terça-feira, 26 de julho de 2022

Os benefícios dos espaços naturais verdes e azuis

Nas últimas décadas, muitos estudos têm apontado uma relação significativa entre o contacto com espaços azuis e verdes (como parques ou florestas, jardins, rios e mares) e a saúde física e mental. Evidências crescentes mostram-nos que passar tempo dentro ou ao redor de espaços verdes e azuis pode melhorar a saúde, nomeadamente através dos benefícios trazidos pela paisagem, pelos estímulos sensoriais visuais, auditivos e olfativos, assim como pela atividade física e interações sociais proporcionadas por estes ambientes.

É um facto: passar tempo na natureza tem benefícios importantes para a saúde. Desde que a pessoa goste, o contato com espaços verdes e azuis é muito benéfico para a saúde mental e física; a comunhão com o meio natural pode potenciar a libertação da sensação de prazer, o que leva a uma redução da ansiedade.

Podem ser jardins, bosques, parques, trilhos, praias ou lagos. Estarmos envolvidos nestes locais ajuda a diminuir o stress do dia-a-dia e tem impactos positivos na saúde mental. “O contacto com a natureza está associado a melhor saúde mental, física, e maior sensação de bem-estar. As pessoas sentem-se melhor, mais felizes, num estado de humor mais positivo”, diz Luísa Lima, professora catedrática de Psicologia do Iscte e investigadora nesta área.

Além da sensação de bem-estar, de leveza e de liberdade, a ligação com espaços verdes e azuis naturais tem outros benefícios comprovados pela ciência. Evidências sugerem que estes espaços para além de reduzir o stresse, podem revigorar o humor, melhorar a concentração e até têm o potencial de estimular o nosso sistema imunológico. Um estudo de 2019, publicado na revista Scientific Reports, revelou que fazer mergulho por apenas 120 minutos por semana pode ajudar a melhorar a nossa saúde e bem-estar de uma forma geral. Outros estudos revelaram que passar algum tempo na natureza pode aumentar a produção de dopamina, endorfinas e oxitocina e ainda estimular o nosso sistema imunológico. A frequência cardíaca diminui, sentimo-nos mais calmos e o nosso pensamento fica mais claro. Passar mais tempo em áreas verdes pode ter um impacto duradouro na nossa saúde e bem-estar - reduzindo o número de visitas ao médico e até melhorando o humor a longo prazo. Já um estudo publicado na revista científica Environmental Psychology mostrou que apenas uma caminhada de 30 minutos num parque urbano reduziu significativamente o pensamento negativo e repetitivo em participantes saudáveis.

A evidência dos benefícios de passar tempo na natureza é agora tão convincente que médicos em alguns países, nomeadamente da Escócia prescrevem a atividade aos seus pacientes com problemas cardíacos e com depressão.

- O termo japonês Shinrin-yoku (banhos de floresta) define uma prática que explora os benefícios da interação com a natureza. Um estudo publicado na revista científica Environmental Health and Preventive Medicine mostrou que as pessoas que estiveram em contato com ambientes florestais obtiveram uma redução dos seus níveis de stress, tensão arterial mais baixa e batimentos cardíacos mais reduzidos, em comparação com as pessoas que estiveram em contato com ambientes urbanos. Os especialistas afirmam que estes resultados contribuem para o desenvolvimento de um campo de investigação voltado para a medicina florestal, que poderá ser utilizado como estratégia para a medicina preventiva.

- Uma investigação publicada na revista científica Urban Forestry and Urban Greening revelou que a interação com meios naturais aumenta a criatividade. Este estudo foi feito através da observação de um workshop de Forest Therapy (um tipo de terapia que explora o contato com a natureza) que durou três dias. Uma análise que mostrou que o desempenho criativo dos participantes aumentou em 27,74%. Além disso, a investigação concluiu que este tipo de ligação contribuiu para uma melhoria da saúde física e mental dos participantes, bem como para o aumento das emoções agradáveis e a redução das emoções desagradáveis.

