terça-feira, 16 de agosto de 2016

Consciência com música, música com Capicua - Medo do Medo

O mês de Agosto é para muitos de nós aquela altura do ano, em que, independentemente de estarmos a trabalhar ou de férias, temos mais vontade de apanhar sol, de ir a uma esplanada, de ir à praia, de lermos algum ou alguns livros na tentativa de colocarmos a leitura em dia, de ouvirmos música, descobrir alguma música nova ou ouvir as nossas favoritas, ou simplesmente ouvir com mais atenção a letra.

Esta leveza de estar, por termos roupas leves, por os dias serem mais longos, por tudo andar a meio gás, pode-nos permitir estar mais connosco e com os outros, de uma forma mais genuína e total. Também ao ouvirmos uma música essa pode ser mais explorada, mesmo que já a tenhamos ouvido antes. Ouvir a letra, ouvir os instrumentos, ouvir cada pequena parte que constitui a música e ouvir o todo, como se a estivéssemos a ouvir pela primeira vez...

Este mês decidi trazer uma música, “O medo do medo”, da Capicua. 

Admito que não sigo muito este género de música, mas quando a ouvi pela primeira vez achei-a fantástica, com uma mensagem muito forte. Capicua despe a sociedade das suas máscaras, e sem preconceito, de forma nua e crua descreve algo que a maioria não quer admitir: os seus medos e a forma como lida com eles.

O medo está presente em todos nós, “é a resposta emocional a uma ameaça iminente real ou percebida, com pensamentos de perigo imediato e comportamentos de fuga, podendo o nível de medo ser reduzido por comportamentos constantes de esquiva” (DSM-V - Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5ª edição).

É importante aceitar que o medo faz parte de nós e que é adaptativo, contudo, de uma forma exagerada é algo muito limitativo, que pode condicionar a nossa forma de viver. Muitas vezes para evitarmos o que nos causa medo, fugimos de situações e criamos estratégias que se vão incorporando em nós, muitas vezes criando a ideia ilusória de que não temos medo nenhum, mas que optamos apenas por não ir ao encontro daquela determinada situação. Naturalmente ajudará aceitarmos que temos esse medo, para caso estejamos dispostos, em algum momento o podermos confrontar, e assim desenvolver estratégias para lidar com a situação e não continuarmos condicionados.

Capicua, nesta letra, consegue retratar de uma forma muito clara os medos mais sentidos por todos nós. Desde o medo natural de adaptação às fases da vida, do crescer, da rotina e da responsabilidade, do envelhecer, da solidão; das doenças; do medo de falhar as nossas expectativas e a dos outros; medo que os outros nos façam mal; medo de nós próprios, do nosso medo, da loucura.

Relativamente ao medo e à forma como ele se alimenta a si próprio, vou dar um exemplo. Vamos de férias e estamos muito entusiasmados com o local novo que vamos conhecer. Ao mesmo tempo, e apesar de algumas vezes não nos darmos conta, há uma pequena parte do nosso cérebro (a parte mais instintiva, essencial para a sobrevivência) que se activa para analisar todo o tipo de ameaças possíveis (desde da queda do avião, ao mosquito, etc.) e ambas as informações se vão unir, comunicar e influenciar uma à outra. Podemos efectivamente pensar que é um medo natural por andarmos poucas vezes de avião, ou porque é um sítio novo e é natural estarmos um pouco preocupados em termos mais informação (essa é a parte mais adaptativa do medo). Mas também podemos não aceitar de forma natural esse medo e ficarmos alarmados por o ter, e juntamente com a influência das outras pessoas e dos media, cada vez que nos lembramos, ou somos lembrados da possível ameaça, mais medo iremos sentir, independentemente do real perigo. E tendo em conta que o medo é contagiante e que ao nos focarmos no medo, ele vai-se tornar cada vez mais real, leva-nos a um medo cada vez mais intenso e exagerado.

Assim, também me parece importante reflectirmos sobre o próprio marketing e publicidade que as várias empresas de qualquer tipo nos incutem diariamente, em que muitas das vezes se baseiam no medo, e a influência que daí permitimos aceitar. O perfume da moda, a roupa da moda, o telefone da moda, incute-nos tão simplesmente o medo de não pertencermos a um grupo, de não sermos bem vistos, de sermos rejeitados pelos outros (medo que nos apontem o dedo – rejeição social).

Será que ao estarmos atentos e apercebermos-nos da certa “manipulação” publicitária podemos evitar sentir essa necessidade? Será que uma maior consciência dos nossos medos nos permite aceitá-los como adaptativos sem nos limitar?

Obrigada Capicua por esta letra fantástica que nos permite tanta reflexão!

Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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