sábado, 12 de dezembro de 2020

A Produtividade da Indignação

Todos nós temos valores e crenças sobre determinados temas da sociedade e das formas de viver, pensar e agir. Naturalmente existem divergências e todos nós sabemos da importância de sermos flexíveis para aceitar ao longo da vida, acontecimentos, atitudes e decisões com que não concordamos por parte dos outros, quando vivemos em sociedade. Em casal ou em família é importante irem havendo cedências de todas as partes, porque aí existe uma igualdade no valor da opinião e um querer manter esse sistema em harmonia. Mas quando se trata de chefias, quer a nível profissional ou qualquer outro tipo de relação de hierarquia, como se lida com a sensação de injustiça numa decisão? O que se faz quando nos obrigam a fazer algo com que não concordamos e que pode até mesmo ir contra os nossos valores? Como gerimos essa indignação que vai crescendo por dentro? O que se faz quando sentimos esse calor, dessa raiva, dessa zanga a crescer por dentro como que se nos corroesse?

Por norma à indignação e sensação de injustiça estão associadas as emoções da raiva / zanga. É essencial não abafar as emoções, mesmo que estas nos estejam a criar um grande mal-estar e desconforto no corpo. Podem-nos surgir todo o tipo de pensamentos sobre como fugir da situação, como nos vingarmos e várias formas automáticas das emoções se exteriorizarem nesse momento, como gritar e chorar, tudo de forma intensa e agitada. Exteriorizar é saudável, ajuda a descarregar a tensão acumulada e alivia, desde que não nos façamos mal a nós nem aos outros que estão à nossa volta. Se bem gerida, a raiva pode trazer benefícios para as nossas vidas se conseguirmos utilizar a situação que nos causou grande indignação, como motivação para a mudar ou mudar a nossa vida. É uma forma de transformar uma emoção que nos causa desconforto em algo positivo. Mas e quando são situações que não podemos fazer nada para mudar? A sensação de impotência pode ser ainda mais desconcertante do que a própria situação em si.

A raiva sentida é importante ser gerida, não nos faz bem vivermos com essa raiva durante muito tempo e essa sensação de impotência também é fundamental que seja ultrapassada. Essas emoções quando sentidas de forma intensa e durante muito tempo podem causar uma série de problemas físicos (dores de cabeça, tensões musculares, problemas gastrointestinais e cardiovasculares, etc.).

Então, o permitir sentir o que estamos a sentir, exteriorizar de forma positiva (técnicas de relaxamento aqui nesta fase também ajudam a apaziguar), ao mesmo tempo que procuramos dar significado a tudo o que nos está a acontecer, ajuda a encontrarmos uma posição, perante a situação, muito mais saudável. Naturalmente este processo não é fácil e pode demorar algum tempo, mas essa reconstrução acaba por ser essencial ao reequilíbrio do nosso bem-estar.

Aqui, a reflexão sobre a origem desta raiva e indignação e qual a mudança que queríamos que acontecesse ajuda-nos a situar. E à medida que vamos conseguindo estar menos ativados fisicamente e emocionalmente, vamos conseguindo distanciarmo-nos da situação e vamos conseguindo ver e pensar com maior clareza. Ter uma conversa honesta sobre o que nos incomoda, se for possível com a outra parte e conseguirmos através do diálogo dar a nossa perspetiva seria positivo, caso seja possível. Mas e quando não... Temos que o resolver connosco próprios. A injustiça é algo com que nos vamos deparando ao longo das nossas vidas. Algumas coisas chocam mais, outras menos. Mas e pensar sobre: - O que isso significa para mim? – Posso fazer algo? - Se não, como avanço a partir daqui? Aceitar que não podemos mudar coisas e que temos limites é essencial, para podermos prosseguir. É que efetivamente, não vivemos num Mundo Justo. Conseguimos por exemplo fazer algo que nos é pedido no nosso trabalho, que vai contra a nossa forma de ver? Como seria possível fazer isso sem nos sentirmos tão indignados? Como seria encontrar uma outra forma de ver isso para ser mais aceitável? Como esta situação me poderia não afetar tanto? O que poderia pensar para isto ser vivido de forma mais leve? Faz sentido avançar? Quais seriam as consequências reais de dizer que não? Estou capaz de aceitar essas consequências? Estes são exemplos de questões que à medida que vão sendo respondidas, nos permitem ver um caminho mais claro e uma direção mais definida.

Vários estudos têm demonstrado que a indignação pode ser utilizada na criação e organização de grupos, inspira pessoas a participar em ações coletivas na sociedade como assinar petições ou participar em voluntariado. Estas são formas que algumas pessoas vão conseguindo encontrar para se manterem coerentes com os seus valores, que permite canalizar a energia para um determinado alvo e um objetivo concreto e específico, facilitando o sentido que precisamos de encontrar nesses momentos de indignação.

 Artigo publicado na Revista Psicologia na Actualidade - Psychology Now, nº 51 Out-Nov-Dez 2020.

Sem comentários:

Publicar um comentário