- As plantas parecem ter influência no desenvolvimento de uma recuperação após uma cirurgia. Um estudo publicado na revista científica Alternative and Complementary Medicine revelou que a visualização de plantas durante o período de recuperação após uma cirurgia teve uma influência positiva nos resultados de saúde e de recuperação de doentes em pós-cirurgia. Os pacientes em quartos de hospital com plantas tiveram respostas fisiológicas significativamente mais positivas. Tensão arterial mais baixa, menos dor e menos fadiga foram os resultados apresentados por tal grupo. Estas foram as melhorias em comparação com os pacientes que estavam em salas de recuperação sem flores e plantas. Além disso, o primeiro grupo também se sentiu mais confiante.

- Um estudo realizado pela Universidade de Harvard, nos EUA, revelou que espaços com mais vegetação estão associados à diminuição da mortalidade. Após entrevistarem 108 mil mulheres, os especialistas chegaram à conclusão de que a taxa de mortalidade daquelas que viviam mais perto de espaços verdes era 12% menor. Valor este comparando com aquelas que viviam em espaços sem qualquer tipo de vegetação. Estas evidências são ainda mais fortes para as causas de morte que estão relacionados com cancro ou doenças respiratórias. Os espaços verdes estimulam as pessoas a praticarem atividade física e ainda, aumentam o envolvimento social, levando assim a uma melhoria da saúde física e mental.

Assim, fomentar a preservação dos nossos rios, lagos, oceanos, florestas e parques é essencial para atenuar os efeitos das alterações climáticas, para travar o declínio da biodiversidade, mas também para promover a nossa saúde física e mental. Num cenário mundial de urbanização crescente, prevê-se que até 2050 a população a viver em áreas urbanas possa passar dos atuais 55% para 68%. Nesta situação, os espaços verdes e azuis que integram a maioria das paisagens urbanas revelam-se de uma extrema importância na promoção da saúde.

Existe a necessidade das autarquias criarem mais opções e novos reforços de trilhos junto a rios, melhorar as condições dos parques e fomentar o uso destes locais para que as pessoas possam usufruir desse tipo de contato e assim promover a saúde física e mental.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

O Humor como Antídoto contra o Medo


  

Numa era particularmente desafiante, capaz de fazer emergir uma latente angústia existencial, podemos encontrar no humor um recurso importante para fintar o medo que temos da doença, do sofrimento e da morte.

 O medo associado à finitude, relaciona-se intimamente com a dificuldade em lidar com a incerteza e com o desconhecido. Aceitar que estas são angústias inerentes à condição humana, facilita o seu reconhecimento e a sua integração, abrindo-se a possibilidade para caminhar de mãos dadas com o medo, sem que ele nos paralise.

Uma atitude de humor perante a vida implica a capacidade para reavaliar e ressignificar uma situação à partida sentida como demasiado exigente, retirando-lhe o cariz ameaçador e introduzindo uma maior leveza do ponto de vista cognitivo e emocional. Esta atitude criativa do humor, permite ganhar distância das situações geradoras de stress, facilitando a construção de novas perspetivas e soluções. Nas sábias palavras de Chaplin: “Através do humor vemos no que parece racional, o irracional; no que parece importante, o insignificante. Ele também desperta o nosso sentido de sobrevivência e preserva a nossa saúde mental.”

O poder do riso que mata o medo, não só tem uma tradução emocional caracterizada por uma maior sensação de bem estar e prazer pela libertação de endorfinas, mas também no reforço do sistema imunitário.

Cultivar uma atitude de humor não passa pelo exercício de sarcasmo ou da diminuição do outro, mas por uma habilidade para desdramatizar e desproblematizar, bem como pelo reconhecimento de que nada é garantido e a única certeza que temos é o momento presente.

O riso tem o poder inigualável de nos colocar instantaneamente no aqui e agora e de nos permitir saborear a vida, de forma visceral. A gratidão por este presente que nos é oferecido diariamente e que comporta em si uma série de oportunidades é a base para a resiliência. E citando novamente o mestre Chaplin: “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre.”

