terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A arte de perder o tempo, que não se perde

Liniers ou Ricardo Liniers Siri (nascido em Buenos Aires em 15 de Novembro de 1973), é um cartoonista reconhecido na Argentina, como também a nível mundial.

Hoje decidi partilhar o seu cartoon mais recente, e podermos reflectir nesta relação tão simples entre Enriqueta - uma miúda curiosa sobre a vida e o que a rodeia, e o seu amigo Fellini - o  seu gato. Pequenos diálogos, simples, com poucas palavras, mas tão ricos, proporcionando reflexões importantes.

Hoje sugiro a reflexão sobre o tempo... sobre esse tempo que não se perde, mesmo que não se esteja a fazer nenhuma actividade ou tarefa. O tempo que não se perde, tal como Enriqueta refere, "é o tempo que os meus pensamentos usam para viajar livres pelo meu cérebro".

Numa sociedade onde o fazer, fazer, fazer, impera! Onde há uma pressão constante por desempenhos excelentes e uma rentabilidade máxima. Onde o fazer nada passou a ser visto negativamente; numa urgência constante em responder às expectativas pessoais e sociais, gerando-se assim as condições óptimas para o desenvolvimento de quadros de stress, mal estar e insatisfação...

Por isso, hoje sugiro ouvirmos a Enriqueta...

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Recordando Dolores O´Riordan



Dolores O´Riordan, vocalista da banda irlandesa The Cranberries, morreu no passado dia 15 de Janeiro, aos 46 anos, por motivos ainda desconhecidos. A sua voz e sonoridade inconfundível, onde parecia coexistir em simultâneo uma expressão profunda de dor e força, fazem parte da memória afetiva de muitos de nós.
Dolores O´Riordan tornou publico, em vários momentos,  a sua luta contra a depressão e a perturbação bipolar que lhe foi diagnosticada em 2015, abrindo com isso espaço para o diálogo sobre a saúde mental.
Segundo a artista, o transtorno era a causa de seus surtos de agressividade.
"Há dois extremos na escala: você pode se sentir extremamente deprimida (...) e perder o interesse nas coisas que ama fazer, e logo se sentir supereufórica", disse ao jornal Metro.
"Mas você só fica nesses extremos por cerca de três meses, até que vai ao fundo do poço e cai na depressão. Quando você está transtornado, não dorme e se torna muito paranóico."
E a depressão, segundo O'Riordan, "é uma das piores coisas que podem acontecer com você".
Durante vários anos, a anorexia foi acompanhada de abuso de álcool e pensamentos suicidas, tendo revelado que em 2013, tentou o suicídio com uma overdose.

Na sua recuperação, referiu que o apoio dos seus três filhos teve um papel fundamental.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Desconstruir para reconstruir

Quando damos início à construção de uma casa preocupamo-nos com os fortes alicerces, com um bom material, com uma construção com medidas fidedignas, porque sabemos que caso algum destes aspectos não for tido em conta, podemos estar a colocar em causa toda a construção. E se por acaso quando estivermos já no momento das pinturas nos apercebermos que a parede está torta, temos que a deitar abaixo para fazer uma nova parede direita. Mas algumas vezes só nos podemos aperceber que ela está torta quando a vamos pintar ou apenas quando vamos colocar um quadro e ele ficar também torto...

Por vezes há momentos em que a nossa vida vai seguindo, vamos fazendo coisas e parece que está tudo bem, até que tentamos fazer algo e nos apercebemos que não conseguimos, apesar de até tentarmos de muitas formas diferentes. Mas e se esse insucesso não estiver relacionado com as nossas competências? Ou quando as nossas próprias competências poderem ter sido desenvolvidas segundo uma parede sempre torta? E quando nos apercebermos que sempre acreditámos em algo que nos fez sentido toda a vida, até este preciso momento?

Há situações em que parece que, por maior que investimento que fizermos ou mais tentemos avançar, algo está estagnado sem permitir o seguir em frente, nem permitindo a nossa concretização quer pessoal e relacional, como a profissional. E quantas vezes nessa altura nos podemos sentir confusos sem perceber a razão... E, na verdade, muitas vezes a razão pode estar mesmo em nós, nas nossas crenças.

São as nossas crenças que criam a construção da nossa realidade, e a realidade é única para cada um de nós: a nossa forma de olhar, de perspectivar, de pensar, de sentir, de interpretar, de agir... Somos nós que criamos a nossa própria realidade.

