quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Era uma vez... eu

As histórias da maioria de nós parecem ter, entre muitos, um ponto em comum: de acordo com alguma investigação, e mesmo relatos menos formais, no leito de morte o arrependimento por aquilo que não se fez parece imperar.
Será que era disso que falaríamos se escrevessemos sobre as nossas vidas postumamente? Será que esse nosso Eu, diria ao de hoje, "Faz!"? E o que diz o nosso Eu de hoje ao nosso Eu de ontem? E ao de hoje mesmo?
Há poucas semanas aceitei um desafio em que me foi proposto identificar e descrever os "capítulos"  da minha vida. Quero desafiar-vos também: se as vossas vidas fossem livros, quais os capítulos que teriam? Quantos eram? A que diriam respeito? Seriam organizados cronologicamente, numa sequência de diferentes fases de desenvolvimento? Ou o tempo não teria muita relevância nessa escolha? Seria o espaço?!? Ou também não? Enquanto unidades de significado, marcadores de vida, a que corresponderiam esses capítulos?

É comum no final de um caminho, de um projecto, de uma viagem, de uma fase, olharmos para trás. Fazemos uma espécie de balanço, avaliamos o que aconteceu, criticamos o que consideramos terem sido erros, regozijamo-nos (muito mais raras vezes) com os sucessos.
Isto leva-me a duas questões diferentes:

Por um lado, que tipo de narradores somos?
Ouve-se com frequência "Se eu soubesse antes o que sei hoje" ... Mas a verdade é que não sabíamos. Não tínhamos como saber e, por isso, dificilmente poderíamos ter feito diferente. Mas o que a investigação nos parece dizer é que esta aceitação para ser facilitada quando se fez! Mesmo que se tenha feito "mal"! E que não são os erros, mas sim o que se deixou de fazer, de tentar, de arriscar, os "não capítulos", aqueles que não chegaram a ser publicados e ficaram guardados na gaveta, que nos angustiam.
Para aqueles capítulos em que tudo parece ter corrido mal, há sempre a possibilidade de conseguirmos aprender a olhar para eles como lições aprendidas, como caminhos que tomámos e que nos ajudaram a perceber que não era por ali.

E, por outro, queremos mesmo esperar pelo fim para ver como poderíamos fazer melhor, crescer melhor, viver melhor? Ou irmo-nos narrando as nossas próprias vidas ajudar-nos-á a escrevermos histórias diferentes, a estarmos mais presentes, mais envolvidos, mais livres, e com uma maior capacidade de escolha e decisão?

São muitas perguntas, bem sei... Procuremos dar-lhes resposta?



Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.

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