  Em período de pandemia, no qual os desafios e as necessidades de proteção são uma realidade, continuar a alimentar o entusiamo e o prazer por estarmos vivos, é continuar a gerar energia vital para nós e para outros que dela poderão necessitar. Essa energia traduz-se pois numa maior disponibilidade, empatia e conexão com os outros, permitindo-nos responder às suas necessidades, quer seja na forma de apoio emocional ou funcional.

No humor está sempre implícita a conexão com o amor. O saber rir-se de si, nada mais é, que uma expressão do amor próprio, como um abraço que acolhe as próprias fragilidades e erros.  Perante a adversidade, o humor é o que nos resgata do caos e da destruição, preservando os laços connosco e com os outros. É sem dúvida de uma sofisticação, que, de forma quase mágica, traz o outro para nós e reforça os vínculos afetivos.

O riso compartilhado é das formas mais eficazes de lidar com os problemas da relação e o melhor antídoto contra as mágoas e ressentimentos, criando um clima emocional de amor, compaixão e aceitação, que aglutina e impede a destruição.  Este clima afetivo possibilita o olhar para dentro em segurança, sem o risco do julgamento culposo, promovendo ajustes e reestruturações que potenciam o crescimento pessoal.

O humor devolve a esperança de sair de um lugar de resignação e sofrimento para um outro onde o prazer de estar vivo é possível, como se mudasse a música da dança da vida de um fado português para um samba brasileiro.

Através do humor todo o poder conferido a falhas, imperfeições e contradições é desconstruído, tendo por isso uma função libertadora que restituí o poder ao próprio como protagonista da sua vida.


Artigo publicado na Revista Psicologia na Actualidade, Psychology Now, nº 57 Abril-Maio-Junho 2022.




segunda-feira, 18 de abril de 2022

Cuidar de mim não me torna egoísta!

Quando a nossa responsabilidade profissional nos exige as horas de trabalho e as extras para conseguirmos dar resposta a tudo, quando a nossa responsabilidade familiar nos exige cuidar dos filhos, dos pais e da casa... Quando sentimos que tentamos dar resposta, mas que constantemente nos apercebemos que não estamos a ser suficientemente bons em nenhuma das partes, quando ouvimos queixas no trabalho que temos prazos e que nos estamos a atrasar, quando ouvimos queixumes do companheiro / companheira, ou dos filhos que não passamos tempo de qualidade, ou que já não brincamos com eles... Quando temos algum tempo e não nos apetece fazer absolutamente nada! 

 --- Pausa --- urgente! 

Esta situação é a de muitas pessoas, e infelizmente são estas situações que também vão convergir em perturbações de ansiedade ou perturbações de humor. A supermulher ou o super-homem é algo inatingível. Uma idealização que até pode ter sido criado para inspirar: “Sim, você é capaz de tudo!”. Mas e seremos capazes de tudo? Talvez... mas em tempos diferentes! De certeza que não tudo ao mesmo tempo. 

Um estudo (https://www.apa.org/pubs/journals/releases/bul-bul0000138.pdf) de Thomas Curran e Andrew Hill, publicado no Psychological Bulletin, concluiu que o perfeccionismo está em ascensão. Os autores, ambos psicólogos, concluem que "as recentes gerações consideram os outros mais exigentes, são mais exigentes com os outros e são mais exigentes consigo mesmos". E quando não concretizamos as exigências que vemos e lemos serem dos outros, ao mesmo tempo que são as nossas, é o caminho fácil para nos sentirmos frustrados, falhados, tristes, ansiosos... Como contrariar esta situação? Naturalmente o primeiro passo é termos consciência do caminho que estamos a seguir... e naturalmente não podemos esperar que algo mude, quando continuamos a seguir o mesmo caminho. Depois talvez seja importante apercebermo-nos que o nível de exigência é irrealista e que talvez seja necessário fazer algo diferente... Nomeadamente dividirmos as tarefas em casa (com companheiro/companheira, filhos), pedir apoio a avós ou a tios, negociar prazos ou delegar tarefas no trabalho, colocar também como prioridade tempo para nós próprios. 