As crenças são adquiridas a partir de muito cedo da nossa existência, desenvolvidas e mantidas através de toda a nossa experiência de vida. Tudo o que somos no presente é a soma das nossas experiências, a forma como nos tratamos a nós próprios e como nos vemos, tem muito a ver com a forma como fomos tratados e olhados quando crianças e jovens. Isto significa que podemos chegar a um momento em que nos apercebemos que não acreditamos que tenhamos a capacidade de, por exemplo, criar o nosso negócio, ou que não somos merecedores de alguém que nos trate bem, e que é essa crença que nos está a boicotar de seguir em frente com esse projecto profissional ou relacional. Mas e essas crenças que nos direcionaram até agora têm que ser necessariamente verdadeiras? Mas e se essas crenças nos estiverem a boicotar a possibilidade de atingir o que realmente é importante no presente?

Para podermos avançar com novas formas de nos vermos, temos que desconstruir a base, para reconstruirmos essa imagem de uma maneira mais funcional e saudável, que nos permita avançar para o que nos faz sentido no presente, para o nosso bem-estar, sem amarras do passado. Quando essas amarras perduram temos a tendência de procurar e de dar uma maior atenção às ideias e situações que confirmam as nossas crenças, fortalecendo-as e solidificando-as assim cada vez mais, e ignoramos ou damos menor importância às evidências que vão contra a nossa crença, comprometendo a nossa capacidade de avaliar e interpretar as situações.

É a consciência das nossas crenças que nos pode fazer decidir desconstruí-las (pondo à prova a sua funcionalidade, a sua verdade, a sua adequação) para conseguirmos criar em nós uma maior harmonia e bem-estar connosco e com os outros.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

Artigo escrito para a Revista Psicologia da Actualidade - encontra-se na edição nº 40, Janeiro- Fevereiro 2018


domingo, 7 de janeiro de 2018

Viver bem no Novo Ano


Nestes primeiros dias do novo ano, em que muitos procuram descobrir novas formas de aumentar a sua qualidade de vida e bem estar, seria interessante, antes de mais, compreender o que significa afinal viver bem.
Vivemos numa era em que somos inundados, através das redes sociais, por publicações que projetam imagens de felicidade associadas a festas, viagens, aos melhores amigos, aos melhores namorados. A exposição a estas mensagens poderá, de certa maneira, gerar a crença  que viver bem é experienciar esta constante diversão e que, por conseguinte, a vida rotineira do quotidiano seria maçadora e desinteressante.
Esta ilusão que é vendida é suscetível de produzir, por um lado, uma sensação de admiração e de desejo em frequentar os mesmos lugares, fazer as mesmas viagens, conhecer aquelas pessoas, ou fazer aquelas atividades e por outro lado, gerar uma sensação de frustração e de fracasso por não se conseguir ter uma vida assim.
Na realidade, para vivermos bem, é importante a existência de uma rotina e a aceitação de que essa rotina tem inevitavelmente um caráter de repetição que pode ser organizador e gratificante desde que esteja em sintonia com as nossas características pessoais e aspirações.
Os períodos de pausa e de férias são importantes para relaxar, descansar e para uma libertação temporária das responsabilidades, horários e obrigações laborais. No entanto, se este tempo para não fazer nada ou de festa passasse a ser a rotina do quotidiano, acabaria igualmente por se tornar monótono e conduzir a uma sensação de enfraquecimento e de empobrecimento do eu.
A robustez da auto-estima é, sem dúvida, um  fator determinante para se viver bem e relaciona-se com o orgulho que temos em relação aos nossos valores e à forma como os refletimos na nossa conduta e na relação com os outros. Viver bem associa-se à existência desta congruência interna, sendo igualmente importante uma rotina na qual nos ocupamos com coisas que gostamos e das quais temos um retorno gratificante e compensador.
Quando estamos ocupados e envolvidos a fazer algo que nos interessa e entusiasma, ficamos totalmente conectados no momento presente e o tempo flui de forma rápida. Estas sensações agradáveis podem advir de trocas relacionais significativas, de atividades de lazer ou intelectuais (leitura, cinema, arte, música) e de atividade físicas como o desporto ou a dança, que aumentam a  produção de endorfinas, hormona responsável pela sensação de bem-estar.
Podemos concluir que viver bem se relaciona sobretudo com a construção de uma rotina congruente e harmoniosa com a nossa natureza humana, que transparece a nossa autenticidade e não com a superficialidade associada à imitação de um estilo de vida projetado e alheio.


