergonha, o sofrimento, a desilusão, estamos também a adormecer em nós a possibilidade de sentir alegria, gratidão, felicidade... o que nos leva, invariavelmente, a sentirmo-nos ainda mais infelizes, o que por sua vez nos faz sentir vulneráveis, gerando-se um ciclo vicioso.
Ao analisar as respostas às entrevistas que foi realizando, Brené Brown confirmou que, se por um lado, a vulnerabilidade é o centro da vergonha e do medo, também é (espantem-se alguns) fonte de alegria, da empatia, de amor, do sentimento de pertença. E percebeu que as pessoas que se sentiam merecedoras desse amor e desse sentido de pertença (por oposição àquelas que se questionam constantemente se serão suficientemente boas para o merecer) tinham em comum quatro características: Coragem (de serem imperfeitas), Compaixão (com elas mesmas primeiro, e depois com os outros), Afinidade (estavam dispostas a abdicar de quem achavam que deveriam ser, para serem, de uma forma autêntica, quem realmente eram, o que é indispensável para a afinidade), e Vulnerabilidade.
Estas pessoas falavam da vulnerabilidade como sendo necessária (mas nem por isso mais confortável ou menos dolorosa) e mostravam-se dispostas a fazer algo para o qual não houvesse quaisquer garantias, para dizerem “amo-te” primeiro, para respirar fundo enquanto aguardavam o telefonema do médico depois de um exame delicado, estavam dispostas (e consideravam fundamental) a investir numa relação, que podia ou não resultar. Abraçavam completamente a vulnerabilidade, acreditando que o que as torna vulneráveis as torna também bonitas.


 Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A esquizofrenia pode não ser incapacitante

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2002, descreve perturbações mentais e comportamentais como situações clinicamente significativas, que se caracterizam por modificações do pensamento e do humor ou por comportamentos associados à angústia pessoal e/ou agravamento do funcionamento. A mesma OMS define saúde mental como o estado de bem-estar no qual realizamos as nossas actividades, gerimos o stress do dia-a-dia, trabalhamos de forma produtiva e contribuímos para a comunidade em que estamos inseridos. Assim, através da OMS, têm sido criados nos últimos anos a nível europeu e mundial, documentos relevantes para fortalecer uma visão holística da saúde mental, partindo do princípio de que não existe Saúde sem Saúde Mental (Comissão das Comunidades Europeias, 2005).

Ao falar-se de doença mental grave surge como paradigma a esquizofrenia, a “loucura” da psiquiatria clássica. Foi relativamente recente a mudança que ocorreu no Ocidente, ao dar à loucura o estatuto de doença mental (Foucault, 2008). A esquizofrenia afecta cerca de 1% da população e o destino destas pessoas, até há poucos anos, era viverem em asilos ou hospícios por longos períodos de tempo e muitas vezes o resto da vida (Alves, 2001; Oliveira & Filipe, 2009; Pulice & Miccio, 2013). Na segunda metade do século XX ocorreu uma evolução na forma como se encara esta doença mental por três principais factores: os progressos da psicofarmacologia, a transformação do movimento dos direitos do homem num fenómeno internacional, e a consciencialização de que a saúde mental é uma componente da condição de saúde e bem-estar (Alves & Afonso, 2006).

A esquizofrenia é uma das doenças do foro mental mais incapacitantes, não só para a pessoa em si, mas também para as pessoas da sua rede de relações sociais e familiares. Resulta numa grande alteração da personalidade, do pensamento, dos afectos e do sentido da própria individualidade, levando a pessoa a confundir a fantasia com a realidade e que geralmente conduz a modos de vida inadaptados e ao isolamento social.

