segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Só podemos mudar o que conhecemos



“Insanity: doing the same thing over and over again and expecting different results.”
( Albert Einstein ? )

Em tarefas mais ou menos simples, no nosso trabalho por exemplo, é relativamente frequente entrarmos em “piloto automático” – desempenhamos algo que já fizemos tantas e tantas vezes que acabamos por, pressionados por diversas exigências, nos deixarmos inundar por um excesso de confiança que leva a que a nossa resposta aos problemas seja automática. Mas, mesmo assim, sabemos que decisões tomadas em cima do joelho podem levar a graves erros no desempenho das nossas tarefas. A ideia do “fazemos assim porque foi sempre assim que foi feito” parece, felizmente, cair cada vez mais em desuso no competitivo meio empresarial. Mas, então, por que parece continuar a ser, para muitos de nós, uma espécie de mantra da nossa vida pessoal, da nossa resposta emocional aos desafios com os quais nos vamos deparando?
É verdade que se temos uma resposta emocional adequada a determinadas situações, e o nosso comportamento parece ser adaptativo face ao contexto, essas são aprendizagens a repetir. Falo aqui de quando não é isso que acontece... de quando a nossa resposta emocional ou o nosso comportamento não são de todo prazerosos, nem tão pouco, adaptativos ou nos trazem crescimento. Refiro-me aqui a quando repetimos o erro... e, pior, esperamos que o resultado seja diferente.
Só o autoconhecimento nos permite ver os “ângulos-mortos” do nosso comportamento... as situações em que tendemos a ter esta resposta automática e repetida. Este conhecimento implica ampliarmos o conhecimento de nós próprios, estarmos atentos aos nosso processos internos, num processo de auto-observação, amparados por alguém que nos acompanhe e oriente nesse processo, e/ou até mesmo ouvindo as perspectivas e opiniões dos outros acerca do nosso Eu. Contudo, tendemos a evitar este crescimento. Esta é uma tarefa frequentemente pouco confortável... não nos esqueçamos que, em parte, estamos à procura de “falhas no sistema”, de aspectos a corrigir, a melhorar, e isso pode ser doloroso. Olharmos para o nosso verdadeiro Eu, para a verdade dos outros acerca de nós, pode ser bastante assustador: “E se eu não gostar do que vir? E se for mau? E, depois, o que faço com a informação...? Não são mais felizes os ignorantes?”. A verdade pode, efectivamente, assustar... mas só ao tomarmos consciência daquilo que não gostamos em nós, daquilo que sentimos que não nos pertence, daquilo que não nos permite avançar, aceitando que, neste momento, também isso faz parte de nós, podemos mudar. Se não, permanecemos numa batalha em que não conhecemos o inimigo...
E, quando finalmente alcançamos essa consciência, por que continua a ser tão difícil mudar?
Em parte, porque muitos de nós, com maior ou menor consciência disso, crescemos com a ideia de que aquilo que sentimos como sólido e seguro nas nossas vidas hoje, permanecerá sólido e seguro amanhã. Isso faz com que, quando a mudança acontece, e porque não estávamos a prevê-la, não antecipámos que pudesse acontecer, sentimos que somos apanhados desprevenidos, e os efeitos são sentidos, muitas vezes, de forma negativa. Contudo, e infelizmente, o que parecemos aprender muitas vezes nessas situações é que a mudança é má, quando poderíamos antes ouvir “o que é familiar e aparentemente estável também muda!”.
Quase por oposição, muitas vezes tendemos a ter expectativas demasiado elevadas relativamente à mudança – frequentemente, esperamos mais do que ela pode efectivamente “oferecer-nos”. Mas este é um erro natural e compreensível, uma vez que nos serve de bengala na luta contra a inércia: por vezes aumentamos mentalmente os efeitos que uma mudança nos pode trazer, para que consigamos reunir a energia e motivação para avançar. Um dos problemas é que, ao esperarmos demais, perdemos a oportunidade de apreciar as menos fantásticas mas mais reais (e realistas) vantagens da mudança – se esperamos fogo de artifício, uma luz ao fundo do túnel vai desiludir-nos, saber a pouco (mesmo que seja isso aquilo de que estamos a precisar). Assim, ajustarmos as nossas expectativas relativamente à mudança poderá permitir-nos não só apreciá-la melhor mas também encará-la como menos assustadora.
Há ainda outro aspecto que parece afastar-nos da ideia (ou da realidade) de fazermos diferente: a mudança é lenta! E sentimos muitas vezes que não podemos esperar, ou que, na verdade, nada mudou...
Quando uma onda rebenta nas rochas da praia o que vêem? Água a bater nas pedras?!? A subida e descida da maré?!? Ainda que o saibamos em teoria, por vezes parece-nos ser pouco intuitivo que a areia resulte daquele acontecimento, das pequenas e quase imperceptíveis mudanças que acontecem, dia após dia, ao longo do tempo, que uma maré calma repetida vezes suficientes possa ter um efeito tão grandioso.
Também as grandes mudanças em nós, aquelas que são estruturais (e estruturantes), fazem-se de pequenas mudanças. Mudarmo-nos para o outro lado do mundo pode parecer rápido, visível e imediato, mas pode também não contribuir muito para o nosso bem-estar interior, se ignorarmos as pequenas, lentas, mas mais duradouras, mudanças de que precisamos dentro de nós.

Ana Luísa Oliveira escreve de acordo com a antiga ortografia.

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