Priorizar-me não é ser egoísta, priorizar-me é gostar de mim e querer cuidar-me, não sendo incompatível com o gostar dos outros, preocupar-me com os outros e cuidar dos outros. 

Vários estudos mostram que tempo dedicado e não estruturado de inatividade equilibrado com a gestão das atividades promovem uma maior energia, clareza mental e capacidade de concentração ao longo do dia. No entanto, o vivermos tão focados e pressionados pela produtividade, pode-nos parecer até estranho... Isso porque o não fazer nada é muitas vezes associado a preguiça ou apatia, e vem acompanhado por pensamentos negativos, julgamentos e até mesmo uma sensação de culpa. 

Mas e se continuarmos por esse caminho... E cada dia nos sentimos mais cansados e com menos energia e vontade, como poderemos continuar a fazer bem as coisas, a dar de nós a quem nos é importante, e acima de tudo... Como nos vamos sentir bem? 


Cuidar de nós próprios, ter momentos de autocuidados é o que nos permite estar bem, equilibrados, estáveis e só dessa forma podemos de forma saudável apoiar e darmo-nos aos outros sem nos fazermos mal. Cuidar de nós próprios não nos torna pessoas egoístas!

segunda-feira, 14 de março de 2022

Educando para a Empatia e Não-Violência em Tempos de Guerra

 




Vivemos atualmente num contexto de conflito armado e num clima emocional de incerteza, insegurança e medo.

            Também nas escolas, desde há muito tempo, que se vivem “guerras”, verdadeiros atentados à dignidade e integridade psicológica de muitos alunos, vítimas de bullying físico, verbal e social (exclusão). O cyberbullying é hoje uma realidade caracterizada pelo uso da tecnologia para assediar, ameaçar e humilhar outra pessoa de forma repetida. Pode acontecer em qualquer local, a qualquer hora e atormentar alguém 24h por dia, perante centenas de testemunhas, sem nunca ficar revelada a verdadeira identidade do agressor. As vítimas podem sentir-se encurraladas e desenvolver problemas de saúde psicológica, como a ansiedade e depressão e cometer suicídio.

À semelhança do que acontece na sociedade, também nas escolas impera o paradigma da competitividade, em que o crescimento do próprio se faz pela anulação do outro. É a teoria da soma zero, em que aquilo que eu ganho é aquilo que o outro perde e que conduz ao desenvolvimento de seres humanos mais insensíveis, desafetados e pouco empáticos. Essa indiferença emocional é visível nas escolas quando alunos passam por outros que estão a chorar e continuam o seu caminho, sem qualquer manifestação de cuidado e empatia pelo sofrimento do seu semelhante.

Por outro lado, a não aceitação da diferença, seja em relação à raça, orientação sexual, religião, entre outras, traduz-se em atitudes de humilhação, discriminação e exclusão nas escolas, locais que deveriam ser de inclusão e esperança, pautados pela ética do cuidar e educar.

No cenário atual de guerra, urge mais do que nunca, transferir os comportamentos de solidariedade, compaixão e de ajuda, que se têm multiplicado por toda a parte, para os contextos da escola, potenciando-os nos alunos de forma a caminhar-se no sentido da erradicação do bullying.

Muitas das escolas preparam-se para receber e integrar estudantes ucranianos, em situação de grande vulnerabilidade emocional, pelo que o acolhimento nas nossas escolas, nomeadamente por parte dos alunos que serão os seus pares, é fundamental. Importa trabalhar com os nossos alunos a aceitação das diferenças, a capacidade de descentração e empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro), a solidariedade, a compaixão e o cuidado ao outro.

A guerra só poderá ser combatida com a Educação para a Não-Violência, visando aquele que é o bem maior para o maior número de pessoas e privilegiando o aspeto grupal ao individual.

