terça-feira, 13 de março de 2018

A Leveza da Gratidão


Gratidão é um sentimento de reconhecimento, é sentirmo-nos agradecidos a alguém ou a uma situação.

Como é quando se sente grato? Se estiver totalmente atento ao seu corpo quando se sente grato, quais são as sensações? E se se focar nessas sensações? Como se sente? E se ficar durante uns minutos com essas sensações e com esse sentimento de gratidão, como se sente? E como é voltar à sua tarefa após este exercício? Quer experimentar?

Todos nós nos queixamos por algo, porque não nos sentimos valorizados no trabalho, porque o colega nos aborreceu, porque há demasiado trânsito e nos faz chegar atrasados, porque os filhos não fazem o que deviam, porque os pais não param de dizer o que era suposto fazer... Queixamo-nos porque gostaríamos que as coisas fossem um pouco ou muito diferentes, certo? Mas, e se procurarmos pensar também ao contrário? Quais são as coisas que eu tenho que valorizo? Quais são as coisas mais importantes na minha vida? A que é que me sinto grato? A gratidão permite sentirmo-nos cheios quando parece que não temos nada. Também nos dá paz quando somos capazes de ver quem faz parte das nossas vidas, apesar de pensarmos que estamos sozinhos.

Quando nos envolvemos com os pensamentos negativos sobre os temas que nos fazem queixar da vida, sentimo-nos frustrados e temos a sensação que não temos controlo na nossa vida. Mas se efectivamente não podemos mudar as coisas que não nos agradam, viver envolvidos nesses pensamentos e sensações desagradáveis, faz-nos viver centrados na parte menos positiva da nossa vida... Mas então e as coisas boas? Faz sentido desvalorizarmos as coisas boas que temos na vida? A olharmos para a parte positiva da vida, passamos a tomar mais consciência do que temos e isso ajuda a mudar o foco atencional.

Ao pensar naquelas pessoas que parecem estar sempre felizes e bem-dispostas, acha mesmo que essas pessoas não têm problemas? Tente perceber onde essas pessoas focam a sua atenção, acha que valorizam as coisas boas que têm ou as coisas menos boas?

A nossa vida está cheia de relacionamentos, momentos e situações que nem sempre são agradáveis. Há pessoas que nos magoam, relacionamentos que terminam, situações que nos criam mal-estar, tristeza e ansiedade. Às vezes temos que nos afastar das pessoas tóxicas para termos uma boa saúde mental. E se em vez de ficarmos irritados, agradecermos pelo tempo que essas pessoas nos acompanharam e pelo que elas nos ensinaram? Mesmo as pessoas que nos magoaram muito, permitiram-nos desenvolver recursos internos para lidar com a dor e com o sofrimento. Gostaríamos que as coisas tivessem sido diferentes? É possível. Mas na verdade crescemos, evoluímos e desenvolvemo-nos como pessoas ao ter passado por essa situação. Não podemos voltar atrás para não ter vivido essa mágoa, então que tal tentarmos retirar a aprendizagem dessa situação e sentirmo-nos gratos por essa aprendizagem? Quanto mais capazes formos de nos sentirmos gratos, melhor fechamos as feridas, perdoamos e esquecemos.

Não podemos agradecer apenas pelas coisas boas e esperar que as más desapareçam. É importante também pensar nas experiências e nas pessoas negativas como um caminho para melhorar. Quer as coisas boas, como as más oferecem motivos, conhecimentos e razões para continuarmos a demonstrar gratidão, por tudo. Naturalmente, vai-nos chegar à cabeça num primeiro momento a dúvida: - Como é que vamos agradecer por aquilo que nos fez mal? - É importante não esquecer que isso faz parte de viver e de crescer.