É uma perturbação mental que apresenta múltiplas causas, embora sejam de destacar as vulnerabilidades genéticas às quais se adicionam diversos factores de stress no desencadear da doença. O aparecimento da esquizofrenia ocorre normalmente entre os 16 e os 25 anos. O perfil do aparecimento da doença não é uniforme no que se refere à altura do seu aparecimento nem à forma como se revela sendo que a evolução da esquizofrenia pode ser caracterizada por dois estádios, súbito ou lento. No estádio súbito, manifesta-se rapidamente e tem uma evolução em poucos dias ou semanas, enquanto no estádio lento o diagnóstico precoce é muito mais difícil e pode mesmo levar vários meses ou anos até que se detecte. No caso da evolução lenta, a esquizofrenia no grupo dos jovens adultos pode mesmo ser confundida com as chamadas crises de adolescência e por este motivo frequentemente desvalorizada.

A sintomatologia que pode estar presente:
• Delírios, ideias delirantes (pensamentos irreais, como, por exemplo, as ideias de ser perseguido ou vigiado)
• Alucinações (percepções irreais, ouvir, ver, saborear, cheirar ou sentir algo irreal, como, por exemplo, vozes que mandam fazer alguma coisa, ou comentam factos)
• Pensamento e discurso desorganizado (elaborar frases sem sentido ou inventar palavras)
• Agitação, ansiedade
• Falta de vontade ou de iniciativa
• Isolamento social
• Apatia
• Indiferença emocional

Trata-se de uma doença que apresenta várias possibilidades de tratamento, mas o farmacológico juntamente com o psicológico facilitam numa maior adaptação, sendo que a maioria das pessoas que se tratam podem levar uma vida praticamente sem limitações.

Os principais objetivos que podem ser atingidos na psicoterapia de uma pessoa com diagnóstico de esquizofrenia são: fornecer informações sobre a doença e procurar modos de lidar com ela, restabelecer o contato com a realidade (a pessoa será capaz de reconhecer experiências reais e diferenciá-las das alucinatórias ou delirantes), identificar factores stressores e capacitar a pessoa a lidar com os eventos da vida e discutir formas de suportar, modificar ou compreender melhor as situações vividas. Assim, pode-se ter uma melhor evolução na doença, com um crescimento, resultando num aumento da qualidade de vida e na adaptação social, conquistando uma maior autonomia e independência e diminuindo o isolamento. O sucesso do tratamento da esquizofrenia passa pelo envolvimento da família e das pessoas próximas, de modo a que elas possam facilitar a adaptação da pessoa em causa, à sua condição e para que todos possam aprender mais sobre esta doença.

Diversas investigações, em vários países, têm indicado que as pessoas desinstitucionalizados, ao estarem inseridos na comunidade, demonstram uma evolução positiva na aquisição e desenvolvimento de competências da vida diária e na qualidade das interacções sociais, a nível global de funcionamento e na qualidade de vida. Com um acompanhamento numa abordagem comunitária, a autonomia e o desempenho geral dos pacientes podem ser melhorados (Bond e col., 2004; Leff, 2000; Trieman, 2000; Vidal, Bandeira & Gontijo, 2008). Estudos feitos pelo programa global da Associação Mundial de Psiquiatria para diminuir o estigma e discriminação em relação à esquizofrenia (Leff, 2008), demonstraram que o isolamento e afastamento das pessoas com doença mental do resto da sociedade permite mais facilmente desencadear medos e fantasias sobre a loucura por parte da sociedade (Link & Cullen, 1986; Phelan & Link, 2004).

Assim, acaba por ser um dado consensual que um tratamento com abordagens integradas para a pessoa com doença mental grave, que incluam procedimentos biológicos e estratégias psicossociais focadas na pessoa e na família, são uma necessidade (Gonçalves-Pereira, Xavier, Neves, Barahona-Correa & Fadden, 2006). É da integração das possibilidades de intervenção existentes, que envolvem técnicos de saúde (psiquiatras, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, etc.) e as diversas estruturas de suporte disponíveis (familiares, sociais e comunitárias), que surgem as alternativas de tratamento acessíveis às pessoas com esquizofrenia, nos contextos em que vivem (Campos, 2009).

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.