Só transformando o sistema atual de competição num sistema de aliança, colaboração e cooperação é que poderão haver ganhos para ambas as partes e ainda produzir-se um terceiro ganho, a modificação do contexto global, em prol de uma sociedade mais justa, solidária e integradora.


domingo, 13 de fevereiro de 2022

A armadura da vulnerabilidade

 “Em pequenos, arranjámos formas de nos protegermos da vulnerabilidade, de nos sentirmos feridos, diminuídos ou desiludidos. Vestimos a armadura; usámos os nossos pensamentos, emoções e comportamentos como armas; e aprendemos a tornarmo-nos esquivos, até mesmo a desaparecer. Agora, enquanto adultos, percebemos que, para viver com coragem (...) – para sermos a pessoa que ansiamos ser, temos de voltar a ser vulneráveis. Temos de despir a armadura, largar as armas, mostrar-nos e deixar que nos vejam”. – Brené Brown

Há uma ligação muito próxima entre vulnerabilidade e vergonha. Geralmente, há uma associação da vulnerabilidade ao medo, a ter dúvidas, a estar em risco, exposto. Mas também se associa a vulnerabilidade a fraqueza, a angústia e sofrimento... ou seja, a coisas que não queremos sentir porque de alguma maneira não são vistas como positivas, são desagradáveis ou associadas a algo menos bom, menos forte. Ao analisar as respostas às entrevistas que foram realizadas nos estudos de Brené Brown, confirmou-se que a vulnerabilidade é o centro da vergonha e do medo.

Mas porque sentimos tanta vergonha da nossa vulnerabilidade?

Estamos constantemente a viver situações que implicam um maior ou menor grau de vulnerabilidade, e muitas vezes colocamo-nos em outras que nos deixam ainda mais vulneráveis. A vulnerabilidade é, assim, como que uma condição inerente à nossa condição humana, e, mesmo assim, achamos que podemos fugir dela?

O problema é a associação que se faz da vulnerabilidade com a fraqueza. Termos medo torna-nos fracos? Chorar torna-nos fracos? Estarmos tristes torna-nos fracos? Então, termos emoções torna-nos fracos? Errar torna-nos fracos? Mas que sociedade é esta que apenas valoriza as vitórias e enfraquece quem está a aprender? Que sociedade é esta que desvaloriza as emoções e a empatia?

Uma vez mais, debruço-me aqui nesta reflexão da importância do autoconhecimento, de termos tempo para nos compreender e acima de tudo nos aceitarmos pela pessoa que somos, com as nossas vulnerabilidades. O ser humano é um ser com forças e fraquezas, mas se conseguirmos olhar para as nossas vulnerabilidades sem vergonha de as assumirmos, cada um com as suas imperfeições (porque não existe perfeição), deixaremos de ter vergonha perante os outros. Aliás, porque o outro também tem as suas, e nisso somos todos iguais com as nossas imperfeições.

A aceitação das nossas vulnerabilidades torna-nos mais fortes e mais felizes com a pessoa que somos. O exemplo muito claro é que identificando nós uma imperfeição e tendo vergonha dela, qualquer comentário que nos possa fazer sobre isso nos vai magoar... Mas se eu própria assumir e partilhar essa imperfeição, se o outro fizer algum comentário, isso já não me atinge porque não a estou a esconder. Para além disso a partilha de vulnerabilidade (de forma natural a pessoas que sentimos que podemos confiar), cria empatia e mais facilmente a outra parte também partilha. E estamos a mostrar quem somos e a darmo-nos ao outro de forma genuína e sincera (essencial em qualquer relação saudável).

Para chegarmos à nossa empatia perante as nossas vulnerabilidades, temos que compreender aquilo que está por detrás da vergonha. Segundo a Brené Brown há 4 itens que necessitam de ser respondidos:

- Reconhecer a vergonha e compreender o que a desencadeia,

- Praticar uma consciência crítica (as expetativas são realistas?),

- Estabelecer contacto (assumir e partilhar) e

- Falar da vergonha.

A resiliência à vergonha é uma estratégia para protegermos a relação – connosco próprios e com as pessoas de quem gostamos.