Viver num estado de gratidão é estar em harmonia com o que somos, saber agradecer é uma arte, que mesmo achando que não sabemos, podemos ir desenvolvendo. O apreciar das coisas simples, o apreciar dos pequenos momentos de alegria e agradecer por tudo o que vivemos e que temos, faz-nos sentir felizes. Ser grato é uma capacidade que, uma vez adquirida, transforma o nosso olhar sobre o mundo, sobre a vida, sobre as pessoas e sobre cada acontecimento. A capacidade de manter o olhar voltado para o lado bom das coisas e sentirmo-nos gratos por termos isso, vai-nos levar lentamente a uma mudança. As sensações que a gratidão nos dá, permitem-nos desenvolver um antídoto natural contra o pessimismo, a tristeza, o rancor, a mágoa, a raiva e a revolta.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

domingo, 4 de março de 2018

Como eu me vejo e como sou visto pelos outros



A imagem que projetamos de nós para o exterior nem sempre coincide com a nossa realidade interna, apesar dessa discrepância nem sempre ser clara e consciente.
Muitas vezes acreditamos que transmitimos exatamente aquilo que somos e sentimos ou aquilo que é desejado e esperado pelo nosso interlocutor mas efetivamente a percepção que é formada por este pode não estar em consonância com a nossa realidade.
Este desalinhamento reside, antes de mais, no simples facto de que somos pessoas diferentes e como tal descodificamos a realidade de maneira única e singular.
 A leitura e a descodificação de cada um é sustentada nas suas histórias de vida, crenças, valores, atitudes e expetativas, mas também nas suas dificuldades emocionais e mecanismos de defesa, o que pode condicionar a sua perceção e afetividade por determinada pessoa. Exemplo disso, pode ser o caso de uma pessoa que alimenta certos preconceitos relativos à raça, nacionalidade, aparência física e constrói uma imagem desfavorável sobre determinada pessoa ou ainda de alguém que não aceita os seus aspetos dependentes e se irrita facilmente com pessoas que manifestam esse tipo características.
Por outro lado, podem igualmente existir dificuldades por parte do próprio em se comunicar de uma forma clara e autêntica, não só no discurso que produz mas também na linguagem não verbal que adota, nomeadamente, postura, tom de voz e gestos, induzindo equívocos na imagem que transmite. Uma pessoa com um temperamento mais tímido, reservado e retraído, muitas vezes é percecionada como arrogante e prepotente, com a mania da superioridade, o que não poderia estar mais longe da sua realidade interna.
No pólo oposto, pessoas com características mais exibicionistas e com necessidade de ostentar aspetos que não possuem na procura da admiração e valorização do outro, também transmitem uma imagem que não corresponde à sua realidade, o que acaba também por trazer equívocos e prejuízos para a relação.
Diferente ainda é o caso de pessoas demasiado auto-críticas e com lacunas na sua confiança pessoal, que se percecionam de uma maneira mais desfavorável que as pessoas que lhes são mais próximas. Também aqui a auto-imagem e a visão do outro são significativamente diferentes, nomeadamente quando este último consegue identificar qualidades no primeiro que o próprio tem dificuldades em reconhecer.  
O conhecimento e a aceitação de todos os aspetos da nossa personalidade, das suas potencialidades mas também das suas fragilidades e limitações, é o primeiro passo para construirmos um auto-imagem completa, íntegra e positiva e assim podermos transmitir essa mesma imagem aos outros, de forma mais clara e genuína.
Apesar de sabermos que a perceção do outro pode ser enviesada, até mesmo por fatores alheios a nós, nada nos impede de tentarmos auscultar o feedback do exterior e o modo como somos recebidos. Na posse dessa informação, podemos aperfeiçoar a maneira como nos comunicamos e facilitamos o acesso das pessoas à nossa realidade interior.


quinta-feira, 1 de março de 2018

2º Aniversário da ClaraMente!!

Neste dia em que a Claramente celebra o seu segundo aniversário, agradecemos a todos aqueles que ao longo deste tempo têm vindo a demonstrar o seu interesse pelo nosso trabalho e que nos motivam a fazer cada vez mais e melhor.

Um agradecimento especial aos nossos pacientes pela confiança que depositam nos nossos serviços, possibilitando o nosso crescimento profissional e levar a cabo a missão que abraçámos e nos move todos os dias: a promoção da saúde mental e da qualidade de vida de quem nos procura. 

Agradecemos também aos nossos parceiros pelo interesse e divulgação dos nossos artigos e serviços e ainda aos nossos seguidores pela sua participação nas redes sociais através de comentários, partilhas e interacções. O vosso feedback é muito importante para nós. 