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Novo Ano e muita coisa se mantém...

No ano passado, aqui (https://claramente-psi.blogspot.pt/2016/12/recomecos-com-sabedoria.html) falei sobre esta altura do ano ser inevitável não se pensar ou não se falar em finais e retrospectivas, mas também em recomeços, novos objectivos e metas. Inevitável, nem que seja pelas notícias da televisão e jornais ou pelas 12 passas que alguns obrigatoriamente têm que comer à meia-noite na passagem de ano.

No entanto, essa necessidade de criação de objectivos muitas das vezes mais influenciada por alguns factores externos do que propriamente internos, facilmente nos leva à não concretização dessas mesmas metas.

Quando criamos objectivos para o Novo Ano, não nos podemos esquecer antes que tudo, que somos a mesma pessoa do ano anterior e de todos os outros anos, e que caso não tenhamos conseguido mudar algo em nós, é porque pode ser que não estejamos tão motivados (ainda) para essa mudança e podem existir realmente algumas dificuldades nesse processo. Assim, sem pensarmos em estratégias para nos motivar ou em estratégias específicas para ultrapassar as dificuldades, o objectivo ficará apenas no ar, e provavelmente sem ser concretizado.

Um Novo Ano com consciência das nossas dificuldades, das nossas limitações, do nosso passado, das nossas feridas, das nossas aprendizagens... É essa consciência que nos faz ser capaz de criar objectivos e metas realistas, sem chegarmos a Fevereiro frustrados, pelas resoluções do novo ano já terem ido por água abaixo... Porque será que em Fevereiro isso acontece?

Talvez uma óptima resolução de Ano Novo será permitirmo-nos ter tempo para pensar, reflectir, e estar em contacto connosco mesmos. A consciência sobre nós próprios permite-nos conhecermo-nos melhor, e por isso também saber o que queremos verdadeiramente para nós e o que estamos dispostos a fazer, facilitando a escolha do caminho a seguir.

Um Bom Ano 2018!


Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A equipa da ClaraMente deseja-vos Festas Felizes!


A equipa da ClaraMente deseja as todos os seus pacientes, familiares, amigos, seguidores e parceiros Festas Felizes!!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

"Cordas"...porque há cordas que não amarram mas que antes libertam



Na semana passada assinalou-se no dia 3 de Dezembro o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência, que visa promover uma maior compreensão dos assuntos relativos à deficiência e a mobilização para a defesa da dignidade, dos direitos e do bem-estar destas pessoas.
Apesar do paradigma atual assentar numa lógica de inclusão, em muitos contextos continuam a verificar-se práticas de exclusão e de discriminação, sobretudo porque a deficiência não é entendida numa lógica de diversidade. O preconceito inerente ao que é diferente, acaba por constitui-se como um obstáculo ao estabelecimento da relação e ao conhecimento daquela pessoa no seu todo que é rotulada e definida pelas suas limitações. Este não é o caso de Maria, a  protagonista da curta metragem de animação “Cordas” cuja aceitação incondicional do seu novo colega de turma que sofre de paralisia cerebral não deixa ninguém indiferente.
Apesar de ver as limitações do amigo, Maria não desiste e faz de tudo para que ele se divirta e consiga brincar. Readaptando e recriando jogos e atividades, Maria celebra a vida do amigo e a força do vínculo afetivo que é estabelecido é de tal ordem transformador para ambos que irá marcar e mudar as suas vidas para sempre.

“Cordas”,  ganhou o Prémio Goya em 2014, na categoria de Melhor Curta Metragem de Animação. O filme foi inspirado nos filhos do seu criador, Pedro Solís, que tem uma filha muito ligada ao irmão com paralisia cerebral. Nos agradecimentos, o diretor Pedro Solís dedica o filme à sua filha, por ter inspirado a realização da obra; ao seu filho, que ele desejaria nunca ter inspirad o trabalho; e à esposa, Lola, por todas as vezes em que ela não chorou na sua frente. Solís deixa ainda a mensagem: há cordas que não amarram, mas antes libertam.