“Perfeito” e “à prova de bala” são conceitos sedutores, mas não existem na experiência humana. Devemos entrar na arena, seja ela quel for – um novo relacionamento, uma reunião importante, o nosso processo criativo ou uma conversa difícil – com coragem e disponibilidade para nos empenharmos”.

domingo, 23 de janeiro de 2022

O Impacto da Pandemia na Saúde Mental dos Jovens

 

O impacto negativo da pandemia entre os jovens portugueses foi precisamente a conclusão a que chegaram os autores de um estudo realizado por uma equipa da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação (FPCE) da Universidade de Coimbra (UC). Os resultados preliminares mostram que 14% dos adolescentes, com idades compreendidas entre os 13 e os 16 anos de idade, apresentam sintomatologia depressiva elevada (acima do percentil 90).

As alterações na rotina diária associadas à pandemia, bem como as restrições nas interações sociais e o medo associado à infeção e à possibilidade de infetar pessoas próximas, consubstanciaram fatores de stress muito significativos que tiveram impacto acentuado na saúde mental dos jovens.

Se em alguns casos, houve alguns benefícios da diminuição à exposição de fatores de stress social, para a maioria dos jovens, o isolamento a que se viram (ou se veem) forçados levou ao adiar e mesmo à perda de muitas experiências - as festas, os encontros, as viagens, os concertos, os namoros - comprometendo igualmente o desenvolvimento de competências sociais como a comunicação, negociação, empatia, resolução de conflitos e tomada de decisões.  É este património inestimável de memórias e da descoberta de si no encontro com o outro, que está em causa em tempos de pandemia, ficando comprometidas as experiências de exploração, autonomia, partilha, reconhecimento, descoberta, amizade, cumplicidade, validação, pertença, intimidade e amor romântico, com implicações na construção da identidade e na valorização pessoal.

No que respeita ao processo ensino-aprendizagem, muitos alunos ficaram prejudicados no ensino à distância no que respeita à aquisição e consolidação de aprendizagens. As lacunas que daqui advém, poderão comprometer a transição para os níveis seguintes, o que se traduz em preocupação e incerteza quanto ao seu sucesso escolar e projeto vocacional.

Pais e professores podem e devem estar atentos a sinais de alerta de mal-estar, nomeadamente alterações no sono e na alimentação, diminuição da motivação e rendimento escolar, uso abusivo de jogos online e de redes sociais, isolamento social e sintomas de ansiedade, depressão e irritabilidade.

A melhor forma dos pais ajudarem os filhos, passa por revelarem uma verdadeira disponibilidade emocional para escutarem empaticamente e acolherem as suas dores, transmitindo tranquilidade e segurança.  Importa também apoiar na regulação das emoções e na flexibilidade mental, o que facilita a adaptação e a aprendizagem perante condições adversas.

Nos casos em que existe um maior risco, os pais têm um papel importante para incentivar o jovem a aderir a um acompanhamento especializado. A deteção precoce de sinais de alerta, poderá contribuir para uma intervenção atempada e para a prevenção do desenvolvimento de transtornos mentais mais graves a médio e longo prazo.

Se tem dúvidas quanto à gravidade da situação e procura um acompanhamento psicológico especializado, poderá contactar a ClaraMente e marcar uma consulta para avaliação da sintomatologia e estabelecimento de um plano terapêutico. Na ClaraMente, podemos apoiar o jovem, proporcionando um espaço de escuta e compreensão que visa promover o auto-conhecimento, e o desenvolvimento de recursos internos mais eficazes para conseguir ultrapassar as suas dificuldades e seguir em frente, na construção do seu caminho, com mais confiança, bem-estar e satisfação.


domingo, 19 de dezembro de 2021

Natal com Aceitação (pelo que não controlamos) e Gratidão (pelo que chega até nós) no sapatinho!

 

Nesta altura festiva e final do ano, seja por motivos religiosos ou por tradição cultural, é uma época em que geralmente se oferece e se recebe: presentes, companhia, memórias, emoções e ao mesmo tempo é inevitável não se pensar ou não se falar em finais e retrospetivas, mas também em recomeços, objetivos e metas.

Tendencialmente é mais fácil olharmos para aquilo que não queremos ver repetido no novo ano que se avizinha, desejar coisas novas, diferentes e melhores. Esquecemo-nos muitas vezes que a vida é naturalmente imprevisível e pouco justa. Contudo, conseguir aceitar o que não controlamos permite-nos ter mais energia para nos focarmos naquilo que depende de nós. Ficarmos agarrados naquilo que queríamos que fosse diferente, não nos permite viver em plenitude o presente.