Neste último ano, contámos com uma nova colaboração no consultório das Caldas da Rainha, o psicólogo Nuno Gago, o que nos permitiu dar resposta aos muitos pedidos nesta área de atendimento e levar a cabo no mês de Novembro o rastreio cognitivo. Foram ainda estabelecidas novas parcerias, nomeadamente com a Dona Leonor Pharma e com o Portal Viva Saúde, mantendo-se a parceria com o Portal dos Psicólogos e com a Revista Psicologia da Actualidade.  Destacamos ainda a colaboração das nossas psicólogas, nas revistas "O nosso Bebé" e "Vogue", para as quais as mesmas aceitaram o convite de conceder entrevistas para debaterem os temas colocados pelas revistas. 

Que este próximo ano traga consigo novos desafios transformadores!

ClaraMente, ao encontro do seu bem-estar emocional!

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Escher e a Psicologia

Maurits Cornelis Escher foi um artista gráfico holandês conhecido pelas suas xilogravuras e litografias que tendem a representar construções impossíveis, preenchimento regular do plano, explorações do infinito e metamorfoses – padrões geométricos que se transformam em formas completamente diferentes. Este gráfico holandês é, sem dúvida, um dos criativos modernos que é mais frequentemente abordado para questões psicológicas.

Não se pode negar que as suas obras evocam uma certa sensação de curiosidade e inquietação. Certamente, Escher sabia disso e usava esse efeito perturbador. O paradoxo estava presente constantemente. Ele usou a distorção e a vertigem ao utilizar o mais racional e ordenado dos produtos da mente humana: a geometria.
                            
Normalmente, os seus desenhos são questionados quando se trata de ilusões ópticas, e de processos envolvidos na percepção visual com referências explícitas aos estudos de Psicologia da Gestalt. No entanto, o interesse psicológico que despertam as suas litografias vai muito além da curiosidade relacionada ao fenómeno das ilusões. O uso consciente de poliedros, relações geométricas e distorções, visando provocar um efeito paradoxal, foi notado e apreciado pelos pensadores do século passado, mas suscitam ainda um grande interesse na actualidade.

Fica aqui a sugestão de verem a exposição de Escher em Lisboa, no Museu de Arte Popular, até dia 27 de Maio.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Piper - saindo da zona de conforto e descobrindo o mundo





A animação Piper-Descobrindo o Mundo conquistou o Óscar de melhor curta metragem de animação em 2016 sob a direção de Alan Barillaro e Marc Sondheimer.
A história centre-se nas dificuldades e perigos enfrentados por um pequeno pássaro que deixa o ninho pela primeira vez para procurar comida no mar.
 A saída da zona de conforto rumo ao desconhecido, que implica o confronto com os próprios medos e dificuldades é uma experiência com a qual qualquer um, independentemente da idade, se pode relacionar.  
Na superação das adversidades, a coragem, a persistência e a criatividade, nomeadamente a capacidade para reinterpretar a realidade adversa de forma positiva e encontrar novas possibilidades (tal como o protagonista da história deixou de olhar a onda como uma adversidade para passar a encará-la como um meio de encontrar o alimento mais rapidamente) desempenham um papel fundamental para alcançarmos os objetivos desejados, construirmos aprendizagens e expandirmos a nossa zona de conforto.
Neste processo de crescimento e aprendizagem, o filme realça a importância da figura materna enquanto figura de suporte que está presente mas que concede o espaço necessário para que a sua criança possa cometer erros e aprender a resolvê-los por si, visando a construção da sua autonomia e segurança pessoal.

https://www.youtube.com/watch?v=DGeTa4v-LdA


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Uma boa comunicação – A base para qualquer tipo de relação

Em qualquer tipo de relação que se cria e /ou que se mantém, um dos aspectos essenciais é a comunicação. A comunicação é o processo pela qual trocamos informações, questionamos, partilhamos os nossos pensamentos e emoções. É a base para um bom entendimento.

No meio profissional, no ambiente familiar, conjugal e social, é fundamental uma boa comunicação, para facilitar o desenvolvimento dessas relações.

Uma boa comunicação não é uma linguagem com palavras bonitas, caras ou sofisticadas. O ser-se compreendido de forma eficaz só é possível através de uma boa comunicação, e essa habilidade é possível a todos, mesmo com uma linguagem simples.

Então, quais são os aspectos a que devemos estar mais atentos para nos fazermos entender?

1- É fundamental ter-se uma ideia bem clara do que queremos passar à outra pessoa.

2- Manter-se o foco na ideia que se pretende transmitir e não agarrar outros temas, mesmo que estejam relacionados. O desviar da ideia principal, pode criar confusão a quem nos ouve.

3- Ter o objectivo bem definido e certificarmo-nos que a(s) outra(s) pessoa(s) recebe(m) a informação que queremos passar.

4- Quando achamos que algo é óbvio, não significa que para a outra pessoa também o é, por isso é muito importante tornar o implícito em explícito. A outra pessoa não pensa como nós nem nos lê os pensamentos.

5- Dar atenção à linguagem verbal mas também à não verbal. A linguagem corporal e o tom de voz têm uma grande importância na comunicação. Não adianta estarmos a utilizar palavras simpáticas se a nossa postura é agressiva. Procurar uma coerência entre o que se diz e como se diz, vai facilitar a comunicação.

6- Não falar apenas, mas criar espaço e permitir ouvir o outro (é essencial irmos percebendo o feedback do outro para percebermos se nos está a compreender).

7- Saber ouvir é também saber comunicar. Quando a outra pessoa fala, ouvir realmente o que está a dizer, sem interromper. Uma escuta activa e empática ajuda bastante e quando não entendemos algo, questionamos no final.

8- Saber aceitar as críticas da outra pessoa sem nos colocarmos na defensiva. Mesmo que a crítica não seja fácil de ouvir, é importante entender o que pensa e sente a outra pessoa, apenas assim se podem resolver os problemas.

9- Aceitar as diferenças. As pessoas são diferentes e é essencial aceitar que cada pessoa vê e sente de forma diferente, e às vezes muito diferentes. Por mais que seja diferente, não significa que é a nossa ou a do outro que esteja errada. Se não é possível chegar a um acordo, é importante tentar chegar a um entendimento mútuo onde se respeitam ambas as partes.


Todos somos diferentes, não vamos pensar exactamente o mesmo sobre os diversos temas. Saber ouvir, saber aceitar as diferenças e demonstrar respeito pelas críticas é essencial para uma comunicação saudável e, desta forma para relações saudáveis.

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

“Pára-me de Repente o Pensamento” – um Olhar da Psicologia




“Pára-me de Repente o Pensamento” é o título de um documentário que retrata as particularidades e o quotidiano vivido num dos hospitais psiquiátricos mais antigos de Portugal, o Centro Hospitalar Conde de Ferreira no Porto.
O título do documentário é também o título de um poema do pintor Ângelo de Lima que fez parte da revista Orpheu e que foi também paciente esquizofrénico deste mesmo Hospital. Miguel Borges é um ator que vem do mundo exterior para construir o seu personagem, mergulhando no mundo interior das pessoas que estão naquele hospital.
Enquanto espectadores, este é um documentário capaz de nos tocar profundamente e  levantar um conjunto de questões sobre a condição humana, despertando em nós reacções emocionais tão diferentes que podem ir do riso ao “nó na garganta”.
A possibilidade que temos em escutar estas pessoas e em compreender as suas histórias de vida, pensamentos, medos, alegrias e esperanças, permite-nos ter um olhar mais próximo delas, bem como a noção da dimensão da sua humanidade, dignidade e sabedoria. Sabedoria essa que vai muito além daquilo que os livros ensinam mas que se funda primordialmente em experiências de vida de um valor inestimável.
 A fragilidade e a força que delas emana a par da generosidade das suas partilhas, sem carapaças e armaduras às quais estamos tão habituados, são ao mesmo tempo desarmantes e comoventes.
Curioso é pensar, como a dificuldade que muitas vezes temos em olhar para estas pessoas se prende com a nossa própria dificuldade em contactar com a nossa fragilidade, vazio e medo do abismo e como muitas vezes, à semelhança do título do documentário, desejaríamos que a mente nos desse tréguas e parásse por um instante.