Quando nos envolvemos com os pensamentos sobre o que queríamos que fosse diferente, sentimo-nos frustrados e temos a sensação que não temos controlo na nossa vida. Mas se efetivamente não podemos mudar as coisas que não nos agradam, viver envolvidos nesses pensamentos e sensações desagradáveis, faz-nos viver centrados na parte menos positiva da nossa vida... Mas então e as coisas boas? Faz sentido serem desvalorizadas? Ao nos focarmos no que temos a possibilidade de decidir, passamos a tomar mais consciência do que temos, do que está no nosso controlo e isso é empoderamento.

Por vezes também nos esquecemos de ficar gratos pelo que temos, ambicionando quase exclusivamente mais e melhor. Experienciar gratidão pelo que temos, na simplicidade de um pôr-do-sol, ou no sorriso de outra pessoa, não faz de nós pessoas ingénuas e/ou pouco ambiciosas... Estarmos gratos não compromete o nosso esforço e empenho no nosso futuro, permite-nos contudo aceitar que temos mais motivos para nos sentirmos satisfeitos e orgulhosos acerca de quem somos e do que alcançámos.

A nossa vida está cheia de relacionamentos, momentos e situações que nem sempre são agradáveis. Há pessoas que nos magoam, relacionamentos que terminam, situações que nos criam mal-estar, tristeza e ansiedade. Às vezes temos que nos afastar das pessoas tóxicas para termos uma boa saúde mental. E se em vez de ficarmos irritados, agradecermos pelo tempo que essas pessoas nos acompanharam e pelo que elas nos ensinaram? Mesmo as pessoas que nos magoaram muito permitiram-nos desenvolver recursos internos para lidar com a dor e com o sofrimento. Gostaríamos que as coisas tivessem sido diferentes? É possível. Mas na verdade crescemos, evoluímos e desenvolvemo-nos como pessoas ao ter passado por essa situação. Não podemos voltar atrás para não ter vivido essa mágoa, então que tal tentarmos retirar a aprendizagem dessa situação e sentirmo-nos gratos por essa aprendizagem? Quanto mais capazes formos de nos sentirmos gratos, melhor fechamos as feridas e perdoamos.

Não podemos agradecer apenas pelas coisas boas e esperar que as más desapareçam. Quer as coisas boas, como as más oferecem motivos, conhecimentos e razões para continuarmos a demonstrar gratidão, por tudo. Naturalmente, vai-nos chegar à cabeça num primeiro momento a dúvida: - Como é que vamos agradecer por aquilo que nos fez mal? - É importante não esquecer que isso faz parte de viver e de crescer.

Viver num estado de gratidão é estar em harmonia com o que somos, saber agradecer é uma arte, que mesmo achando que não sabemos, podemos ir desenvolvendo. O apreciar das coisas simples, o apreciar dos pequenos momentos de alegria e agradecer por tudo o que vivemos e que temos, faz-nos sentir felizes. Ser grato é uma capacidade que, uma vez adquirida, transforma o nosso olhar sobre o mundo, sobre a vida, sobre as pessoas e sobre cada acontecimento. A capacidade de manter o olhar voltado para o lado bom das coisas e sentirmo-nos gratos por termos isso, vai-nos levar lentamente a uma mudança. As sensações que a gratidão nos dá, permitem-nos desenvolver um antídoto natural contra o pessimismo, o rancor e a mágoa.

Hoje venho propor que possamos olhar com gratidão para o ano que agora encerra: as aprendizagens que fizemos, as pequenas e grandes coisas boas que nos aconteceram, as menos boas que conseguimos evitar ou com as quais soubemos lidar. É comum olharmos para aquilo que esperamos ter ou ver realizado no próximo ano. Mas hoje, ainda em 2021, desafio que nos foquemos no que este ano nos trouxe para a nossa aprendizagem e crescimento... E a ficarmos gratos por isso.